Agroindústria Hortofruticultura

“A continuar-se assim, corre-se o risco de não haver matéria-prima para alimentar as indústrias existentes”

As culturas hortícolas com destino à transformação industrial têm ganho espaço no nosso país, mas é o tomate aquele que de longe se destaca, representando uma fileira marcada por elevada qualidade do produto, perfil empresarial muito dinâmico, inovação e especialização tecnológica.

Ainda assim, o setor está a viver um momento conturbado, registando-se um decréscimo do números de produtores e área.

O momento que a fileira do tomate de indústria está a atravessar ficou patente no último Balanço de Campanha dos Hortoindustriais, organizado pelo Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional – Centro de Competências, realizado no início do ano, em formato de webinar.

Moderado por Ana Paula Nunes, do COTHN, do programa do webinar fez parte a apresentação de dois Grupos Operacionais referentes à cultura do tomate: GO Qualitomate (ver edição impressa) e GO Hortinf, assim como alguns dados da campanha de outros hortoindustriais como o brócolo e o pimento.

Gonçalo Escudeiro, diretor executivo
da Torriba e diretor da FNOP

Em nome da Federação Nacional das Organizações de Produtores Hortofrutícolas (FNOP), Gonçalo Escudeiro analisou a atividade do setor do tomate de indústria e concluiu que desde 2016 se verifica uma redução constante do número de produtores/empresas, tal como do número de organizações de produtores e de área. Considera por isso que estamos numa fase crítica de abastecimento do tecido empresarial, quando existe uma capacidade instalada de 1 600 mil toneladas a 1 800 mil toneladas e a produção tem chegado apenas a valores entre 1 100 mil toneladas e 1300 toneladas.

Teletrabalho teve impacto significativo no aumento dos consumos de produtos derivados do tomate

Já Martin Stilwell, presidente da AIT – Associação dos Industriais de Tomate – começou por frisar o grande impacto que a pandemia tem tido no setor, “desde logo, porque as pessoas não podendo viajar ficam mais em casa, onde fazem as refeições interferindo fortemente nos padrões de consumo”.

A nível mundial registou-se uma procura crescente pelos produtos derivados da indústria do tomate (molho de pizza, ketchup, molhos para massas …) sendo possível que continue a verificar-se face às atuais circunstâncias.

Pela análise do comportamento do setor nos últimos a anos, Martin Stilwell considera que 2019 seria um ano de ‘otimismo’ e 2020 teria sido ‘euforia’, mas o mercado está a viver um momento “estranho”, não sendo de prever que 202 seja muito diferente de 2020, fazendo de alguma forma remontar a anos anteriores em que a subida e descida da oferta também esteve lado a lado com uma crise económica.

Analisando as ajudas ao setor do tomate dos últimos anos, pagas pelo IFAP, nota-se uma diminuição das áreas de produção desde 2015, com exceção de 2017, tal como uma diminuição da produção contratada, contrastando com valores da produtividade, que em 2019 atingiram o máximo de 99,55 ton/ha.

Analisando as ajudas ao setor do tomate dos últimos anos, pagas pelo IFAP, nota-se uma diminuição das áreas de produção desde 2015, com exceção de 2017, tal como uma diminuição da produção contratada, contrastando com valores da produtividade, que em 2019 atingiram o máximo de 99,55 ton/ha.

  • Produtores: 325
  • Organizações de Produtores: 13
  • Área: 14 164 ha
  • Toneladas: 1 280 037
  • Produtividade: 90,39 ton/ha

» Tomate de Indústria em Portugal 2020 | Dados: FNOP

Em resultado de uma consulta às organizações de produtores de tomate de indústria associadas da FNOP chegou-se a uma análise que deverá ser vista de forma criteriosa na programação das próximas campanhas:

Pontos fortes:

• Qualidade da produção;

• Clima e solos;

• Conhecimento técnico dos produtores;

• Proximidade (das zonas de produção à indústria);

• Emprego;

• Produção organizada (contratos de escoamento, acompanhamento técnico; escalonamento da produção, cultura bem integrada, organizada e com indústrias na região).

Pontos fracos:

• Custos de produção;

• Preço do tomate ao produtor;

• Envelhecimento do tecido produtivo;

• Descapitalização da produção;

• Restrições de agroquímicos;

• Distância dos mercados;

• Consumo interno.

Oportunidades:

• Produto saudável;

• Reputação no mercado;

• Diversidade de mercado;

• Aumento de consumo;

• Procura de produto;

• Eco-regime.

