Agrociência Agropecuária Sanidade animal

Estratégias Alimentares para a melhoria do valor nutricional da gordura dos ruminantes

A gordura de ruminantes caracteriza-se pelo seu elevado teor em ácidos gordos (AG) saturados e baixo em AG polinsaturados (AGPI), o que é considerado negativo para a saúde humana.

No entanto, a carne e o leite de ruminantes são simultaneamente as principais fontes alimentares na dieta humana de importantes grupos de AG, cujo consumo tem vindo a ser recomendado no contexto de uma dieta mais saudável. É o caso dos isómeros conjugados do ácido linoleico (18:2n-6), normalmente conhecidos como CLA, sendo o mais importante o c9,t11-18:2 CLA, também designado por ácido ruménico, e dos AGPI de cadeia longa da série n-3. Ambos os grupos de AG apresentam diversas e importantes funções no organismo. O CLA é associado a efeitos anticancerígenos e os benefícios dos n-3 AGPI para a saúde encontram-se bem documentados, como os efeitos anti-aterogénicos, antitrombóticos e anti-inflamatórios, para além da sua importância para o correto desenvolvimento do sistema nervoso e manutenção das funções cognitivas.

Durante o processo digestivo dos ruminantes, ocorre a nível do rúmen uma série de reações metabólicas mediadas pelos microorganismos ruminais, em que os AGPI da dieta dos animais são sucessivamente transformados em diversos AG com maior grau de saturação, sendo o principal produto final o ácido esteárico (18:0). Este processo é designado por biohidrogenação ruminal (BH).

A BH não é um processo simples, envolvendo a síntese de AG de diferentes configurações e graus de saturação, que constituem os produtos intermediários. Muitos destes isómeros encontram-se na forma trans e são globalmente considerados como nocivos para a saúde humana. No entanto, alguns deles não correspondem a este padrão. É o caso do já referido c9,t11-18:2 CLA que se encontra na carne e leite dos ruminantes, cuja deposição se deve não só à síntese ruminal, mas principalmente à conversão endógena do ácido vacénico (t11-18:1), o principal isómero trans sintetizado no rúmen, também ele com efeitos benéficos na saúde humana.

Na engorda de ruminantes são geralmente usados concentrados ricos em cereais, e por isso, com elevado teor em amido. Este tipo de dietas permite maximizar a produtividade e garante que a deposição de gordura é comandada pela genética do animal. No entanto, o padrão normal da BH pode ser alterado com estas dietas, favorecendo a síntese e acumulação no rúmen de t10- 18:1, ao invés do t11-18:1 (shift trans-10). Este isómero não pode ser convertido em c9,t11-18:2 CLA e o seu efeito é considerado nefasto para a saúde. Deste modo, quando os ruminantes são alimentados com dietas ricas em concentrados e em amido, o shift trans-10 é o principal condicionante da concentração de c9,t11-18:2 CLA nos produtos.

A modulação nutricional da BH tem sido uma linha de investigação continuamente desenvolvida ao longo dos últimos 20 anos no Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, IP – Pólo de Santarém (Antiga Estação Zootécnica Nacional). Foram realizados muitos ensaios produtivos envolvendo as fases de engorda e acabamento de borregos e de novilhos, onde se estudaram os efeitos isolados ou combinados de diferentes fatores nutricionais.

A suplementação lipídica das dietas de ruminantes com fontes de AGPI é uma das estratégias mais expeditas e eficazes para manipular a composição em AG dos produtos. A suplementação com fontes de 18:2 n-6, como sementes e óleo de girassol ou óleo de soja, potenciam o aumento de t11-18:1 e c9,t11-18:2 CLA, enquanto a suplementação com fontes de n-3 AGPI, como sementes de linho, óleo de linho e óleo de peixe, para além do aumento de t11-18:1 e c9,t11-18:2 CLA, resulta também num aumento dos n-3 AGPI. A conjugação de fontes de 18:2 n-6 e de n-3 AGPI pode ser eficaz para enriquecer simultaneamente a carne em CLA e em n-3 AGPI. Contudo, os resultados obtidos dependem de outros fatores nutricionais como o teor de amido e a relação forragem: concentrado (F:C) na dieta. Nas dietas com alta proporção de cereais a suplementação com AGPI pode exacerbar o risco de ocorrência do shift trans-10. É ainda de ressalvar que a ingestão de gordura pelos ruminantes deve ser limitada a valores próximos de 60 g/kg de matéria seca, de modo a prevenir efeitos negativos na ingestão de alimento, na digestibilidade da fibra e nos processos oxidativos celulares. As dietas suplementadas com AGPI apresentam um elevado potencial pró-oxidante que pode afetar a saúde dos animais e a estabilidade oxidativa da carne produzida. Assim, nestes casos é importante garantir o nível dos compostos antioxidantes nas dietas. Na produção é comum utilizarem-se dietas completas, conjugando forragens com alimentos concentrados. Nestas condições, o efeito da suplementação lipídica é mais variável do que quando são usadas dietas exclusivamente forrageiras.

