Sanidade vegetal Vinha & Vinho

Doenças do lenho da videira: quais são? Como mitigá-las?

As doenças do lenho da videira são uma ameaça à produção estável em vitivinicultura e a sua incidência tem vindo a agravar-se nas últimas três décadas em todas as regiões vitivinícolas mundiais. O custo associado à reposição das videiras mortas devido às doenças do lenho é estimado em mais de 1,5 mil milhões de dólares/ano a nível mundial.

〈 08/04/21 〉

Em Portugal as doenças do lenho da videira estão presentes em todas as regiões vitivinícolas. Manifestam‑se em plantas‑mãe de porta‑enxertos, viveiros vitícolas, videiras jovens e videiras adultas, comprometendo o sucesso das plantações e a longevidade das vinhas.

Estas doenças são causadas por fungos e frequentemente há mais do que um fungo na origem da infeção, afetando tanto vinhas jovens como vinhas adultas. Nas videiras jovens, as doenças do lenho mais comuns são o Pé Negro da Videira e a Doença de Petri, também conhecida como «esca das vinhas jovens».

As videiras adultas são mais afetadas pela Esca tradicional. Há ainda outras doenças do lenho que se manifestam tanto em vinhas jovens como em vinhas adultas: Escoriose e doenças causadas por fungos do género Botryosphaeria spp. e «Botryosphaeria like».

Escoriose

A Escoriose é causada por dois fungos diferentes: Phomopsis viticola e Macrophoma flácida. A forma europeia da Escoriose, também designada por Desnoca, é a mais conhecida e é causada pelo Macrophoma flaccida, enquanto a forma americana da escoriose é originada pelo Phomopsis viticola.

Em Portugal a Escoriose europeia ocorre com elevada incidência e severidade nos diferentes materiais de propagação vegetativa, videiras jovens e adultas. Provoca a diminuição da produção, principalmente pela quebra de sarmentos e pâmpanos (desnoca), bem como destruição dos tecidos do lenho nos sarmentos e ramos, conduzindo à morte progressiva destes.

Na Primavera, o sintoma típico da escoriose são pequenas manchas negras arredondadas ou lineares, mais ou menos profundas nos entre-nós da base dos pâmpanos. Os sintomas podem surgir também nos pecíolos e nervuras principais das folhas e nos pedúnculos dos cachos. As folhas apresentam pequenas pontuações negras com auréola amarela. Nas varas aparecem necroses acastanhadas e lesões extensas com estrias perpendiculares no período de Verão, enquanto no Outono-Inverno se observa um esbranquiçamento da casca nas zonas atacadas, com posterior aparecimento de pontuações negras.

Estratégia de proteção

A estratégia de proteção deve começar pela adoção de medidas de diagnóstico e culturais:na enxertia usar material vegetativo são (bacelos, garfos e enxertos prontos) e antes da plantação efetuar um tratamento fungicida a esses materiais; identificar as cepas atacadas no Verão e marcá-las para futura intervenção durante o Inverno; proceder ao corte dos braços atacados até atingir tecido são; retirar do campo e queimar material infetado e videiras mortas; evitar grandes feridas da poda e realizar a desinfeção dos instrumentos de poda sempre que utilizados em videiras atacadas.

Os tratamentos químicos para controlo da escoriose devem ser efetuados na fase pós-abrolhamento para proteger os novos órgãos contra as contaminações feitas pelo micélio.

A Syngenta recomenda a aplicação de Quadris Max, fungicida à base de azoxistrobina e folpete. O posicionamento técnico do produto deve ser entre a ponta verde e as 2 a 3 folhas livres.

Esca

A Esca é originada por um complexo de fungos “primários” ou “percursores” – Phaeomoniella chlamydospora, Phaeoacremonium aleophilum, Phaeoacremonium inflatipes – que são responsáveis pela destruição da lenhina nos tecidos da videira e abrem caminho à ação de agentes secundários – basidiomicetas dos géneros Fomitiporia e Stereum – que destroem as celuloses e hemiceluloses e libertam compostos fenólicos, sendo responsáveis pela degradação final da madeira.

