Hortofruticultura Investigação

Utilização de capota de amêndoa (Prunus dulcis L.) na alimentação animal

Figura 1. Amêndoa com capota

Introdução

A capota amêndoa (Prunus dulcis L.), também designada por cascarão ou casca verde, consiste no epicarpo e mesocarpo do fruto da amendoeira (Figura 1).

Esta casca mais exterior da amêndoa, que representa cerca de 50% do fruto, é removida ainda no campo após a colheita (Figura 2 a 4), que ocorre nos meses de agosto a outubro.

Dados do mais recente Recenseamento Agrícola mostram que a área de amendoal duplicou entre 2009 e 2019. A área de amendoal em 2019 foi de 49 429 ha, principalmente distribuída pelas regiões de Trás-osMonte, Alentejo e Algarve (51,7; 29,4 e 10,1% da área total, respetivamente), contribuindo significativamente a região Alentejo para o aumento da área dedicada ao amendoal em Portugal na última década.

A crescente implementação de pomares de amendoal em Portugal é assim acompanhada pelo aumento das quantidades disponível de capota. A capota de amêndoa apresenta características, como composição química, valor nutricional e palatabilidade que a tornam muito interessante para aplicação na alimentação animal, principalmente para ruminantes. O presente artigo tem como objetivo disponibilizar informação sobre a utilização da capota de amêndoa na alimentação animal, relativamente à sua composição química e valor nutricional, bem como níveis de incorporação nas dietas e impactos na produtividade e qualidade dos produtos.

Composição Química e Valor Nutricional

A composição química e valor nutricional da capota depende da variedade, do estado de crescimento e de maturação da amêndoa, mas também das condições ambientais (Homedes et al., 1993; Prgomet et al., 2017). Dados sobre a composição química e valor nutricional da capota de amêndoa estão disponíveis na literatura, mas neste artigo optamos por apresentar os dados obtidos no âmbito do Grupo Operacional SubProMais, em que foi analisada capota de amêndoa produzida em Portugal na região no Alentejo nas campanhas de 2019 e 2020 (Tabelas 1 a 3).

A capota de amêndoa é caracterizada por apresentar um elevado teor em matéria seca (MS), mas que é também muito variável (45,5 – 89,0%) dependendo do tempo de exposição às condições ambientais após a colheita que levam a uma perda natural de humidade (Tabela 1).

Uma das características que tornam a capota de amêndoa interessante para a alimentação animal é o seu elevado teor em açúcares (29,1% na MS). Adicionalmente apresenta baixos níveis de proteína (5,6% na MS), um moderado conteúdo de conteúdos parietais (25,0; 18,9 e 6,6% de fibra em detergente neutro (NDF), fibra em detergente ácido (ADF) e lenhina em detergente ácido (ADL) na MS, respetivamente) e baixos níveis de gordura (0,9% na MS).

Apresenta também na sua constituição minerais (Tabela 1) como potássio (5,2% na MS), cálcio (0,30% na MS), fósforo (0,20% na MS) e ferro (142,9 µg/g MS). O ácido aspártico é o aminoácido mais abundante (11,5 g/ kg MS) (Tabela 2). A fração lipídica é composta principalmente pelos ácidos mirístico (14:0; 2,71 g/kg MS), oleico (18:1 cis-9; 1,91 g/kg MS), linoleico (18:2 n-6; 1,00 g/ kg MS) e palmítico (16:0; 0,92 g/kg MS) (Tabela 2).

A capota de amêndoa é também uma fonte de compostos bioativos, nomeadamente em compostos fenólicos, incluindo taninos condensados, e em compostos tripertenóides, que lhe conferem elevada atividade antioxidante (Safarian et al., 2016; Kahlaoui et al., 2019).

Em relação à digestibilidade os valores encontrados são da ordem dos 60% para a MS e para a matéria orgânica e de 21% para a proteína. A baixa digestibilidade da proteína poderá estar associada à presença de taninos condensados (Tabela 3).

Verifica-se uma grande variabilidade na composição química da capota de amêndoa, o que pode dever-se à presença nas amostras recolhidas de pequenos ramos e folhas da árvore, pedaços da casca dura, ou até amêndoa.

