Na primeira pessoa

“Os sistemas de produção de ruminantes em geral e os bovinos em particular, mereciam ser ressarcidos pelos erros de informação de que foram alvo”

José Pedro Fragoso, professor coordenador da ESACB

〈 31/05/21 〉

“As preocupações ambientais são uma questão corrente na nossa sociedade. Em 2019, o relatório da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) sobre a emissão de Gases com Efeito de Estufa (GEE), atribuiu à fermentação entérica dos animais domésticos a maior quota de produção de metano do sector agrícola.

Tendo em consideração que este gás tem um efeito direto no aquecimento global, Portugal entrou em pânico: artigos em jornais e revistas, rádio, declarações do Ministro do Ambiente, culminando com uma tomada de posição do Reitor da Universidade de Coimbra, proibindo o consumo de carne de vaca nas cantinas.

Tais notícias e posições públicas, incentivaram o debate nacional. Porém, na altura, nenhuma entidade apresentou uma explicação técnico-científica convincente, deixando assim a sociedade oscilante entre o receio e as “frases feitas”, algumas delas bastante exacerbadas. Acalmados agora os “ânimos”, penso que está na altura de esclarecer alguns dos factos mais relevantes e avaliar de forma correta os sistemas de produção animal com ruminantes:

  • A APA tem a responsabilidade de produzir um relatório das emissões nacionais de GEE. Para isso, usa uma metodologia adotada pelos países que subscreveram os compromissos do protocolo de Kyoto, desenvolvida pelo IPCC (“The Intergovernmental Panel on Climate Change”). Esta metodologia estabelece que todos os GEE devem ser contabilizados pelo potencial de aquecimento a 100 anos com referência ao CO2 (o que se designa por “CO2 equivalente” ou CO2e). No caso do metano (CH4), essa equivalência era realizada pelo fator 28, atualizado posteriormente para 25, ou seja, 1 kg de CH4 teria o mesmo potencial de aquecimento do que 25 kg de CO2 em 100 anos. Foi esta a equivalência usada no relatório da APA de 2019 e que causou tantas notícias alarmantes;
  • Em 2019, na revista “Climate and Atmospheric Science”, foi publicado um estudo sobre este tema (Cain et al., 2019). A conclusão principal é de que a metodologia usada pelo IPCC para contabilizar o metano (CO2e), não reflete o potencial de aquecimento real deste gás. Esta conclusão baseia-se no facto do metano, contrariamente ao que era considerado (100 anos), desaparecer da atmosfera até 20 anos após a emissão (cerca de metade degrada-se nos 8-9 anos iniciais). Refira-se também, que o metano é assimilado pelas bactérias metanotróficas do solo, das pastagens utilizadas pelos bovinos, sendo o restante hidrolisado em CO2 e água na troposfera. Considerando assim esta realidade, este grupo de cientistas propôs um método alternativo para cálculo do potencial de aquecimento global do metano (GWP*). Com este método é possível calcular o efeito do metano na temperatura global, a partir da quantidade de metano emitida.
  • Assim, tomando como base de calculo o GWP*, Cain et al. (2019) recalcularam os valores de emissão de metano, tendo concluído que em 2019 foram sobrevalorizados em mais do dobro. Porém, a dinâmica do metano com o tempo de vida na atmosfera curto, traz outras implicações. Se considerarmos um número estabilizado de bovinos, no momento anterior ao da contabilização, então a produção de metano emitido não tem qualquer consequência ambiental (como referem Cain & Lynch, 2019 noutro estudo); caso o número de bovinos diminua 10%, então estes sistemas de produção animal passam a funcionar como importantes sequestradores de metano; no caso do número de bovinos ser 35% superior ao do relatório, verificar-se-iam os valores calculados.

Em conclusão, segundo Cain & Lynch (2019), nos sistemas de produção animal de ruminantes, em particular com bovinos, desde que o número não aumente 35%, o metano produzido não constitui qualquer risco ambiental. Para além disso, outros trabalhos mostraram que, quando a produção de ruminantes é baseada no pastoreio e considerando o sistema como um “todo” (solo-pastagem-animal-atmosfera), estes sistemas são um importante “sumidouro” de carbono, contribuindo dessa forma para o único sequestro de carbono que ocorre a nível global – o do sector Agro-Florestal”.