Os sintomas da Esca são atribuídos à dificuldade de circulação da seiva resultante do desenvolvimento dos fungos. A Esca pode assumir duas formas:uma evolução lenta ou uma evolução apoplética:

  • Forma lenta – folhas com manchas marginais descoradas e necrosadas entre as nervuras. Bagos com pontuações necrosadas arroxeadas. No tronco surgem necroses brancas e esponjosas. Esta doença reduz a produção de uva em quantidade e qualidade.

Sintomas de Esca nas folhas. Fonte: “Fitopalogia da Vinha”, Syngenta

  • Apoplexia – nesta forma mais rara da doença há uma evolução fulminante que seca parcial ou totalmente a videira em poucas horas ou dias. Manifesta-se normalmente durante o período quente do ano, a seguir a chuvas abundantes e atinge preferencialmente cepas vigorosas e aparentemente sãs, que de um modo geral, não voltam a rebentar no ano seguinte. As folhas e os cachos morrem por falta de alimento, devido à dificuldade ou interrupção da circulação da seiva.

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Estratégia de proteção

Deve ser privilegiada uma estratégia preventiva usando material vegetativo são, evitar grandes feridas na poda, desinfectar o material de poda, queimar a lenha de poda infetada e efetuar um tratamento fungicida imediatamente após a poda.

As videiras que tenham secado durante o Verão, ou que estejam já muito debilitadas, devem ser arrancadas antes da poda, para diminuir as fontes de infeção dos fungos durante a poda.

As videiras afetadas devem ser podadas à parte e com tempo seco, a poda deve ser moderada, sem cortes extensos, e os instrumentos de poda devem ser desinfetados regularmente com lixívia ou álcool, durante o trabalho. Também é aconselhável desinfetar as feridas de poda, por pulverização ou pincelagem, pois estas são uma via de entrada de fungos da Esca e de outras doenças do lenho.

A lenha da poda das videiras afetadas deve ser retirada do terreno e queimada.

Eutipiose

A Eutipiose é provocada por um fungo denominado por Eutypa lata, que entra na videira através de feridas recentes, como as feridas da poda.

Os sintomas desta doença subdividem-se em primários e secundários. Os primeiros resultam da ação direta do fungo e consistem em necrose setorial castanho-claro e dura em forma de cunha, no tronco ou nos braços atacados. Na Primavera surgem os sintomas secundários nos braços atacados, os lançamentos apresentam um crescimento reduzido, entrenós curtos, folhas pequenas, deformadas cloróticas e com necroses.

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Estratégia de proteção

Como estratégia preventiva, devem marcar-se as cepas doentes na Primavera, evitar grandes feridas de poda com tempo chuvoso; proceder à desinfecção do material de poda, queimar a lenha de poda infetada e efetuar um tratamento fungicida logo após a poda.

Pé Negro da Videira

A doença designada por Pé Negro da Videira ocorre sobretudo em videiras jovens até dez anos de idade e em viveiros vitícolas, sendo causada por fungos dos géneros Campylocar- pon, Cylindrocarpon, Cylindrocladiella, Ilyonectria spp. e Dac- tylonectria spp.

Os sintomas da doença surgem na parte aérea das plantas e evidenciam um atraso nos estados fenológicos. O abrolhamento é irregular, podendo mesmo não ocorrer ao longo de todo o ramo. As folhas apresentam dimensões reduzidas e apresentam cloroses, manifestando posteriormente um avermelhamento precoce. Os lançamentos apresentam um crescimento reduzido e os entrenós surgem curtos. A nível radicular, as raízes crescem pouco em profundidade e ficam necrosadas, apresentando uma cor acinzentada a negra, consoante a intensidade do ataque. Por vezes, ocorre o desprendimento do ritidoma radicular. Frequentemente, a planta doente emite novas raízes num nível superior do porta-enxerto, as quais vão permitir o crescimento da planta durante um certo período de tempo. Sob o ritidoma pode observar-se o desenvolvimento de uma necrose acastanhada na região basal da planta. Esta necrose, de dimensões variáveis, pode estender-se ao longo de todo o porta-enxerto, atingindo a região da enxertia.

