Grande Entrevista

“A principal mudança no Alentejo? Foi a água!”

Com a primeira fase do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva – EFMA – concluída (cerca de 120 mil hectares), já teve início a construção de mais cerca de 50 mil hectares, cuja conclusão está prevista para 2024, 10 mil dos quais até final deste ano.

De acordo com o Anuário Agrícola de Alqueva 2020, o EFMA tem a sua influência direta distribuída por 20 concelhos dos distritos de Beja, Évora, Setúbal e Portalegre, onde se tem assistido a uma tendência de alteração de ocupação cultural no sentido do aumento do peso das culturas permanentes, fruto do aumento da importância dos olivais e amendoais.

Mas têm sido muitas as alterações, não apenas em termos das culturas que vão ocupando o território mas de tudo o resto que lhes está inerente, desde as práticas agrícolas, até às oportunidades que vão sendo geradas, como pode ser constatado na Revista Voz do Campo – edição de julho.

José Pedro Salema

Como menciona em Entrevista o presidente do conselho de Administração da EDIA – Empresa de Desenvolvimento de Infraestruturas do Alqueva, S.A., José Pedro Salema, Alqueva abriu a porta ao investimento na agricultura, mas também na Agroindústria, no Turismo e na Exportação.

Como se caracteriza hoje o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva?

Hoje podemos afirmar que o Empreendimento de Alqueva é um projeto de sucesso. A principal característica deste grande conjunto de infraestruturas é a sua multiplicidade de soluções integradas. Abrangem áreas tão diversas como o fornecimento de água para a agricultura, abastecimento público e industrial, mas também as áreas das energias renováveis, turismo e serviços a montante e jusante destas atividades.

E ainda, a suportar este desenvolvimento de uma forma sustentável, todas as áreas assentes na proteção e melhoria do meio ambiente, na aposta na preservação do património e na procura constante de melhores soluções que tornem a região num exemplo de sustentabilidade, e para isso, tirando partido das mais modernas tecnologias que aqui foram incorporadas.

Hoje podemos afirmar que o Empreendimento de Alqueva é um projeto de sucesso.

Quais foram as principais mudanças no Alentejo desde que se fecharam as comportas?

A mudança mais percecionada pela população foi na paisagem. Pegando numa imagem do Alentejo pós anos 50, diria que o Alentejo estava pintado a quatro cores: verde na primavera, fruto das culturas cerealíferas que dominavam a paisagem; amarelodourado no verão, próprio dos cereais maduros; negro no outono, consequências do restolho queimado e, finalmente, castanho, da terra nua e lavrada.

Estas cores foram agora substituídas pelo verde permanente dos pomares de oliveiras, pelo branco das flores das amendoeiras, pelo rosa das flores dos pomares de frutícolas, pelo amarelo vivo da colza, pela cor dos frutos e dos diferentes matizes de verdes que cada cultura empresta à paisagem.

Mas atrás desta nova paisagem, está a verdadeira mudança operada na região.

É agora uma região mais produtiva, com uma maior diversidade de culturas. É uma região com mais população, onde o emprego sofreu um grande incremento. É uma região que está a ver crescer dia após dia os investimentos na agroindústria. É uma região que, de forma sustentável, cresce e empresta ao país a autossuficiência alimentar nalguns produtos, sendo o azeite o mais relevante.

A principal mudança no Alentejo? Foi a água!

É o esforço conjunto que nos permite ir mais longe com a mesma água, e assim garantir, ano após ano, a sua distribuição.

Nos últimos anos a palavra seca tem estado cada vez mais presente, como se faz a gestão destas situações no EFMA?

A designação da albufeira de Alqueva é: Reserva Estratégica de Água. Na sua génese estão as características climáticas da região. Sabia-se isso há 50 anos e confirma-se hoje que, para além do processo em curso das alterações climáticas, Alqueva iria enfrentar ciclos com anos consecutivos de seca. E foi com base nessa certeza que se projetou um reservatório que pudesse regularizar um rio temperamental como o Guadiana, que, quando os anos são húmidos, facilmente enche esse reservatório e que, uma vez cheio, nos vai garantir a distribuição de água por dois, três ou mais anos consecutivos de seca, dependendo da gravidade dessa seca e dependendo da gestão que é feita. E essa gestão passa, em primeiro lugar, pela eficiência na distribuição da água. Com o mínimo de perdas possíveis ao longo dos mais de dois mil quilómetros de canais e condutas e com o mínimo desperdício aquando da sua utilização pelo agricultor. Esse mínimo desperdício é conseguido com as mais recentes técnicas de rega e equipamentos que os agricultores utilizam.

É incontornável questionar até que ponto as culturas mais intensivas, como o olival e o amendoal comprometem ou não a sustentabilidade da gestão da água de Alqueva?

O que pode comprometer a sustentabilidade na região e a gestão do recurso água, são as más práticas. Não são as culturas em si, mas sim como se gerem. O olival é a cultura de Alqueva que mais área ocupa, mais de 60 mil hectares. Mas é também uma das culturas que menos água consome. Quando se diz que o olival é um grande consumidor de água, não se sabe do que se está a falar.

E também não é verdade que sejam as culturas mais intensivas a pôr em causa a sustentabilidade. A maioria das culturas em Alqueva são feitas em modo de produção integrada. Isto quer dizer alguma coisa!

Há uma diferença entre a perceção e a realidade. Cabe-nos a nós todos mostrar essa realidade e desfazer mitos.

Que oportunidades empresariais têm sido geradas a partir de Alqueva?

Na comunicação que a EDIA tem vindo a fazer nos eventos em que participa, utiliza um slogan que diz: “Alqueva, uma nova terra de oportunidades”. E vai mais longe ao acrescentar: “na Agricultura”, “na Agroindústria”, “no Turismo”, “na Exportação”. E esta é a verdade. Alqueva abriu a porta ao investimento em todas estas áreas, fazendo esta região apetecível ao nível de novas apostas empresariais.

Novos e mais lagares; fábricas de descasque de amêndoa; outras de noz; secadores industriais para o milho; unidades de refrigeração, calibragem, embalamento e transformação de fruta, etc.

Mas o tecido empresarial não fica por aqui. Alqueva impulsionou a instalação de grandes marcas de equipamentos de rega na região, criando emprego qualificado, novas empresas de consultoria e de projeto. Criou oportunidades para a construção de novas praias fluviais, impulsionando assim o setor do turismo com todos os reflexos positivos que traz na dinamização hoteleira e na restauração.

Nesta data a EDIA tem em curso, ou a terminar, um conjunto de empreitadas que representam, no seu todo, um investimento de 53 milhões de euros.

Quais os principais investimentos / projetos em curso?

Nesta data a EDIA tem em curso, ou a terminar, um conjunto de empreitadas que representam, no seu todo, um investimento de 53 milhões de euros.

Por um lado, o reforço da Estação Elevatória dos Álamos com mais duas bombas, duplicando a sua capacidade de bombagem que será, a partir de agora, de 28 m3/s. Está igualmente em fase de conclusão o Circuito Hidráulico e Bloco de Évora e daqui a uns meses o Circuito Hidráulico de Viana do Alentejo, o Adutor Principal de Viana do Alentejo e Bloco de Rega e ainda o Circuito Hidráulico e Bloco de Cuba-Odivelas, que juntos representam mais de 10 mil hectares de novos regadios. Por último, também em fase terminal, a ligação ao Sistema de Adução a Morgavel.

Desenvolvimento completo na edição de julho 2021.

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