Sanidade vegetal Vinha & Vinho

Algumas considerações sobre a Gestão dos Nutrientes na Adubação da Vinha

A adubação da vinha é entre as principais técnicas culturais, a que melhor contribui para a obtenção da quantidade e qualidade da produção vitícola. Estes parâmetros só se conseguem com uma boa gestão dos nutrientes ao longo do ciclo cultural da mesma.

Entre os vários factores, os que maior influência têm na qualidade da uva, são a uniformidade e a boa sanidade da cultura, que contribuem notoriamente para a qualidade final da produção.

Para uma boa gestão dos nutrientes é importante o conhecimento do estado nutricional da vinha, que nos permite identificar os desequilíbrios entre os nutrientes e assim avaliar se a absorção se realiza nas melhores condições. Com ela, conseguimos atingir os objectivos de rendimento, de qualidade e preservação do meio ambiente associados a um nível óptimo de nutrição para uma determinada vinha.

Para a avaliação do estado nutritivo da vinha podemos recorrer a vários métodos, desde a observação visual (vigor das plantas, sintomatologia de carências, estado sanitário das uvas, etc.) às análise foliares.

Só através da interacção destas duas avaliações em conjunto com as técnicas culturais seguidas e o estado sanitário das plantas, se poderão estabelecer planos de adubação correctos e equilibrados.

O sucesso da adubação da cultura, não só depende dos resultados analíticos do solo e das folhas, mas essencialmente da sua interpretação, com toda informação complementar.

Entre os diferentes nutrientes que interferem no desenvolvimento vegetativo, na produção e no estado sanitário da vinha, vamos desenvolver neste artigo, a importância dos seguintes:

• Azoto, um elemento que actua na quantidade da produção;

• Fósforo, um elemento com um papel energético;

• Potássio, um elemento que actua na qualidade da produção;

• Magnésio, um constituinte da clorofila;

• Cálcio, na estruturação das células, logo na sanidade da cultura;

• Boro, na polinização e vingamento da uva.

Gestão do Azoto

Um elemento determinante no vigor das cepas e na produção, mediante o desenvolvimento da superfície foliar, para alimentar o fruto durante a maturação.

A adubação azotada é importante durante a fase de crescimento das plantas, permitindo um bom vigor das videiras, a qual decorre nos primeiros três anos.

Em termos de adubação de manutenção ou de produção, servem para restituir o azoto exportado pela colheita da uva e pela lenha de poda.

O azoto na vinha deve ser aplicado de forma fracionada, de modo a diminuir as perdas por lixiviação.

As aplicações anuais não devem ultrapassar os 5 kg de N por tonelada de uva.

Desavinho

Consequências da falta de fósforo:

. Redução do crescimento radicular;

. Nas varas – má lenhificação da madeira;

. Atraso na maturação (prolongamento do ciclo vegetativo);

. Diminuição da fertilidade dos gomos, afectando o vingamento;

. E consequentemente o aparecimento do Desavinho (desequilíbrio N / P).

Como e quando corrigir?

Em termos preventivos – via solo

Esta carência deve ser vista sob forma preventiva, que consiste, logo antes da plantação, realizar uma boa adubação fosfórica destinada a constituir e a manter boas reservas nutritivas em níveis óptimos, o maior tempo possível.

Em termos de manutenção – via solo

Ao longo do desenvolvimento da vinha, aplicar regularmente adubos fosfóricos com o fim de compensar as exportações da vinha.

Aplicações ao solo na ordem das 50 unidades de P2O5 por hectare, no Outono-Inverno ou antes do abrolhamento (Fevereiro-Março), preferêncialmente com um distribuidor-localizador de adubos a uma profundidade de 30 cm.

Apesar de existirem diferentes adubos compostos e organo-minerais no mercado, os adubos simples mais utilizados são os superfosfatos.