Formas de Conservação

As características físicas e químicas da capota de amêndoa associadas às condições climáticas favoráveis na época da colheita da amêndoa permitem a sua secagem natural, assegurando de uma forma simples e económica a estabilidade deste subproduto. A desidratação artificial é independente das condições climáticas e permite a secagem rápida de elevadas quantidades do subproduto, no entanto os elevados custos energéticos e económicos do processo pode tornar inviável esta opção. O ensilamento com outros alimentos é uma boa alternativa para a conservação da capota de amêndoa, permitindo obter um alimento de boa qualidade e estável que pode ser usado durante um período prolongado. O elevado teor de MS da capota de amêndoa faz dela um bom alimento para ensilar com subprodutos com elevada humidade (cenoura, dreche de cerveja, batata-doce ou repiso de tomate). Capota de amêndoa ensilada com cenoura, feno e polpa seca de beterraba, bem compactada produziu uma silagem de excelente qualidade (Muller et al., 1984). Também, capota de amêndoa ensilada com dreche de cerveja e feno na proporção 20/60/20 produziu uma silagem estável, bem conservada com 47% de MS e elevado teor de proteína (19%) (resultados não publicados, Figura 5).

Figura 5. Silagem composta por capota de amêndoa (20%), dreche de cerveja (60%) e feno (20%).

Utilização na alimentação animal

O elevado teor em açúcares, moderado teor de fibra e a presença de compostos bioativos na capota da amêndoa tornam este subproduto um recurso alimentar a considerar para aplicação na alimentação animal. A capota de amêndoa tem sido principalmente utilizada em dietas para ruminantes, existindo, no entanto, estudos sobre a sua incorporação na dieta de porcos, frangos e cavalos.

Alimentação de ruminantes

A substituição parcial ou total de alimentos forrageiros por capota de amêndoa na dieta tem sido explorada como forma de integração deste subproduto na dieta de vacas e cabras leiteiras e de borregos. Os resultados obtidos demonstram a importância da compensação azotada das dietas com capota de amêndoa para prevenir deficiências proteicas. Em vacas leiteiras alimentadas com uma dieta composta por 61% de feno de luzerna, a substituição gradual do feno por capota de amêndoa, atingindo níveis de 12,5 e 25% de capota de amêndoa na dieta, associado à suplementação com ureia nas dietas com capota de amêndoa (0,5 e 1% nas dietas com 12,5 e 25% de capota de amêndoa, respetivamente), permitiu manter o consumo de MS e a produção leiteira (Aguilar et al., 1984). No entanto, num trabalho mais recente, numa dieta com cerca de 64% de luzerna, a substituição parcial por capota de amêndoa (17,6% de capota de amêndoa na dieta) resultou na redução da produção de leite e consequentemente na produção diária de proteína e lactose (Williams et al., 2018). Contrariamente ao trabalho anterior, neste trabalho a redução da proteína da dieta pela incorporação de capota de amêndoa não foi compensada pela suplementação com uma fonte azotada, o que pode explicar a inconsistência dos resultados. Foi também reportado que a capota de amêndoa pode ser incluída na dieta de vacas leiteiras até 20% da MS da dieta, sem ou com reduzidos impactos no desempenho produtivo (Robinson, 2017).

Um trabalho com cabras leiteiras mostrou que a capota de amêndoa suplementada com ureia pode substituir a luzerna até 35% da dieta sem prejudicar a produção e a composição do leite (Reed and Brown, 1988).

Em borregos em engorda, a substituição parcial (50%) ou total do feno de luzerna por capota de amêndoa tratada com ureia, atingindo níveis de 20 ou 40% de capota de amêndoa na dieta não afetou a digestibilidade da dieta, o consumo de MS, e o desempenho produtivo dos animais (Rad et al., 2016).

A substituição de 0, 5 e 10% de luzerna por capota de amêndoa numa dieta composta por concentrado e luzerna (65:35), com teores de proteína bruta na MS de 18,2; 17,5 e 16,9%, respetivamente, não afetaram o desempenho produtivo, o consumo de alimento, a eficiência alimentar, as características da carcaça e a qualidade da carne (Phillips et al., 2015). Consistentemente, a inclusão de 15 e 30% de capota de amêndoa em dietas isoproteicas e isoenergéticas para borregos também não comprometeu o desempenho produtivo (Vonghia et al., 1989).