Ameaças:

• Oferta (difícil);

• Dependência (da PAC);

• Gestão de crise;

• Impostos;

• Fitofármacos;

• Alterações climáticas;

• Cansaço dos solos;

• Informação deficitária em termos da origem do produto ‘Europa’.

“Face aos custos de produção, não foi possível obter a valorização esperada”

Gonçalo Escudeiro, diretor executivo
da Torriba e diretor da FNOP

Referindo à organização de produtores que dirige – Torriba – mas que poderá ser extrapolada para a generalidade do setor, Gonçalo Escudeiro caracteriza a campanha de 2020 de bastante irregular, na qual foi muito difícil escalonar entregas, acarretando mais custos. Ainda assim, a produção propriamente dita dos produtores associados desta OP apresentou bons resultados em termos de grau brix e cor, sendo dessas características que depende a valorização do produto. Mas, “face aos custos de produção, não foi possível obter a valorização esperada, gerando-se uma situação de desmobilização e desagrado por parte dos produtores, porque é uma cultura que obriga a um investimento muito elevado e no caso dos últimos seis anos, com retornos muito reduzidos. A continuar-se assim, corre-se o risco de não haver matéria-prima para alimentar as indústrias existentes”, conclui o dirigente.

“Nota-se abandono da cultura”

Embora a cultura do milho seja a mais emblemática no âmbito da atividade dos agricultores associados da Agromais – Organização de Produtores situada em Riachos (Torres Novas) – o tomate de indústria tem uma representatividade na ordem dos 10% do seu volume total de negócios.

De acordo com a informação avançada pelo responsável técnico da cultura do tomate de indústria desta OP, Bruno Moura, a campanha passada contou com 15 produtores que cultivaram 770 hectares, o que correspondeu a uma produção total de 72 128 toneladas, com uma média de 93,5 ton/ha.

A estes produtores a Agromais fornece toda a assistência técnica necessária à cultura, o que vai desde a escolha de variedades, parcelas, planificação de toda a campanha, recomendação das adubações e aplicação de fitofármacos, otimização da rega, gestão e logística das entregas nas indústrias, certificação nos referenciais Globalgap e Grasp e garantia do escoamento de toda a produção aos melhores preços.

No geral a indústria exige boa qualidade do tomate (brix evelado e cor). Algumas começam também a solicitar variedades com alto teor de licopeno.

Produtores aumentaram as áreas médias, a produtividade e o índice tecnológico, mas não há renovação geracional

Na opinião de Bruno Moura, esta cultura evoluiu grandemente nos últimos anos, contando com produtores muito especializados. Para além disso, registou-se também uma evolução ao nível da dimensão da área média por agricultor. “Se recuarmos uma década concluímos que com 15 produtores fazíamos cerca de 300 ha e neste momento com o mesmo número fazemos mais do dobro da área”, esclarece ainda. A tudo isto soma-se ainda o “elevado apuramento tecnológico dos produtores”, verificado nas últimas campanhas, que no geral permitiu um avanço positivo na obtenção de produções médias bastante mais altas.

Em termos de dificuldades da fileira, o responsável aponta o baixo preço a que o tomate é pago à produção e a dificuldade em conseguir angariar novos produtores, “visto tratar-se de uma cultura com maquinaria muito específica para a qual é necessário um grande investimento inicial, que a maioria dos novos produtores não tem”.

Olhando para o futuro do setor, Bruno Moura assume-se muito apreensivo, desde logo porque não há renovação da classe produtiva, e, pelo contrário, há produtores a abandonar a cultura por falta de rentabilidade da mesma ou trocando-a por outras mais rentáveis e com menor risco. Diz mesmo que já é elevado o número de produtores descapitalizados “o que começa a pôr em causa toda a fileira”. Ou seja, nos últimos três anos houve muitos produtores que deixaram de produzir tomate, levando a que neste momento Portugal tenha capacidade industrial instalada a mais para a produção no campo.

“A continuar com este cenário e face às previsões de subida de preços de outras culturas com muito menor risco e investimento (milho e cereais), provavelmente iremos continuar a assistir a uma diminuição das áreas e à consequente redução do número de produtores, a menos que haja alguma alteração que possa inverter este facto, a haver terá que ser dado agora se não corremos o sério risco de para o ano ser tarde de mais”, alerta o especialista.

Artigo completo publicado na edição de fevereiro 2021.

Veja a Grande Reportagem sobre o Tomate de Indústria. ↓