EMPRESAS & PRODUTOS Grande Entrevista

❝ Aqueles três dias em Valada do Ribatejo serão de intenso trabalho e o agronegócio fervilhará ❞

Nos próximos dias 7, 8 e 9 de setembro a Agroglobal vai mesmo acontecer, no Mouchão da Fonte Boa (Valada do Ribatejo), nos moldes das edições anteriores. Com delay de um ano há muito para comunicar, dado o grande investimento das empresas no desenvolvimento dos seus produtos.

Assim, em entrevista e em nome da equipa responsável por esta “mega-organização”, Joaquim Pedro Torres está confiante de que será uma Agroglobal maior que nunca e gostaria que fosse também mais ativa que nunca “para ajudar na saída de algum adormecimento coletivo em que o Covid nos mergulhou”.

Voltando às origens, como é que a Agroglobal evoluiu até aos dias de hoje?

A Agroglobal cresceu muito ao longo das sete edições realizadas. Por um lado em número de participantes, sempre aumentando, com empresas que não era hábito estarem em eventos agrícolas, “fechando” toda a cadeia de produção alimentar. Mas evoluiu também na forma como as empresas e outras organizações se apresentaram.

Numa primeira fase pesou a necessidade de uma afirmação de profissionalismo e capacidade tecnológica de um setor, à altura, considerado um parente pobre na economia.

Agora o foco é na criação de valor pela via da oferta de capacidades de todos os tipos por parte dos participantes.

Uma nova solução encontrada é, quase sempre, rastilho para inovação nos métodos e estratégias e, em sequência, para o aparecimento de novas necessidades para os quais há, quase sempre, resposta na Agroglobal.

Por isso aqueles três dias em Valada do Ribatejo são de intenso trabalho e o agronegócio fervilha.

É incontornável abordarmos o impacto dos constrangimentos provocados pelo contexto pandémico, nomeadamente o adiamento (duas vezes) da Agroglobal

Não olho para a relação Agroglobal – Covid pelo lado das limitações que daí decorrem. Para a organização esta Agroglobal será, mais certificado ou teste, o reencontro de um setor mobilizado para fazer mais e melhor, entusiasmados uns pelos outros para continuar na senda da eficiência e da utilização precisa dos recursos.

A Agroglobal de 2020 foi sobretudo virtual, com as conferências, praticamente sem público, transmitidas em live streaming

O virtual, pelo menos por agora, não nos traz isso e daí a expetativa para esta edição. Com delay de um ano há muito para comunicar porque é grande o investimento das empresas no desenvolvimento dos seus produtos. Ao dia de hoje penso que teremos uma Agroglobal maior que nunca e gostaríamos que fosse também mais ativa que nunca para ajudar na saída de algum adormecimento coletivo em que o Covid nos mergulhou.

Na última edição da Agroglobal tínhamos um centro de negócios requisitável pelas empresas para ações internas ou com clientes. Ficou rapidamente overbooking e preparámos outro. E mais não pudemos fazer por limitações infraestruturais daquela “cidade” à beira tejo. Resultado, algumas empresas, como a Edia, a AARibatejo, as Câmaras de Santarém e Cartaxo e outras adaptaram os seus stands a salas de reuniões e auditórios. É um exemplo da forma dinâmica característica da presença das empresas na Agroglobal.

Qual vai ser a área e o modelo desta edição?

Será obviamente presencial a 7, 8 e 9 de setembro e como sempre no Mouchão da Fonte Boa. As alterações aos moldes das edições anteriores são poucas. Um “pouco” mais de área relvada – 1 hectare – e uma nova entrada descongestionando um pouco o acesso ao parque de estacionamento. A distribuição das culturas e os caminhos mantêm-se e até a colocação dos expositores sempre que possível é a mesma.

No que respeita ao funcionamento da feira há que levar em conta que ela se realiza totalmente ao ar livre e, esperamos nós, em fase de vacinação avançada. Com base nas indicações da DGS, se a feira se realizasse hoje, deveria ser apresentado à entrada certificado ou teste pelos participantes e a lotação de auditórios e restaurantes reduzida. Por isso manteremos a transmissão por streaming nos auditórios e aumentámos os espaços de restauração.

Com um delay de um ano há muito para comunicar porque é grande o investimento das empresas no desenvolvimento dos seus produtos.

Sendo um evento que acontece no terreno, como muitos meses de preparação prévia, o que é que está a ser feito e que novidades podem ser esperadas?

São muitos meses não sei se de preparação se simplesmente de … Agroglobal. O contacto com os expositores não é uma simples relação cliente fornecedor. É sempre um longo e enriquecedor trabalho de definição de objetivos e avaliação de estratégias.

As empresas não hesitaram, aquando da altura de instalar as culturas de demonstração em manterem a presença nos campos com os seus produtos e equipamentos, num momento de grande incerteza. Estão 25 culturas no terreno, sempre acompanhadas e tratadas cuidadosamente e que estão, de uma forma geral, excelentes.

