Agropecuária Inovação

Agricultura de Precisão e Biodiversidade são dois mundos conjugáveis

Cada decisão baseada em dados reais para obtenção da máxima rentabilidade e eficiência

2021 está já a revelar-se desafiante para os produtores de leite, com o aumento do preço das matérias-primas, enquanto em Portugal persistem os mais baixos preços do leite ao produtor. Mais do que nunca é fundamental obter a máxima rentabilidade e eficiência. Foi este o mote para a primeira parte do Colóquio Nacional do Leite, organizado pela APROLEP e que teve como tema central a “Agricultura de Precisão e Biodiversidade na Cultura do Milho”.

Não é novidade para ninguém que 2020 foi um ano complexo para os produtores nacionais, mas graças a um grande esforço coletivo continuaram a chegar alimentos frescos à mesa dos portugueses. 2021, que ainda agora começou, está a revelar-se ainda mais desafiante, nomeadamente para os produtores de leite, com o aumento do preço das matérias-primas, enquanto em Portugal persistem os mais baixos preços do leite ao produtor. Mais do que nunca é fundamental obter a máxima rentabilidade e eficiência. Foi desta forma que Marisa Costa, dirigente da APROLEP – Associação dos Produtores de Leite de Portugal – deu o mote para a primeira parte do Colóquio Nacional do Leite de 2021, organizado por aquela Associação e por razões óbvias realizado em formato digital.

Registe-se que o milho silagem é o principal alimento das vacas leiteiras em Portugal e o milho grão é parte importante na composição das rações das diversas espécies pecuárias. Assim, o tema escolhido pela APROLEP foi “Agricultura de Precisão e Biodiversidade na Cultura do Milho”, procurando acompanhar os agricultores e produtores de leite na biodiversidade, sem descurar a eficiência na agricultura e na pecuária. A sessão desenrolou-se a partir da comunicação de João Coimbra, conhecido produtor de milho, dirigente associativo e comunicador através do blog “Milho Amarelo”, com provas dadas na conjugação destes “dois mundos”.

Seguiu-se uma mesa redonda, moderada por Luís Alcino Conceição, responsável pelo Centro de Competências InovTechAgro, homologado no final de setembro para as competências específicas da agricultura de precisão, mecanização e digitalização. Participaram na mesa redonda José Luis Amaro (Bayer / Dekalb), Pedro Martins (Syngenta), Jorge Martinez Guanter (Pioneer) e Joaquim Teixeira (Mas Seeds).

João Coimbra fez a sua apresentação com base na sua experiência pessoal e profissional que tem desenvolvido nos últimos anos na Quinta da Cholda, empresa familiar, situada no Vale do Tejo, composta por vários núcleos agrícolas e alguns núcleos florestais. Produz várias culturas, nomeadamente cerca de 530 hectares de milho, 80 hectares de trigo de sequeiro, 30 hectares de pousio e 50 de arroz.

Enquanto produtor de milho, nos últimos anos tem assistido a uma descida brusca do preço dos cereais e do leite, contrastando com um aumento dos preços dos fatores de produção. Por outro lado, colocam-se novos desafios como a necessidade de alimentar cada vez mais pessoas, mas a preços mais baixos, respeitando muitas normas como a redução de emissões de carbono (…).

“Na Quinta da Cholda regista-se uma forte preocupação em conjugar estes dois mundos: aumentar a produção e ao mesmo tempo diminuir os preços (das produções) de forma a ter competitividade internacional (que se coloca a quem vende commodities: leite e milho) e ainda ser sustentável, amigo do ambiente (…)”

A resposta encontrada foi intensificar as zonas mais produtivas, através da agricultura de precisão e desinvestir nas zonas menos produtivas e, introduzindo a gestão de precisão, vocacionou-se também para uma agricultura mais amiga do ambiente.

Desde 2006 todos os inputs da Quinta da Cholda são medidos por unidade e em 2014 adotou a agricultura de precisão, passando a conhecer a produção ao pormenor e não apenas em termos médios como até então. Hoje a Quinta da Cholda já está num patamar em que é possível fazer a programação no escritório, a partir de um software que envia dados para o trator para este proceder à operação delineada e uma vez finalizada envia toda a informação de volta. Toda esta informação é armazenada juntamente com outro tipo de dados (clima, rega …) e o desafio é tratar esses milhões de dados. “Já foi possível definir uma matriz nos campos e hoje trabalha-se ao nível dos 50 m2 e é a partir da análise destes dados que são tomadas decisões”, explica o produtor.

Ora, ao mesmo tempo que existe esta atividade de intensificação, será possível uma exploração destas também ter capacidade de apresentar sustentabilidade ambiental? Quando fez esta pergunta no passado a resposta que João Coimbra encontrava era que tal não era possível e que agricultura e preservação do ambiente eram quase contraditórias.

Num trabalho realizado a nível nacional para se perceber o que se passava em termos de biodiversidade em explorações onde se produz milho há mais de 30 anos, como é o caso, o que se percebeu foi que não se estava no nível “0” da conservação. A partir daí tomaram-se medidas para o aumento da biodiversidade (mantendo a produtividade), como bandas de refúgio para insetos, répteis anfíbios, aves e mamíferos, sebes e plantação de árvores de refúgio, zonas não mobilizadas, abrigos para morcegos, charcos (…), sementeira direta, introdução de cultura de cobertura para proteção dos solos e melhoria da sua estrutura.

