Agroindústria Hortofruticultura

Grupo Operacional Qualitomate

Grupo Operacional Qualitomate. Numa perspetiva de melhoria da qualidade do concentrado de tomate

Porque surgiu a necessidade de propor o projeto Qualitomate?

O concentrado de tomate produzido com base em matéria-prima nacional é muito valorizado, internacionalmente, pela qualidade, o que tem atribuído vantagem concorrencial nos mercados internacionais.

Todavia, a qualidade do produto final, sobretudo o processado proveniente das colheitas de final de época, tem revelado perda de qualidade por alteração de cor do fruto, não só pela natural senescência das plantas, mas também devido a constrangimentos técnicos relacionados com múltiplos fatores, entre os quais a dificuldade de combate de pragas com elevada incidência como mosca-branca, ácaros e traça-do-tomateiro que contribuem para a desfoliação da planta. Este facto alertou a fileira para o risco de comprometimento da valorização do produto no mercado externo.

Objetivo(s) do projeto Qualitomate

Pretendeu-se com esta parceria garantir a qualidade do produto final em tomate horto-industrial e manter a credibilidade dos mercados internacionais relativamente ao tomate processado de origem portuguesa. Um dos objetivos prende-se com a disponibilização de soluções e técnicas de fácil aplicação e estratégias inteligentes de técnicas de avaliação do risco e ferramentas de decisão expeditas para diminuir os prejuízos. Esta iniciativa visa a identificação das espécies causadoras de prejuízos, assim como das práticas responsáveis pelo aumento das populações e da sua dinâmica ao longo do ciclo da cultura, com especial destaque na fase final da campanha. A Figura 1 ilustra a posição de pontos de observação biológica (POBs), ao longo da Lezíria, selecionados de acordo com especificidades técnicas e ecológicas das parcelas.

Figura 1 – Localização dos pontos de observação biológica (POB’s), representados
com etiqueta amarela. O X representa um POB que não foi observado em 2020.

Estimativa do risco para pragas chave do tomate para indústria

O protocolo para estimativa do risco das pragas-chave da cultura de tomate para indústria, primeiro resultado do projeto Qualitomate para melhoria da proteção da cultura , foi sendo adaptado e melhorado e encontra-se, neste momento, definido e pronto para ser posto em prática por produtores e técnicos, principais decisores das intervenções fitossanitárias. A estimativa do risco efetua-se através da quantificação de adultos de mosca-branca e traça-do-tomateiro, respetivamente, em placas cromotrópicas amarelas e armadilhas tipo delta. Por outro lado, propõe-se efetuar observações visuais, semanais, de 25 plantas, tendo-se em consideração a informação seguinte, de acordo com cada uma das pragas a monitorizar (plano de monitorização ilustrado na Figura 2).

Resultados da monitorização realizada na campanha 2020

Nas Figuras 3, 4 e 5, onde se apresenta a evolução das populações das pragas monitorizadas, podemos observar que, apesar dos POB’s não se encontrarem muito distantes uns dos outros, as dinâmicas populacionais, quer da mosca-branca, quer dos ácaros ou mesmo da traça-do-tomateiro foram muito diferentes. O mesmo será dizer que populações diferentes requerem decisões de proteção da cultura diferentes, pois destes diferentes níveis populacionais vão surgir estragos nas plantas que do ponto de vista económico vão necessariamente assumir níveis diferentes. Este aspeto leva-nos a concluir que as estratégias a implementar em cada local e parcela carecem de uma avaliação criteriosa, para cada situação, por parte do tomador de decisões. Esta avaliação, com base nas especificidades ecológicas e técnicas adotadas pelo chefe de exploração, irá condicionar a evolução das populações das pragas e o sucesso da estratégia de proteção implementada. Não há receitas comuns e muito menos planos definidos de intervenções aconselhadas.

Os gráficos nas figuras seguintes, convidam-nos a questionar as razões acerca da evolução das diferentes dinâmicas populacionais e a interpretar os resultados aquando das intervenções efetuadas. A robustez da análise só se completa com o conhecimento do ciclo da cultura, das práticas realizadas durante a cultura, quer do ponto de vista fitotécnico quer fitossanitário e do conhecimento das parcelas vizinhas, especialmente sobre o risco associado à migração dos indivíduos. O projeto Qualitomate tem permitido aos participantes analisar e discutir as razões da evolução de populações abundantes destas pragas em determinadas circunstâncias e da ocorrência de prejuízos, sobretudo relacionados com a quebra de qualidade que decorre da alteração da cor dos frutos.

Os resultados da monitorização, obtidos nos vários pontos de observação durante o projeto, em conjunto com as caraterísticas das parcelas e com o perfil da produção, permitem reforçar a necessidade da avaliação prévia da oportunidade das intervenções contra os inimigos das culturas. Embora esta afirmação, aparentemente não constitua nenhuma novidade em proteção integrada, o facto é que uma vez analisados os perfis de tratamentos efetuados contra os inimigos das culturas, mantém-se de forma consistente o uso pouco apropriado de algumas substâncias ativas que embora homologadas para as finalidades a que se destinam, constituem um fator de desequilíbrio que é difícil de avaliar e, por isso, difícil de compreender.

A seleção dos meios de proteção deve ser criteriosa, promovendo sempre o uso de substâncias ativas com menos efeitos secundários para os inimigos naturais das pragas.

O número de tratamentos deve ser limitado ao mínimo possível e sobretudo ajustado ao momento oportuno, respeitando sempre a máxima de que “Menos é Melhor”.

• Agradecimentos:

O projeto é apoiado pelo PDR Medida 1.0.1 Grupos Operacionais.

Os autores agradecem a colaboração dos estudantes da ESAS que colaboraram na monitorização em 2020, José Nicolau e Odete Cosme.

Autoria:

  • Elsa Valério & Maria Godinho
  • Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Santarém

Artigo completo publicado na edição de fevereiro 2021 da Revista Voz do Campo.