Hortofruticultura Sanidade vegetal

FRUTTMAC: formação em polinização manual em anoneira

O projeto FRUTTMAC “Transferência de I+D+i (Investigação+Desenvolvimento+ Inovação) para o desenvolvimento sustentável de fruteiras tropicais na Macaronésia” reúne Universidades, Centros de Investigação e Empresas dos Arquipélagos da Madeira, Canárias, Açores e Cabo Verde.

〈 24/06/21 〉

O objetivo principal deste projeto é a criação de soluções para enfrentar os novos desafios, a exemplo das alterações climáticas e as suas consequências para a fruticultura (escassez de água, novas pragas e doenças, alterações no ecossistema e na biodiversidade, etc.).

Na prossecução desse objetivo, realizou-se no dia 18 de junho de 2021 duas ações de formação dedicadas à polinização manual em anoneira (Annona cherimola), ministradas pelo Eng. Rui Nunes, com a colaboração da Eng.ª Aurélia Sena e Eng.ª Andreia Fernandes, e que contaram com a participação de 40 produtores.

A anoneira é uma planta cujas flores são hermafroditas, o que significa que a mesma flor tem os dois sexos, mas com a particularidade que, quando o órgão feminino está recetivo, o masculino ainda não está funcional, ou seja, a flor da anoneira comporta-se como dicogâmica protogínica. A flor passa por várias fases de abertura, nomeadamente a pré-fêmea, fêmea e macho.

A abertura das flores é, de forma geral, sincronizada em todo o pomar, com a duração de 24 a 36 horas.

A primeira abertura é sempre no estado fêmea e passa ao estado masculino na parte da tarde do dia seguinte, normalmente a partir das 15h00, variando a hora de acordo com as condições de temperatura, humidade e luminosidade. Esta situação é um dos principais motivos da baixa produção em determinadas condições edafoclimáticas.

Na Região Autónoma da Madeira (RAM), atendendo às condições climáticas predominantes no período primavera/verão, a altura da floração, e das variedades selecionadas, o potencial de autofecundação tem sido alto, dispensando a polinização manual. No entanto, devido às alterações climáticas dos últimos dez anos e para garantir a produção e a sua rentabilidade, é aconselhável a aplicação da técnica da polinização manual, a qual implica que os pomares de anoneiras tenham de ser podados, de modo a que estas sejam de porte baixo, não devendo ultrapassar os 2,5 metros de altura.

A técnica da polinização manual consiste na obtenção de pólen, que poderá ser de duas formas:

a) Recolha do pólen à tarde (a partir das 15h00), quando a maioria das flores estão na fase de macho.

Com um pincel, retira-se o pólen para um recipiente, operação que não deverá ser feita muito tarde, para evitar que as abelhas efetuem a recolha antes. O pólen obtido deve ser conservado a uma temperatura média de 7º a 8º C (no frigorífico), para, no dia seguinte, logo de manhã, proceder-se à polinização das flores que estão na fase de pré-fêmea e fêmea.

Realização da polinização manual em anoneira.

b) Recolha das flores no estado fêmea e, ao selecioná-las, dever-se-á ter em atenção as que se encontram muito próximas (menos de 20 cm), de forma a deixar flores femininas para o próximo dia de polinização, evitando assim que estas fiquem muito próximas umas das outras. As flores doadoras de pólen devem ser acondicionadas num saco ou recipiente arejado, para evitar que aqueçam e fermentem, e devem depois ser espalhadas em cima de um papel, à sombra. No dia seguinte, já no estado masculino, é necessário separar os estames do resto das flores e recolhê-los num recipiente (p.e.: uma embalagem de rolo fotográfico), os quais podem ser diluídos em pó talco, na proporção de 1:1.

De manhã, o mais cedo possível, procede-se à polinização das flores que estão na fase de desenvolvimento pré-fêmea e fêmea, momento em que a parte feminina está mais recetiva. Para otimizar a polinização, com a mão esquerda procura-se separar as pétalas para facilitar a entrada do pincel, com o qual se faz um movimento suave sobre o gineceu (figura 3). O pincel a utilizar deverá ser muito suave ou com uma pequena “bomba”, de modo a não ferir os ovários da flor.

A forma de recolher pólen da alínea a), comparativamente à da alínea b), tem a desvantagem da viabilidade/vida útil do pólen ser relativamente inferior e, como tal, diminuir a eficiência da polinização.

A polinização manual não deve ser realizada com vento forte, chuva, temperaturas elevadas ou humidade relativa baixa.

Outros aspetos a ter em consideração é que as flores polinizadas devem distanciar entre si pelo menos 20 cm no mesmo ramo. A atenção ao vigor do ramo é outro facto a considerar, pois a regra deverá ser em média de 20 folhas para um fruto. Por exemplo: para uma árvore de 8 a 10 anos, deverá ser efetuada uma polinização de 200 a 250 flores; para uma árvore com idade superior a 10 anos, a polinização deverá ser entre 250 a 450 flores. Para se saber as que já foram polinizadas, uma sugestão é quebrar uma das pétalas.

A polinização vai garantir frutos maiores e mais uniformes, uma produção escalonada ou concentrada (dependendo do interesse do produtor em relação ao mercado) e uma maior produtividade, ou seja, o custo da mão-de-obra vai ser compensado pelo rendimento. Dado que na polinização manual a produção será alta e regular, é fundamental que o produtor tenha mais atenção às podas, regas e fertilizações, caso contrário, as plantas poderão ressentir-se, ficando debilitadas.

Um aspeto a mencionar ainda é que com a polinização manual o índice de sementes será relativamente superior, comparativamente a um fruto de autopolinização.

Aurélia Sena
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural


 

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