Rega Reportagem

“São necessárias medidas de curto prazo”

〈 Publicado em 26/03/21 〉

Os associados da Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão têm sentido bem na pele o problema da falta de água que tem afetado o Algarve de forma sistemática.

O presidente daquela entidade, João Garcia, define esta situação como estrutural uma vez que chove pouco e quando acontece é frequentemente de forma torrencial, localizada e muito rápida, reduzindo a capacidade de retenção de água no solo.

Diz João Garcia que foi face à constatação de seca sistemática na região que em 2019 se criou uma Comissão de Eficiência Hídrica para o Algarve, da qual resultou um Plano de Eficiência Hídrica para o Algarve, depois da consulta de todos os setores utilizadores de água do Algarve (ver páginas anteriores).

Só 25% do regadio do Algarve é que não se socorre de águas subterrâneas

Alinhado com as medidas propostas no Plano, que acredita que terão bons resultados a longo prazo, João Garcia defende ainda de que são necessárias medidas mais rápidas porque a situação está a tornar-se muito perigosa. E contextualiza, “na realidade agrícola algarvia, entre 50 a 60% da produção localiza-se na chamada zona do Barrocal, com o fornecimento de água feita por furos artesianos. Mais de metade da produção de citrinos do Algarve faz-se a partir do principal Aquífero do Algarve (Querença – Silves) e só 25% do regadio do Algarve é que não se socorre de águas subterrâneas”.

Ora, com vários anos sem chuvas o Aquífero tem sofrido uma grande pressão, porque, como foi dito, não há capacidade para retenção das águas e este verão chegou-se a uma situação de “alerta vermelho”, com produtores a ficarem sem água para regarem os pomares de citrinos que estavam em produção, temendo-se mesmo que entrasse água salgada no aquífero”.

Solução pode (e deve) passar pela reabilitação dos perímetros de rega

Face a esta situação, na última reunião da Comissão que reúne um vasto conjunto de entidades unidas neste tema, João Garcia, deixou uma proposta em cima da mesa e que, de uma forma sucinta, passa pela reabilitação dos perímetros de rega (alguns bastante antigos) com significativas poupanças de água. O objetivo é com essa poupança poder trazer para o regadio público alguns produtores que neste momento necessitam de socorrer-se dos aquíferos. Estas propostas esbarram em algumas proibições impostas em 2019, nomeadamente o facto de só poderem entrar no regadio público os produtores que tenham terrenos dentro do perímetro, estando também proibida a abertura de novos furos. Assim sendo, João Garcia deixa a pergunta “ sem água, onde é que se vai fazer agricultura no Algarve?”.

Acredita que a ideia apresentada pela Associação daria mais pujança ao regadio público, com a vantagem de no regadio público a água ser controlada, ao contrário do que acontece no regadio privado.

Diz o dirigente que a proposta foi muito bem aceite pela APA, mas o problema está na “Administração Central, porque mexer em perímetros de rega implica mexer com muitas coisas”. Mas também defende que para situações extremas são necessárias medidas excecionais “porque há pessoas com muitos milhões de euros investidos que não podem ser postos em causa”.

Além disso, os agricultores que estão cada vez mais unidos e a criar sinergias entre si, defendem que a construção da Barragem da Foupana é estrutural para a região, em conjugação com as já existentes e porque tem vários fins (energia, turismo, agricultura, abastecimento público…), mas deve ser considerada a possibilidade de captação de água no Rio Guadiana (projeto do Pomarão).

Com rega, a agricultura algarvia ainda tem muito por onde crescer

João Garcia recorda que depois do turismo a agricultura é o setor económico mais relevante da região do Algarve, e há muito que ainda pode ser feito. Por exemplo, a região divide-se em três zonas: Barrocal, Litoral e Serra e no caso desta última as culturas tradicionais (sobreiro, medronheiro, alfarroba) podem perfeitamente ser cultivadas em sistemas de rega de precisão, e com produtividades muito superiores ao convencional.

Por outro lado, no Barrocal há muitos terrenos abandonados e de baldios que podem ser usados para citrinos ou abacate. Além da produção propriamente dita, há que olhar também para estas ocupações do território como forma de evitar os incêndios que ciclicamente vão consumindo a região.

Grande reportagem publicada em completo na edição impressa de janeiro / 2021.