Leguminosas

Inúmeras funções e versatilidade fazem das leguminosas culturas de futuro

Feijão, lentilha, tremoço, grão-de-bico, ervilha, ervilhaca, fava, chícharo, amendoim, são todos nomes de leguminosas, plantas ricas em proteínas e que respondem a um conjunto alargado de premissas, seja para forragem, para consumo em fresco ou para grão.

〈 15/04/21 〉

Extremamente importantes para a preservação da biodiversidade, para a alimentação humana e animal, as leguminosas podem também reduzir a pegada ecológica, ajudando a responder a várias metas europeias que visam a boa utilização dos recursos. No entanto, nem sempre têm sido priorizadas nas dietas europeias nem nos programas de melhoramento, o que levou a uma redução no seu cultivo e consumo.

De há uns anos a esta parte, nomeadamente desde o Ano Internacional das Leguminosas (declarado pela FAO em 2016), têm-se registado algumas mudanças, notando-se um crescente interesse em inserir as leguminosas nas dietas, embora com valores ainda muito abaixo do desejável.

Está mais que na altura de inverter estes cenários e em Portugal a investigação não tem ficado para trás nesta tendência, sendo diversos os projetos e linhas de investigação, seja ao nível do melhoramento genético, da recuperação de variedades “esquecidas”, promoção de produtos de índole mais local e incentivo ao consumo, alguns dos quais podem ser conhecidos nesta reportagem.

Falamos de José Azóia, produtor de grão-de-bico tendo criado a Egocultum no sentido de preservar e promover a variedade própria ‘Casal Vouga’, caracterizada pelo maior calibre, menor tempo de cozedura e paladar muito próprio. Já inscrita no Catálogo Nacional de Variedades, a ‘Casal Vouga’ é agora objeto de um protocolo entre o produtor e a empresa Lusosem no sentido de assegurar a disponibilidade de semente certificada do grão-de-bico ‘Casal Vouga’ já para a campanha atual, bem como o necessário apoio técnico à cultura, tanto ao nível da distribuição como ao nível do agricultor (ver página 39 da revista – edição de maio 2021).

Ainda sobre o grão-de-bico, o INIAV-Elvas possui um programa de melhoramento genético, procurando com esse trabalho ajudar os agricultores a entenderem a cultura (do grão-de-bico) relativamente ao seu processo fenológico e prevenir-se de situações de irregularidades atmosféricas, nomeadamente oscilações de temperatura e de precipitação (ver páginas 40 e 41 – revista – edição de maio 2021).

Na Beira Interior são várias as entidades reunidas no estudo da consociação entre milho e feijão-frade, tendo em conta que as projeções científicas apontam para que a região mediterrânica seja severamente afetada pelas alterações climáticas, prevendo-se efeitos nefastos para a agricultura portuguesa. Por um lado, o milho é a cultura arvense com maior expressão em Portugal e pode ser encontrada de Norte a Sul do país, o que significa que soluções ambientalmente responsáveis devem ser adotadas para minimizar os impactos negativos que se avizinham. Por outro, o feijão-frade é uma leguminosa cultivada mundialmente devido à sua adaptação à seca, capacidade de fixar azoto e elevado valor nutricional. Com as alterações climáticas, as temperaturas médias estão a aumentar, a disponibilidade de água para rega é cada vez menor e é necessário pensar em culturas menos exigentes ao nível do solo. A produção em consociação é uma estratégia que permite aos agricultores obter diferentes outputs na mesma exploração, enquanto adotam práticas agrícolas ambientalmente sustentáveis (páginas 44 a 46 – edição de maio 2021).

Carlota Vaz Patto, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB NOVA), Universidade Nova de Lisboa, assina ainda o artigo “O chícharo (Lathyrus sativus) como cultura modelo para uma agricultura sustentável” (ver páginas 48 a 50 – edição de maio 2021).

Também não pode ser ignorada a importância das leguminosas nas pastagens, tendo em conta que as pastagens constituem um sistema ecológico bastante complexo e dinâmico, que abrangem uma elevada biodiversidade, onde a vegetação dominante é composta por espécies herbáceas espontâneas e/ou semeadas. Quando são ricas em leguminosas são uma fonte de alimentação animal de alta qualidade (altamente digerível e rica em proteínas) e palatável (ver páginas 51 a 53 – edição de maio 2021).

Vários projetos com objetivo de promover produção e consumo de leguminosas

A Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Católica no Porto também se tem dedicado seriamente à temática das leguminosas, tendo realizado no final de janeiro um Webinar sobre um dos seus mais recentes projetos aprovados – LeguCon -, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e que assenta no desenvolvimento de um consórcio, promotor do aumento das leguminosas, com uma vertente participativa e interativa entre a ciência e a cidadania. Aprovado no final de 2020 e com duração de dois anos, o objetivo é criar uma comunidade que se perpetue para além disso. Até final de fevereiro puderam candidatar-se agricultores com interesse na área das leguminosas, prevendo-se o acompanhamento de seis explorações agrícolas com um prémio de dois mil euros para ajudar a sustentar os custos associados à implementação do projeto.