Videira muito afetada (à esq.) e videira morta (à dir.). Fonte: Ficha Técnica Nº 113, DRAEDM, Outubro 2006

Estratégia de proteção

A estratégia de proteção para o Pé Negro da Videira baseia-se sobretudo em medidas culturais:

utilização de material são na plantação de vinhas novas; proporcionar às videiras as melhores condições possíveis para o seu desenvolvimento vegetativo (condução, drenagem, fertilização, rega, etc.); evitar fatores de stress para as plantas, como por exemplo, compactação do solo e má drenagem; não forçar as videiras a grandes produções muito cedo, sem que o seu sistema radicular esteja bem desenvolvido.

Doença de Petri

A Doença de Petri, também conhecida como «esca das vinhas jovens», surge em videiras jovens, desde a fase de viveiro e até aos 8-10 anos, e tem causado grandes prejuízos em vinhas recém-plantadas. Esta doença é originada essencialmente pelos fungos Phaeomoniella chlamydospora, Phaeoacremonium spp., Ca- dophora luteo-olivacea Pleurostomophora richardsiae.

Os sintomas podem ser confundidos com os causados por outras doenças, como o Pé Negro da Videira, ou com carência de nutrientes. A doença pode manifestar-se através de uma desfoliação repentina (apoplexia), mas, normalmente começa por um declínio lento que se traduz num crescimento reduzido da planta. Nas folhas, observam-se manchas de coloração verde-clara ou clorótica, de dimensões irregulares, entre as nervuras ou ao longo da margem da folha. As áreas cloróticas inicialmente são pequenas e dispersas pelo limbo, espalhando-se gradualmente e tornando-se parcialmente necróticas.

Internamente, em corte transversal, observam-se estrias necróticas ao longo do xilema, de cor castanha ou negra. Por vezes, no lenho dos ramos ou do tronco ocorrem setores necróticos, assim como fendilhamentos no ritidoma e no lenho. Transversalmente, observam-se pontos castanhos ou pretos dispersos no xilema necrótico, muitas vezes com exsudação de uma goma viscosa preta.

Estratégia de proteção

A estratégia de proteção para Doença de Petri baseia-se sobretudo em medidas culturais. Na instalação de vinhas novas: proceder à preparação cuidadosa do terreno, mobilizando-o em profundidade; utilizar porta-enxertos e garfos ou enxertos-prontos sãos; fazer uma adubação de fundo e incorporação de matéria orgânica baseadas nos resultados da análise prévia do solo; plantar a nova vinha durante o Inverno, o mais tardar até Fevereiro. Proporcionar às videiras as melhores condições possíveis para o seu desenvolvimento vegetativo (condução, drenagem, fertilização, rega, etc.)

Referências
  • “Grapevine Trunk Diseases. A review”, Abril 2016, OIV
  • “Escoriose da videira- Estratégias de luta em Protecção Integrada”, Boletim Informativo ADVID, Março 2013
  • “O Diagnóstico das Doenças do Lenho da Videira”, Helena Oliveira (Instituto Superior de agronomia), Cecília Rego (Laboratório de Patologia Vegetal «Veríssimo De Almeida»)
  • Cadernos Técnicos ADVID 2, “Doenças do Lenho da Videira- Eutipiose e Esca”
  • “Fitopalogia da Vinha”, Syngenta

“O Declínio e Morte de Videiras Jovens: Pé Negro da Videira e Doença de Petri”, Pedro Reis e Cecília Rego, LEAF – Centro de Investigação em Agronomia, Alimentos, Ambiente e Paisagem, Instituto Superior de Agronomia, in Revista Frutas, Legumes e Flores Nº 176, Junho 2017

Autoria: Syngenta


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