“Vamos entrar na fase de gestão dos dados, que vão ser o novo petróleo”

João Coimbra acredita que se nesta Reforma da PAC houver apoios nesta matéria, a maioria das pessoas facilmente aceita estes desafios, quer da agricultura digital, quer da promoção da biodiversidade. Admite que é necessário criar dimensão e isso passa por envolver os agrupamentos de produtores e as cooperativas, porque quando “tudo se massificar, será muito mais fácil”. Em seu entender, vamos entrar “na fase de gestão dos dados, que vão ser o “novo petróleo”. Há um conhecimento que se vai acumulando e adaptando rapidamente à variabilidade dos campos. Por outro lado, para João Coimbra, ter os recursos humanos que queiram desenvolver este conhecimento pode ser uma variável entre quem vai vencer ou não. E há que ver que a tecnologia atrai os jovens à profissão e estes são fundamentais para assegurar a continuidade da atividade.

Os participantes da mesa redonda foram unânimes em considerar o caso da Quinta da Cholda como exemplar, com José Luís Amaro, da Bayer / Dekalb, a observar que “agricultura digital é um comboio que já está em marcha e que todos os agricultores devem ponderar entrar nele”.

Recorda que existem ferramentas que podem ser usadas, até a título gratuito, para que se inicie esta “revolução” porque estamos numa altura em que tem de ser colocada a pergunta: “com base em quê é que tomo as minhas decisões?” Há que conhecer o histórico, fazer correlações com os acontecimentos e a partir daí tomar as decisões para tratar as parcelas, que não são uniformes. Ou seja, “é preciso conhecer onde está essa variabilidade, referenciá-la e começar a tratá-la de forma distinta”, alega ainda. E isto, independentemente da superfície agrícola disponível. O que é preciso é começar, argumenta José Luís Amaro, ao mesmo tempo que regista o facto de até agora terem sido as empresas a fazer um grande esforço em agregar agricultores para entrarem na agricultura digital, com aplicações básicas, intuitivas (… ). Deixa o repto de que é muito fácil dar os primeiros passos e por isso insta os produtores a começarem, até porque é admissível que a PAC vá incidir muito nestas linhas.

A Bayer também não tem descurado a área da biodiversidade, nomeadamente através do projeto Baydiversity, sensibiliza as comunidades agrícolas e a sociedade para importância da mesma.

Jorge Martinez, da Pioneer, partilha da mesma opinião, acrescentando que o agricultor não pode estar isolado em relação a estas tecnologias e os sistemas devem serlhe facilitados. A Pioneer dispõe de ferramentas que permitem esse assessoramento ao agricultor, com produtos de proteção de culturas e sementes, sempre baseados em ensaios agronómicos.

“Estamos a falar de agricultura digital para conseguir maior produtividade e maior rendimento económico e temos de avaliar se estamos a consegui-lo e como devemos trabalhar nos próximos anos, o que passa também pela biodiversidade”, assume Jorge Martinez.

“É importante começar pelos pequenos passos e a seu tempo chegar-se-á às tecnologias”

A visão de Pedro Martins, da Syngenta, vai na mesma linha de pensamento, primeiro porque considera a Quinta da Cholda um espelho claro do que pode ser uma agricultura intensiva e ao mesmo tempo sustentável. E depois porque há desafios que são eminentes e aos quais é preciso dar resposta e está na hora de olhar para a produção de alimentos de uma forma diferente.

Segundo o mesmo, a Syngenta baseia muito a sua investigação na procura de soluções que deem suporte a esta atividade, por exemplo a nível da pulverização, “porque no saco da agricultura de precisão podemos englobar o simples fechar de um bico de pulverizador”, ou seja, entende que a massificação das novas tecnologias na agricultura é inevitável, mas “é importante começar pelos pequenos passos como reduzir aplicações (…) e a seu tempo chegar-se-á às tecnologias”.

Nas ofertas digitais, a Syngenta tem trabalhado muito nessa questão, adquirindo empresas especializadas em todo o mundo. Em termos de biodiversidade, assumiu o Compromisso com a Agricultura Sustentável “Good Growth Plan”, com iniciativas centradas em ajudar os agricultores a mitigar os efeitos das alterações climáticas nas suas explorações, tal como o Operation Pollinator, na mesma linha.

“Com o aumento do preço dos fatores de produção é necessário procurar soluções para reduzir os custos de produção, o que seguramente passa pelo uso de tecnologia”

Joaquim Teixeira, em representação da MAS Seeds, explicou que em relação à agricultura de precisão, em 2019 a empresa criou um aplicação gratuita para os seus clientes que permite monitorizar várias culturas: milho, girassol e colza. Os técnicos no terreno, junto com os técnicos das cooperativas e os distribuidores inserem os dados e juntam também o banco de dados das variedades próprias, resultando num planeamento das culturas, depois disponibilizado aos agricultores. Joaquim Teixeira refere que esta “foi uma tentativa de simplificar a vida dos agricultores, com a aplicação Agrotempo que monitoriza o processo desde a sementeira até à colheita, com o objetivo de que os agricultores colham mais e produtos com mais qualidade e isto está interligado com a sustentabilidade, porque se o momento de colheita for mais cedo há menos gastos de alguns inputs”.

Partilha da opinião da importância de haver mais pessoas a traçar este caminho e se no Entre Douro e Minho até agora ainda não se sentiu tanto esta necessidade porque o preço do leite ia suprindo as necessidades, agora, com o aumento do preço dos fatores de produção é necessário procurar soluções para reduzir os custos de produção, o que seguramente passa pelo uso de tecnologia.

Artigo completo publicado na edição de março 2021.