Floresta Investigação

UÉ apresenta abordagem que prevê como pequenos focos de incêndio podem assumir grandes dimensões

Investigadores da Universidade de Évora (UÉ) desenvolveram uma abordagem que prevê como pequenos focos de incêndio podem assumir grandes dimensões com o objetivo de os evitar. Recorrendo a dados de satélite, os autores do estudo consideram estarmos perante um nova abordagem na prevenção e combate aos incêndios florestais.

〈 05/05/21 〉

Foi no âmbito do Centro Ibérico para a Investigação e o Combate aos Incêndios Florestais (CILIFO), que os investigadores Sérgio Godinho (ICT) e Nuno Guiomar (MED) da UÉ pretenderam compreender com maior detalhe as razões pelas quais algumas ignições dão origem a grandes incêndios, analisando para tal, um conjunto de 2120 incêndios ocorridos em Portugal Continental entre junho e outubro de 2017. Para além dos indicadores de perigosidade meteorológica, os investigadores basearam-se em dados recolhidos pelos satélites Sentinel-1 e Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia e ALOS-2 da Agência Japonesa de Exploração Espacial para gerar informação sobre a estrutura da vegetação

Através da avaliação da distribuição da área ardida acumulada por ignições diárias, em função das condições iniciais de propagação e estimando a importância de fatores relacionados com a perigosidade meteorológica, estrutura da vegetação, e características topográficas, “o estudo encontrou relações que permitem compreender o potencial das ignições desde o seu início e encontrar explicações para a dificuldade dos recursos utilizados na primeira fase da extinção do incêndio” destacam os investigadores.

Os resultados do estudo revelam ainda que, em função das previsões meteorológicas, do estado e estrutura dos combustíveis e da complexidade topográfica, “é possível otimizar o escalonamento dos recursos de supressão incidindo os esforços nas ignições com maior probabilidade de se propagarem por extensas áreas.”

Não obstante o facto desta análise exploratória ter recorrido a dados de um único ano, os investigadores sublinham que “os resultados evidenciaram o elevado potencial dos dados obtidos pelos satélites utilizados os quais permitem construir modelos com maior detalhe espacial e distinguir de forma mais clara o potencial das múltiplas ocorrências que se sucedem nos dias de verão”. A esta mais-valia, os autores deste estudo acrescentam que o modelo “permite escalonar os recursos de extinção em função do dano expectável e, com base nas previsões, a espacialização diária do modelo pode ainda suportar a decisão sobre as atividades de pré-supressão, principalmente no que se refere à vigilância móvel com carácter dissuasor e ao pré-posicionamento de meios em locais estratégicos de modo a que diminuam o tempo de reação após um alerta de incêndio”.

Recorde-se que o sistema de alerta de perigo de incêndio florestal utilizado em Portugal assenta em larga medida nas previsões do Índice FWI (Fire Weather Index) do Sistema Canadiano de Indexação do Perigo de Incêndio Florestal, mas como destacam os investigadores “o índice principal do sistema é quase exclusivamente interpretado como um indicador da atividade de fogo.” De facto, o número diário de incêndios rurais aumenta em função do agravamento da perigosidade meteorológica não sendo, contudo, desprezível a sua variação regional, visto que o limiar da perigosidade meteorológica associado a diferentes classes de dimensão dos fogos diminui em função da complexidade da topografia e da distribuição e acumulação da vegetação.

Os investigadores argumentam que o efeito da meteorologia no comportamento do fogo é, até determinado nível, mediado pelos combustíveis existentes acima da camada superficial do solo. Por outro lado, o peso relativo dos fatores fundamentais que explicam o regime e comportamento do fogo (meteorologia, combustíveis e topografia) varia de acordo com o indicador de atividade do fogo que se pretende explicar.

Assim, uma estratégia de prevenção suportada apenas num desses indicadores tal como se tem verificado até agora no nosso país, “não garante reflexos positivos nas restantes dimensões do regime de fogo, e em qualquer caso, estes efeitos sinérgicos devem ser incorporados nos modelos de estudo, independentemente do objetivo para o qual são utilizados”. Esta situação leva a que tenhamos que recorrer a outros elementos por forma a minimizar o risco de incêndios, sobretudo de estes assumirem grandes dimensões, pelo que os resultados alcançados pelos investigadores da UE, “podem significar um olhar e um caminho novo na prevenção e combate aos incêndios florestais”.