Hortofruticultura

Calda sulfocálcica – modos de preparação e utilização

Nos últimos três anos, os agricultores de anona têm registado perdas consideráveis nos rendimentos produtivos. Estas perdas económicas estão associadas sobretudo às condições adversas que têm ocorrido na época de floração/vingamento das anoneiras, nomeadamente as temperaturas mais altas e as humidades relativas do ar mais baixas.

〈 09/05/21 〉

Por outro lado, a fruta vingada e amadurecida perde valor comercial quando apresenta vestígios da presença de cochonilha (Nipaecoccus nipae) e do fungo parasita (Capnodium elaeophilum), que provocam o aparecimento de manchas escuras na “pele” da anona.

Face a esta situação, a Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA), através da Direção de Serviços de Desenvolvimento Agronómico (DSDA), tem realizado uma série de ensaios no Centro de Desenvolvimento de Fruticultura Subtropical com produtos minerais, com o objetivo de controlar não só a cochonilha nas anoneiras, como também as pragas que atacam os abacateiros na Região, nomeadamente o ácaro cristalino e o percevejo rendilhado.

Um dos produtos ensaiados com excelentes resultados preliminares foi a calda sulfocálcica, que é o produto resultante da reação entre o enxofre em pó e a cal (viva ou hidratada) após dissolvidos em água e submetidos a fervura.

Os compostos resultantes desta fervura, quando pulverizados nas plantas, são responsáveis pela ação de controlo e de repelência sobre insetos, ácaros e fungos. Além disso, por ser preparada com nutrientes importantes para o desenvolvimento das plantas, a calda pode ser considerada um complemento nutritivo com cerca de 19 % de enxofre e 8% de cálcio.

Apesar de existirem variadas formulações, optou-se nos ensaios realizados no referido Centro pela utilização de uma fórmula mais simples, mas com um método de fabrico mais seguro: 2kg de enxofre em pó, 1kg de cal e 10l de água. Assim, o modo de preparação da calda foi o seguinte:

• Numa panela, aqueceu-se 10 litros de água;

Figura 1 – Calda com tonalidade amarela

• Dessa água quente, retirou-se duas porções: uma para dissolver a cal que foi adicionada à lata metálica e outra para diluir o enxofre em pó que estava no balde;
• De seguida, juntou-se na panela a cal dissolvida e, após levantar fervura, adicionou-se aos poucos o enxofre diluído (figura 1);
• Deixou-se ferver durante 30 a 45 minutos, mexendo sempre;
• A calda fica pronta quando muda da tonalidade amarela para a cor de vinho. (figura 2).
• Logo após arrefecer, filtrou-se com a ajuda do peneiro;
• Após a filtração, mediu-se a densidade da calda com o recurso ao densímetro de Beaumé e registou-se o grau obtido.

Figura 2 – Coloração desejada no final do processo de fabrico

Sabendo que a realização de tratamentos fitossanitários de inverno permite reduzir o inóculo de algumas doenças e pragas presentes nas culturas, contribuindo para a redução do número de tratamentos ao longo do ciclo vegetativo, é recomendado a aplicação de calda sulfocálcia em concentrações altas (3 a 4o Beaumé) (Be) nas anoneiras em repouso vegetativo.

Através da análise da tabela abaixo, poder-se-á determinar a diluição necessária para preparar uma calda com 3o Be: de uma calda original com 25o Be, procura-se o ponto de encontro entre as duas colunas. Neste caso, o número encontrado é 8.9, o que significa que é necessário adicionar 8.9 litros de água por cada litro de calda, de modo a se obter no final uma calda sulfocálcica com 3Be.

Depois da floração e ao longo do ciclo produtivo da anoneira, os tratamentos devem ser realizados com concentrações mais baixas, a rondar os 0,3 a 0,5o Be.

Apesar das inúmeras vantagens da utilização desta calda mineral, o agricultor deve ter cuidados especiais com o seu manuseio e aplicação, a saber:

• Utilizar equipamento de proteção individual para a pele, olhos, boca e nariz;
• Realizar as pulverizações nas horas mais frescas do dia;
• Aguardar 20 a 30 dias após a aplicação da calda sulfocálcica para aplicar a calda bordalesa;
• Não aplicar esta calda sobre as cucurbitáceas (abóbora, curgete, melão, pepino, etc.), nem em plantas em floração;
• Não misturar a calda com óleos minerais e/ou fertilizantes;
• A calda dissolvida em água deve ser usada no mesmo dia ou perde o efeito;
• Para evitar a corrosão, lavar os equipamentos após a utilização com uma solução de vinagre a 10% (1l de vinagre para 10 litros de água);
• Após a aplicação da calda, fazer um intervalo de segurança mínimo de 10 dias antes da colheita.

Bibliografia consultada:

Ferreira, J. (2009). As bases da agricultura biológica. Tomo I-Produção vegetal, Edibio. https://www.bibliotecaagptea.org.br/agricultura/adubacao/livros/CALDA%20SULFOCALCICA%20-%20PREPARO%20E%20INDICACOES.pdf

Autoria: Márcia dos Santos Melim
Divisão de Agricultura Biológica
Direção de Serviços de Desenvolvimento Agronómico
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural


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