A par da valorização nutricional da gordura da carne e leite, a sustentabilidade ambiental dos sistemas de produção é outro aspeto igualmente importante, atual e que importa cada vez mais considerar na produção de ruminantes. Neste sentido foram desenvolvidos os projetos ValRuMeat – “Valorização da Carne de Ruminantes Produzidos em Sistemas Intensivos” (2016- 2019) e LegForBov – “Alimentos Alternativos na Produção da Carne de Bovino”, ainda em curso. Nos ensaios realizados foram avaliados os efeitos de vários fatores nutricionais tais como: 1) a substituição dos cereais por subprodutos agroindustriais, para reduzir a concentração de amido e ir ao encontro dos objetivos da economia circular; 2) a relação F:C para maximizar a utilização de forragens; 3) a natureza da forragem; 4) a inclusão de fontes de lípidos – óleo ou semente inteira de girassol, para estimular a BH.

Os resultados até agora alcançados indicam que a utilização de forragens de alta qualidade pode ser a base de dietas para ruminantes em fase de engorda, permitindo obter performances produtivas compatíveis com os sistemas intensivos de produção, sem efeito na qualidade das carcaças e aumentando a deposição na carne de AG bioativos benéficos para a saúde. Os custos da operação dependem dos custos com a produção das forragens e das matérias-primas usadas no fabrico dos alimentos concentrados, mas serão certamente competitivos com os da produção convencional.

A utilização deste tipo de dietas pode, contudo, traduzir-se num aumento das emissões de metano pelos animais. Este gás apresenta um elevado efeito de estufa e nos ruminantes resulta principalmente do metabolismo ruminal, sendo a sua produção mais elevada quando a dieta tem elevados teores em fibra. Assim, este aspeto poderá afetar negativamente a utilização destas dietas na engorda de ovinos ou bovinos. Contudo, a sustentabilidade ambiental dos sistemas produtivos deve ser estudada de forma integrada, considerando todo o ciclo de produção e utilização dos recursos – Análise de Ciclo de Vida. A produção de forragens a nível local, o sequestro de carbono associado às culturas e a utilização de suplementos lipídicos na dieta dos animais contribuem para o equilíbrio da pegada de carbono da produção de ruminantes. Por estas razões, atualmente incluímos nos estudos em curso a avaliação das emissões de metano pelos animais, com recurso a uma unidade GreenFeed (C-Lock Inc.), recentemente adquirida pelo INIAV. Preconizamos ainda realizar Análises de Ciclo de Vida de modo a concluir com maior objetividade sobre a sustentabilidade das estratégias nutricionais que temos vindo a estudar.

Artigo completo publicado na edição de julho 2021 da Revista Voz do Campo.

Autoria: Alexandra Eduarda Franciscoª e José Santos-Silvaª

  • ª Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, IP– Pólo de Santarém.
  • Quinta da Fonte Boa, 2005-048 Vale de Santarém

Agradecimentos:

O projecto ValRuMeat – Valorização da Carne de Ruminantes Produzidos em Sistemas Intensivos (ALT20-03-0145-FEDER-000040) foi financiado pelo programa Alentejo 2020. O projecto LegForBov – Alimentos Alternativos na Produção da Carne de Bovino (PDR2020-101-031179/031180/031181/031182/031183/031184) é financiado pelo Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural (FEADER) no âmbito do PDR2020. A aquisição da Unidade Greenfeed (C-Lock Inc.) foi financiada pelo Projecto ALT20-03-0246-FEDER-000041-CEAAI.

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