Alimentação de monogástricos

Os dados disponíveis sobre a utilização de capota de amêndoa na dieta de monogástricos são ainda muito limitados. Dois trabalhos realizados nas décadas de 80 e 90 do século XX sobre a incorporação de capota de amêndoa na dieta de porcos em crescimento não identificaram efeitos prejudiciais da utilização de 15% de capota de amêndoa no crescimento e na eficiência alimentar (Calvert, 1985; Homedes et al., 1993), sugerindo que nas condições testadas a capota da amêndoa poderá fornecer a energia necessária para manter os mesmos níveis de crescimento que uma dieta convencional. Num desses trabalhos, a incorporação de 15% de capota de amêndoa na dieta reduziu a gordura na carcaça, demonstrando o interesse deste subproduto para a obtenção de carcaças com menos gordura sem comprometer o crescimento.

Tanto quanto sabemos os trabalhos sobre utilização de capota de amêndoa em aves são mais recentes (Wang et al., 2021a, 2021b). Estes trabalhos demonstram que a capota de amêndoa pode ser incluída em níveis moderados na alimentação de frangos em crescimento como fonte de energia e fibra. A utilização de 6 a 9% de capota de amêndoa na dieta de frangos não comprometeu o ganho de peso e a eficiência alimentar até 18 dias de idade (Wang et al., 2021a). O ganho de peso ótimo associado e uma menor proporção de gordura na carcaça foi atingido com 5% de capota de amêndoa na dieta (Wang et al., 2021b).

A capota de amêndoa é um alimento seguro e palatável para cavalos, podendo ser fornecido em substituição do feno de luzerna e de aveia em até 45% da dieta (Clutter e Rodiek, 1990). Apesar do seu baixo teor proteico, este trabalho demonstrou que a combinação de 15, 30 ou 45% de capota de amêndoa com feno de luzerna e de aveia permitiu fornecer energia e proteína suficiente para cobrir as necessidades de manutenção de cavalos adultos (Clutter e Rodiek, 1990).

Conclusão

A capota da amêndoa pode ser uma boa fonte de energia para aplicação na alimentação animal, em particular em ruminantes. Dado o baixo teor em proteína da capota de amêndoa, a sua utilização deve ser associada a fontes alimentares ricas em proteína ou suplementada com fontes azotadas que permita atingir níveis de azoto adequados às necessidades dos animais. O potencial da capota de amêndoa como fonte de compostos bioativos capazes de modular e/ou melhorar a qualidade dos produtos está ainda pouco explorado, sendo necessário apostar nesta área de estudo otimizando a utilização deste recurso alimentar.

Página web do projeto: www.subpromais.pt.

Autoria
Liliana Cachucho1,2, Olinda Guerreiro1,3, Kátia Paulos4 , Cláudia Costa4 , Ana Teresa Belo4 , Ana Paula Portugal4 , Olga Moreira2,4, , José Santos-Silva2,4, Maria Teresa Dentinho2,4, Eliana Jerónimo1,3

1 Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL) / Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), 7801-908 Beja, Portugal

2 Centro Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal (CIISA), Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal

3 MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, CEBAL, 7801-908 Beja, Portugal

4 Instituto Nacional de Investigação Agraria e Veterinária, Polo de Investigação da Fonte Boa (INIAV-Fonte Boa), 2005-048 Vale Santarém, Portugal

Desenvolvimento completo na edição de julho 2021.

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Bibliografia
Aguilar AA, et al., 1984. J. Dairy Sci. 67:97–103; Calvert C, 1985. Ca. Agri. 39:14–15; Clutter SH and Rodiek AV, 1992. Equine Nutr. Physiol. Soc. 12:283–286; Homedes JM, et al., 1993. Calif. Agric. 47:27–28; INE, 2019. Instituto Nacional de Estatística – Anuário Estatistico/ – 2019. Lisboa, 2020; Kahlaoui M, et al., 2019. Antioxidants 8:1–17; Phillips CR, et al., 2015. J. Agric. Life Sci. 2:11–15; Prgomet I, et al., 2017. Molecules 22; Rad M, et al., 2016. J. Anim. Sci. 94:349–358; Reed BA and Brown DL, 1988. J. Dairy Sci. 71:530– 533; Robinson PH, 2017. Cooperative Extention – University of California, Davis; Safarian S, et al., 2016. Turkish J. Med. Sci. 46:1223–1232; Vonghia G, et al., 1989. Asian-Australasian J. Anim. Sci. 2 (3): 535-536; Wang J, et al., 2021a. Poult. Sci. 1–9; Wang J, et al., 2021b. J. Appl. Poult. Res. 30; Williams SRO, et al., 2018. J. Dairy Sci. 101:2072–2083.

 

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