Grande Entrevista

❝ Estamos convictos de que com a combinação de esforços conseguiremos ajustar e tornar mais atrativo o rendimento dos produtores

A área de cereais tem vindo a decrescer ano após ano, mas a Associação Nacional de Produtores de Cereais – ANPOC – que comemora em 2021 os seus 40 anos, está a desenvolver todos os esforços para mudar a situação.

José Palha, presidente da ANPOC, avança-nos em Entrevista que o desafio terá resposta mais pela produtividade do que pelo aumento de áreas. A utilização da tecnologia terá aqui um papel fundamental, o melhoramento vegetal, bem como a utilização mais eficiente dos recursos e, claro, a rega.

Quais são os principais marcos dos 40 anos da ANPOC?

A ANPOC tem vindo a trabalhar, desde a sua fundação, com a produção no sentido de melhorar a competitividade do sector. Ao longo destas quatro décadas, os desafios que o sector tem enfrentado têm sido muitos, e muito diferentes, e a ANPOC esteve sempre ao lado da produção. Destaco, desde logo, a integração de Portugal na União Europeia, que representou uma mudança enorme e que obrigou a grandes adaptações. Naturalmente, a par desta integração, vieram as sucessivas reformas da PAC que a ANPOC acompanhou, e acompanha, bem de perto, fazendo um trabalho estruturado junto das entidades governamentais e do sector.

Ao nível político, não posso deixar de referir, também, o papel importante que a ANPOC desempenhou na redação do documento da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais (ENPPC) e que se veio a transpor numa Resolução de Conselho de Ministros (nº101/2018). É um documento estratégico importantíssimo que tem vindo a servir de suporte ao trabalho da ANPOC, incluindo aquele que tem sido feito ao nível da preparação do PEPAC e que, se tudo correr conforme os anúncios já feitos pela Senhora Ministra da Agricultura, culminará com a retoma dos pagamentos ligados ao sector.

Hoje temos uma fileira que se conhece bem, muito mais articulada, diretamente envolvida na resolução dos problemas reais – sejam dos produtores, sejam da indústria –, e totalmente empenhada na inovação, na qualidade e na valorização dos cereais.

Outro importante marco dos últimos 40 anos da ANPOC é o trabalho desenvolvido no reforço das ligações entre os vários agentes da fileira dos cereais.

Veja-se, a este nível, a importância que o Clube Português dos Cereais de Qualidade, a funcionar sob os auspícios da Associação, adquiriu ao longo dos seus 22 anos de existência. Hoje temos uma fileira que se conhece bem, muito mais articulada, diretamente envolvida na resolução dos problemas reais – sejam dos produtores, sejam da indústria –, e totalmente empenhada na inovação, na qualidade e na valorização dos cereais. A Lista de Variedades Recomendadas é, precisamente, um reflexo desta articulação.

Destaco, também, o importante trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na área da transferência de conhecimento e capacitação, com a Formação Técnica para a Produção de Cereais de Outono/Inverno. Um projeto conjunto ANPOC/INIAV/IPBeja, que já vai na sua 5ª edição, e que tem por objetivo formar os agricultores em contexto real. É algo que nos orgulha particularmente, pois esta formação, por se focar na otimização dos fatores de produção e na estabilidade e aumento da rentabilidade das produções, tem gerado mudanças efetivas no maneio agronómico de muitas explorações.

Finalmente, e como não podia deixar de ser, tenho de referir o registo e lançamento da marca Cereais do Alentejo. Esta marca é o culminar de muitos esforços e representa bem o empenho da ANPOC na valorização dos cereais nacionais e em prol do aumento do rendimento dos produtores.

Qual o estado do sector atualmente?

A área de cereais tem vindo a decrescer ano após ano. Para isso tem contribuído a volatilidade dos preços pagos à produção, a incerteza meteorológica – em parte causada pelas alterações climáticas e que faz com que muitos agricultores que não dispõem de água não queiram correr o risco de semear – e, também, a política. Com efeito, as mudanças na PAC tiveram um impacto negativo muito grande neste setor.

Em 2018, como referi, a ENPPC foi transposta para uma Resolução de Conselho de Ministros. Deste documento constam cerca de 20 medidas cujo objetivo central é inverter esta situação. Algumas medidas já estão em marcha, outras estão a ser desenvolvidas, mas é nosso desígnio mudar o estado das coisas, trabalhando nas várias frentes já mencionadas, para além do envolvimento político: articulação da fileira, valorização dos cereais, inovação, capacitação e, naturalmente, comunicação.

Estamos convictos que com esta combinação de esforços conseguiremos ajustar e tornar mais atrativo o rendimento dos produtores; diferenciar os nossos produtos para que estes sejam ainda mais valorizados; e encontrar novos nichos de mercado, tais como os produtos baby food. Portugal poderá nunca atingir as produtividades de outros países da Europa e do mundo, mas produz, inegavelmente, com muita qualidade.

Dentro dos vários cereais, qual tem sido o mais “dinâmico”?

Tem sido o trigo mole, muito por causa da marca Cereais do Alentejo e dos contratos que fechámos com a Sonae e a Auchan. Esta parceria ANPOC/Retalho, que envolve também a investigação e a indústria, tem vindo a gerar os seus frutos. A produção ganha em estabilidade, a indústria ganha em eficiência tecnológica, o retalho ganha pela qualidade que imprime nos seus produtos e, claro, a investigação, que serve toda a cadeia, ganha propósito e vê o resultado do seu esforço posto em prática. Mas há também grande interesse no trigo duro, na cevada dística e, mais recentemente, temos notado uma maior procura de cereais biológicos e variedades mais rústicas (…).

Leia a entrevista completa na edição de julho 2021.

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