É debatendo com muitos destes intervenientes que são escolhidos os temas levados à discussão no auditório Armando Sevinate Pinto e no auditório Companhia das Lezírias. Debateremos os sistemas de produção considerados mais relevantes como a vinha/vinho – este ano com uma presença bem mais forte impulsionada pela ViniPortugal, IVV e Andovi – olival e frutos secos com a Olivum e a APFS, o arroz com a Casa do Arroz e o EU Rice Consortium, a floresta com a Celpa, os cereais com o parceiro de sempre, a Anpromis, e as frutas e legumes, é claro, com a PortugalFresh. Foi preciosa a ajuda da Consulai e da Agroges.

Mas debateremos também temas mais globais como a Economia Circular, a reforma da PAC, a Água e a Inovação – também presente no Agroinov – com intervenientes de reconhecida capacidade e, como sempre, ouvindo opinion makers que apesar de não serem especialistas trarão ideias e apercebem-se do muito de positivo que se faz na nossa agricultura.

Face ainda a estes trabalhos de campo, mas também aos debates que são promovidos durante o evento, qual é o grande contributo da Agroglobal para a agricultura portuguesa?

São muitas sensações que não sei se sou capaz de descodificar. Apesar de estarmos no meio do campo a Agroglobal é um espaço moderno e dinâmico. Não obviamente nas infraestruturas, que são improvisadas, mas na mentalidade dos intervenientes em que a partilha do conhecimento não é para ser apenas tema de conversa mas visa objetivos concretos de melhoria no desempenho pela sinergia e pelo negócio.

Os debates também não pretendem ter apenas um elevado mérito teórico mas sim ajudar a identificar as nossas limitações setoriais e a forma de as ultrapassar quer no plano empresarial quer nacional.

O conhecimento só é verdadeiramente útil se for transformado em obra e nunca o é se utilizado para a definição de objetivos utópicos que são um excelente “escudo” para tudo ficar na mesma.

“Só sabemos se o vento é bom se soubermos para onde queremos ir”. Esse destino simples e claro tem de ser definido e não pode andar ao sabor de ciclos eleitorais.

É esta a “linha editorial” Agroglobal.

Os debates também não pretendem ter apenas um elevado mérito teórico mas sim ajudar a identificar as nossas limitações setoriais e a forma das ultrapassar quer no plano empresarial quer nacional.

Enquanto agricultor e líder de opinião, como é que vê a pressão da opinião pública sobre a agricultura, nomeadamente sobre os seus impactos ambientais, consumos de água (…)?

Desde logo como estranho, face à emergência de produzir alimentos num planeta em acelerado crescimento demográfico em que, a cada momento, morrem pessoas à fome. Isso parece muitas vezes esquecido pelos adeptos de uma agro-ecologia “pesada” que esquece todo um mundo que está por detrás da “roda dos alimentos”.

A relação agricultura ambiente é minuciosamente escrutinada pela opinião pública. Pouco se fala noutros setores bem mais poluentes e com menos importância na nossa vida. Nem a qualidade do ar, com a agricultura em pleno, no epicentro da pandemia foi suficiente para rever critérios.

Os produtores estão conscientes das suas responsabilidades, procuram sempre a melhoria da eficiência na utilização dos recursos, até porque isso é uma exigência dos mercados competitivos, utilizam as substâncias ativas seguras. Somos líderes mundiais nos cuidados ambientais. Esta pressão terá que aliviar mais cedo ou mais tarde e espero bem que não seja por motivos de força maior.

A consequência mais grave é que por esta pressão mediática impede que se tomem decisões importantes e estruturantes. Nem um exemplo extraordinário como o Alqueva é suficiente para demonstrar que é essencial investir na água e no sol, os nossos mais importantes recursos naturais. As pretensas preocupações com as alterações climáticas e transição energética também não nos mobilizaram para evitar o desperdício daqueles recursos. Então a necessidade de produzir alimentos, o controlo dos incêndios e o desenvolvimento do interior não são prioritários?

Mas vamos manter a esperança de que o Plano Estratégico Nacional equilibre as decisões pois não podemos esquecer que a agricultura para ser sustentável tem de ser também rentável.

Com que expectativa olha para o recente acordo sobre a Reforma da PAC?

Não a conheço para me pronunciar. A organização da Agroglobal não me deixou tempo para essa avaliação. Mas será seguramente em linha com os tempos que vivemos! Espero restrições, burocracia e muita preocupação ambiental. Não trará provavelmente competitividade à agricultura europeia e nessa medida não será apelativa para os jovens. Abrirá a porta à importação levando às prateleiras produtos oriundos de países com regras mais aliviadas. Mas vamos manter a esperança de que o Plano Estratégico Nacional equilibre as decisões pois não podemos esquecer que a agricultura para ser sustentável tem de ser também rentável.

Para terminar, uma mensagem para o setor agrícola e para a Agroglobal 2021?

Reencontro marcado em Valada do Ribatejo 7, 8 e 9 de setembro. Não falte!

Com uma Grande Reportagem sobre a Feira na edição de agosto/setembro, a Voz do Campo não poderia deixar de marcar presença.

↓ Consulte o artigo completo na edição de agosto/setembro 2021.