De acordo com a explicação de Carla Santos, investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da ESB e moderadora deste Webinar, o projeto surgiu neste timing “face a uma procura emergente por alternativas sustentáveis e ao aumento da procura de proteína vegetal, quando Portugal não está a conseguir responder às necessidades de produção da mesma.”

Por uma questão de logística estas primeiras explorações serão da região Norte e de alguma forma funcionarão como “montra”, sendo de frisar que para além da produção no campo o LeguCon pretende também sustentar as novas dietas, saudáveis e equilibradas, à base de proteína vegetal. Com isto quer reunir todos os elementos da fileira para que através dele seja criada um rede e se desenvolvam contactos entre os diferentes grupos da cadeia de valor.

Objetiva-se que futuramente o projeto possa chegar a todo o território nacional, pois “as leguminosas respondem a um conjunto alargado de premissas: redução da pegada ecológica, combate a pragas, qualidade melhorada dos solos, alimentação animal, dietas saudáveis e variadas (…), em suma, são o alimento do futuro”.

Participante nesta sessão, a responsável pelo Banco Português de Germoplasma, Ana Maria Barata, salientou os valores da baixa produção de leguminosas no país e a necessidade de a aumentar para retomar a biodiversidade na cadeia alimentar e no campo agrícola.

No acervo conservado do BPG, do total de 44270 acessos, 6359 são de leguminosas grão e dentro dessas é o feijão que tem maior representatividade. Segundo a informação avançada por aquela responsável, na Europa a leguminosa mais produzida é a ervilha, enquanto que em Portugal o consumo se centra sobretudo ao nível do grão-de-bico e do feijão, mas ainda assim com produção muito reduzida. Identifica portanto como constrangimentos a reduzida área de produção e pouca diversidade. O feijão é o “fio condutor a nível nacional”, existindo localmente outros preferências como ingredientes base na gastronomia tradicional é o caso das lentilhas, da feijoca e do chícharo.

São necessários desenvolvimentos científicos para aumentar a utilização de leguminosas em alimentos de conveniência

Perante isto há vários desafios a superar, como produzir alimento seguro e saudável, garantir viabilidade económica, prestar serviços ao ecossistema (…) e até melhorar a qualidade de vida das zonas rurais.

Para promover estes cenários propõe incentivar os agricultores a produzir leguminosas na rotação de culturas, desenvolver variedades com resistência a pragas e doenças, à secura e às alterações da temperatura, com ciclos de crescimento diversificados e adaptados a mais territórios e com maior rendimento – esta uma clara proposta para dar escala à produção de leguminosas grão.

Ana Maria Barata defende a necessidade de desenvolvimentos científicos para aumentar a utilização de leguminosas em alimentos de conveniência, além de que as próprias políticas públicas são essenciais, baseadas em medidas capazes de promover os produtos tradicionais locais com apoio à organização da comercialização e criação de marcas regionais coletivas. Veja-se a propósito nas páginas 40 e 41 o que já foi desenvolvido em Arcos de Valdevez com o ‘Feijão Tarreste’.

Patrícia Vidigal, investigadora no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, focou o seu discurso nas espécies de leguminosas esquecidas e nas suas vantagens agronómicas, que devem ser recuperadas, até porque desempenham um papel importante na subsistência das comunidades locais e a maioria delas tem um valor social, cultural e medicinal especial. Foi com este fim que foi criado o Grupo Operacional STEnCIL focada numa planta esquecida Lablab purpureus (L.) Sweet – que era usada unicamente como ornamental, mas sobre a qual já há interesse em Itália para produção de forragem.

“Quem produz as leguminosas com que estamos a alimentar-nos, não é a Europa”

Já Marta Vasconcelos, docente e investigadora da ESB da Católica no Porto, partilhou várias iniciativas a nível europeu que fomentam o aumento da produção de leguminosas (REMIX, Diverfarming, Diverimpacts, Legvalue, Pulse, True …). A investigadora lidera o projeto europeu INCREASE, iniciado em 2020 com intuito de envolver as famílias portuguesas no cultivo e preservação de 1000 variedades regionais de feijão. Esta é uma iniciativa científica que envolve 28 parceiros unidos no objetivo de valorizar a agrobiodiversidade e promover o consumo e cultivo de leguminosas na Europa (ver Revista Voz do Campo julho 2020).

De acordo com a mesma, nos últimos a produção de leguminosas realmente aumentou, mostrando um grande potencial de crescimento com base nas novas tendências de consumo. Todavia, quem produz as leguminosas com que estamos a alimentar-nos, não é a Europa e existe ainda um grande GAP no consumo das leguminosas a nível europeu, ou seja, está muito aquém das quantidades que deveríamos consumir. Em Portugal, estima-se que devíamos consumir cerca de 80g de leguminosas cozinhadas por dia, mas o consumo é inferior a 20g diárias.

Desenvolvimento completo, publicado na Revista Voz do Campo – Edição de março de 2021.

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