Leguminosas

Importância do uso de leguminosas nas pastagens

As pastagens constituem um sistema ecológico bastante complexo e dinâmico, que abrange uma elevada biodiversidade, onde a vegetação dominante é composta por espécies herbáceas espontâneas e/ou semeadas.

Quando são ricas em leguminosas são uma fonte de alimentação animal de alta qualidade (altamente digerível e rica em proteínas) e palatável.

A biodiversidade vegetal ou diversidade funcional numa pastagem é importante já que as diferentes espécies e variedades têm capacidades distintas para ocupar os diferentes nichos ecológicos existentes, o que permite uma exploração dos recursos ambientais de forma mais completa. Além disso também se tem relacionado a biodiversidade com o aumento da produção de biomassa, da estabilidade do ecossistema, e da resistência a invasão de infestantes (Soder et al. 2007).

Para Nabinger et al. (s/ data) três tipos de biodiversidade devem ser considerados num ecossistema pratense: taxonómica (refere-se à diversidade/abundância de espécies), ecológica (diz respeito às relações entre características do habitat e a composição florística) e funcional (tem em conta características morfológicas e fisiológicas que agrupam indivíduos com características comuns; estas características são próprias de cada espécie e independentes das condições do meio).

Numa pastagem, quer natural quer melhorada, a diversidade de espécies é elevada. Neste tipo de sistema agrário biodiverso é fundamental conhecer bem as condições edafoclimáticas para perceber a forma de crescimento das diferentes espécies e variedades instaladas ao longo do ano e nas diferentes zonas da pastagem e assim dirigir o maneio de forma a privilegiar o desenvolvimento das plantas mais adequados e que se complementam entre si. Desta forma, será possível alcançar uma pastagem resiliente (velocidade de recuperação após alteração) e resistente (capacidade de evitar perda do seu estado de equilíbrio, i.e., da sua capacidade de recuperação da composição florística original após perturbação) (Begon et al, 2006). Para além destes importantes objetivos, é fundamental conseguir que as populações das espécies mais interessantes de uma pastagem mantenham um equilíbrio dinâmico ao longo dos anos, i.e., conseguir uma pastagem com grande persistência.

Pastagens ricas em leguminosas

As leguminosas são uma das duas famílias de espécies que mais contribuem para o sucesso de uma pastagem. Este grupo de plantas comumente utilizadas em pastagens pertence ao grupo das leguminosas anuais de ressementeira natural (pastagens de sequeiro) e leguminosas perenes (pastagens de regadio). Estas leguminosas são, normalmente, de origem genética local e, por isso, adaptadas ao meio e, quando bem manejadas, são também de elevada persistência. Incrementar e otimizar o uso destas leguminosas pode ser das estratégias mais eficientes para tornar os sistemas agropastoris e agrosilvopastoris mais sustentáveis já que estas espécies proporcionam vários benefícios (ver quadro 1). Destacamos (i) a captação biológica de azoto atmosférico livre (através da relação simbiótica entre leguminosa e a bactéria Rhizobium), (ii) a maior ingestão voluntária de matéria seca (MS) por parte dos animais em comparação com gramíneas, já que a sua digestibilidade é maior e (iii) a maior proporção de proteína fornecida por este tipo de planta.

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Leguminosa – Azoto – Solo

Os rizóbios (Rhizobium spp. e Bradyrhizobium spp.) são microorganismos que se associam aos nódulos das raízes das leguminosas. Este organismo obtém nutrientes das leguminosas e estas plantas beneficiam do azoto atmosférico captado pelo rizóbio.

O azoto, para além de ser o nutriente mais escasso e o que mais condiciona a produtividade da agricultura e dos ecossistemas naturais, é muito importante para a formação das proteínas. Como referem Fernandes e Rodrigues (2012), a fixação biológica do azoto (FBN) permite: (i) o menor uso de adubos azotados, que resulta em poupanças significativas; (ii) contribui para o auto-fornecimento do azoto utilizado para a formação da planta, minimizando desta forma os impactos do azoto sobre o meio ambiente; (iii) o uso de leguminosas como adubos verdes (siderações) eficientes na FBN cede azoto para a cultura seguinte e melhora as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo e (iV) aumenta a produtividade, especialmente evidente em solos pobres.

A proporção de azoto fixado depende muito da eficácia da nodulação e do azoto disponível para as plantas. Sendo assim, inocular as sementes das leguminosas com o rizóbio correto é uma estratégia a seguir para garantir a eficácia deste mecanismo.

Para Clarck et al. (2013) o conteúdo de leguminosas nas pastagens deve ser mantido entre 25 e 45% da matéria seca total para garantir a satisfação adequada de azoto para as gramíneas presentes e obter erva com o correto valor nutricional para os animais.

Através do aumento da proporção de leguminosas numa pastagem está-se a contribuir também para o aumento da fertilidade do solo. Isto deve-se ao incremento do teor de azoto no solo como resultado da decomposição de raízes e de outras frações de leguminosas ricas nesse nutriente. Por outro lado, o aumento do teor de azoto, levará a uma maior produção geral de biomassa da pastagem que, consequentemente, pela reciclagem feita pelo animal de parte da erva pastada, irá induzir um incremento de matéria orgânica (MO) no solo com os efeitos positivos associados na melhoria da sua estrutura e espessura, na disponibilidade de nutrientes e na retenção de água (Oliver et al., 2000).

Para Crespo (2011), nas culturas pratenses e forrageiras ricas em leguminosas, podemos considerar que a cada tonelada de matéria seca de leguminosas produzida, correspondem 30-40 kg de azoto fixado por via simbiótica e, concluir que nas nossas condições mediterrâneas, a produções de erva de 4 a 8 t MS/ha/ ano em sequeiro, ou de 12 a 20 t MS/ha/ano em regadio, contendo na sua composição 50% de leguminosas, correspondem níveis de fixação de azoto simbiótico de 60 a 160 kg/ha/ano em sequeiro e de 180 a 400 kg/ha/ ano em regadio. Tratando-se de culturas puras de leguminosas (ex. luzerna), tais níveis de fixação podem atingir 550-600 kg de N/ha/ano.

A maior capacidade das pastagens para fixar carbono atmosférico e, portanto, de aumentar o sequestro de quantidades significativas de carbono no solo aumenta quando na sua composição a proporção de leguminosas é alta. As pastagens permanentes semeadas biodiversas ricas em leguminosas são dos sistemas mais eficientes no sequestro de CO2; segundo Teixeira et al. (2007), transferem o carbono para o solo sobre a forma de matéria orgânica a uma taxa de cerca de 5 ton CO2/ano/ ha, mesmo considerando e deduzindo as emissões resultantes da carga animal, das plantas em decomposição e das fertilizações iniciais. Sendo assim, pode dizer-se que as leguminosas contribuem, de uma forma prolongada no tempo e dependendo da sua maior ou menor produtividade, para o aumento do teor do solo em matéria orgânica (MO). Para esta variação nos níveis de MO no solo também contribui a ausência de mobilização do solo. O aumento da fertilidade do solo favorecerá o desenvolvimento das espécies pascícolas de melhor qualidade, podendo assim suportar uma carga animal maior. Além disso, um solo com mais MO é mais resistente à erosão e tem maior capacidade de reter água.

Pelo antes referido, pode dizer-se que estas plantas contribuem significativamente para reduzir o efeito estufa, pois ao reduzirem a necessidade de fertilizantes azotados, reduzem-se as emissões de N2O, além de reduzir as emissões de metano por ruminantes devido ao melhor desempenho animal (Macedo et al., 2014).

Espécies e variedades

Para potenciar os benefícios das leguminosas há que usar as espécies e variedades mais adaptadas a cada local.

Para tal, há uma série de fatores importantes que precisam ser considerados como sejam: condições do solo (pH, zonas sujeitas a alagamento, etc.), ciclo (precoce, intermédio, tardio), percentagem de sementes duras, suscetibilidade a doenças e pragas, valor nutricional. Com as escolhas corretas conseguir-se-á também contribuir para a maximização do efeito mitigador das alterações climáticas atribuídas às pastagens permanentes (considerada uma das medidas descarbonizadoras do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050).

Referências Bibliográficas
Andrade, C. (2012). Importância das leguminosas forrageiras para a sustentabilidade dos sistemas de produção de ruminantes. In: Simpósio brasileiro de produção de ruminantes no Cerrado, 1Uberlândia. 47-93 pp.. Begon, M.; Townsend, C. e Harper, J. (2006). Ecology: from individuals to ecosystems. 4 ed.. Oxford. Blackwell Publishing. 738 p. Clark, S.; Baker, F.; Sandral, G. e Sargeant, K. (2013). EverGraze, Future Farm Industries CRC. https:// www.evergraze.com.au/ (Consulta em: 25/02/2021) Crespo, D. (2010). Em tempo de crise, qual o papel das pastagens e forragens do desenvolvimento da crise. SPPD (ed.). TRIFOLIA, 1:1-3. Fernandes, J. e Rodrigues, P. (2012). Importância da inoculação com bactérias rhizobium e bradyrhizobium na produção. AGROTEC (2): 34-37. de leguminosas e o uso do azoto Macedo, M.C.M.; Kicher, A.N. & Zimmer, A.H. (2000) – Degradação e alternativas de recuperação e renovação de pastagens. EMBRAPA Gado de Corte, n. 62, p. 1-4 Nabinger, C.; Dall’Agnol, M. e Carvalho, P. (s/ data). Biodiversidade e produtividade em pastagens. https://www.bibliotecaagptea.org.br/zootecnia/forragens/artigos/ BIODIVERSIDADE%20E%20PRODUTIVIDADE%20EM%20PASTAGENS.pdf (Consulta em: 2021/02/23) Oliver, L., Pérez-Cormona, M. E. e Bermúdez de Castro, F. (2000). Descomposición de hojarasca de leguminosas y gramíneas en un pastizal oligotrófico mediterráneo. Proceedings of 3ª Reunião Ibérica de Pastagens e Forragens, Consellería de Agricultura, Gandería e Política Agroalimentaria (ed.), Xunta de Galícia, Espanha. pp. 153-158. Soder, K.; Rook, A.; Sanderson, M. e Goslee, S. (2007). Interaction of Plant Species Diversity on Grazing behavior and Performance of Livestock Grazing Temperate Region Pastures. Crop Science, v.47, p.416- 425. Teixeira, R., Domingos, T., Abrunhosa, G., Rodrigues, O., Simões, A., Sarmento, N. (2007). Relatório de Sustentabilidade – Liga para a Protecção da Natureza, Sousa Cunhal e Terraprima. Lisboa: Extensity

Autoria: Teresa Carita

  • Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária – Elvas
Autoria: Teresa Carita
Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária - Elvas

Artigo completo publicado na edição de março 2021.