Gestão do Potássio

O potássio é um elemento determinante da qualidade da produção, um factor de rendimento, da saúde e da longevidade da planta, com os seguintes papéis:

  • Controla a alimentação hídrica da vinha
  • Permite o engrossamento dos bagos
  • Influencia a migração dos açúcares
  • Melhora os aromas e sabor do vinho
  • Melhora o atempamento das varas

Sintomatologia da carência de potássio

No caso da carência em potássio, os primeiros sintomas manifestam-se na zona marginal das folhas (Figuras 1 e 2), seguidas de necroses.

Os sintomas manifestam-se nas folhas mais jovens da extremidade, em direcção às folhas mais velhas, descendo até à base dos sarmentos.

Como e quando corrigir?

Em termos preventivos – via solo

Esta carência deve ser vista sob forma preventiva, que consiste, logo antes da plantação, realizar uma boa adubação potássica destinada a constituir e a manter boas reservas nutritivas em níveis óptimos, o maior tempo possível.

Ao longo do desenvolvimento da vinha, aplicar regularmente adubos potássicos com o fim de compensar as exportações da vinha e as perdas por lixiviação.

Em termos curativos – via solo

Aplicações ao solo durante um período de três anos, na ordem das 50 a 100 unidades de K2O por hectare.

Gestão do Magnésio

É um constituinte da clorofila, com as seguintes funções:

  • Importante na elaboração dos açúcares
  • Intervém no metabolismo do fósforo
  • Intervém na síntese das proteínas e vitaminas

Na generalidade dos casos, esta carência encontra-se nos solos com baixos teores de magnésio, mas também em solos com pH ácido (inferior a 6) e em solos de textura ligeira.

A absorção do magnésio pode ser altamente prejudicada por uma assimilação excessiva de potássio (antagonismo K/Mg).

Sintomatologia da carência de Magnésio

· Amarelecimento e necroses internervuras (Figuras 3 e 4)

· Queda precoce das folhas.

Como e quando corrigir?

Via solo

Se o solo apresentar baixos teores de magnésio e for necessário corrigir a sua acidez, deve recorrer-se aos calcários magnesianos.

Se os teores de potássio no solo se apresentarem elevados, deverá aumentar-se a quantidade de magnésio a utilizar, até ao máximo de 30 a 40 kg/ha de Mg.

Via foliar

Recorrendo às pulverizações com sulfato de magnésio (1 a 2 kg por 100 litros de água, em duas ou três aplicações), ou com um produto comercial similar, nas doses recomendadas pelo fabricante.

Gestão do Cálcio

O cálcio é um elemento determinante no crescimento e desenvolvimento das plantas, tendo um papel importante na divisão celular e no fortalecimento das paredes celulares.

Nas plantas carenciadas neste elemento, o crescimento radicular é deficitário e sujeito ao risco de contaminação por fungos, responsáveis por doenças radiculares e da madeira.

Também é importante na germinação do pólen e no desenvolvimento do tubo polínico.

Como e quando corrigir?

Via solo

· Recorrendo às correcções calcárias no período Outono-Inverno, quando em presença de um solo ácido, com um pH igual ou inferior a 5,5, no sentido de disponibilizar e fornecer cálcio ao solo.

· Recorrendo às adubações com Nitrato de Cálcio, especialmente nas vinhas novas, na dose de 150 gramas por planta.

Via foliar

Podemos recorrer a várias soluções comerciais existentes no mercado, dando preferência aquelas que contenham o Cálcio associado ao Boro.

Gestão do Boro

O boro é um micronutriente essencial no processo da floração e da frutificação da videira, cuja falta afecta a produtividade e a qualidade da uva.

O seu papel na vinha é determinante:

  • Na absorção do Fósforo e do Cálcio pela planta
  • No transporte do açúcar
  • Na divisão celular
A carência em Boro afecta:

. Uma floração arrastada (queda difícil das caliptras florais);

. Um forte desavinho (flor não fecundada);

. Os bagos não se desenvolvem (bagoinha – Fig. 7);

. A migração dos açúcares faz-se mal;

. O risco de dessecação do engaço é maior (Fig. 8).

Actualmente existem no mercado um grande número de fitonutrientes, que contêm boro ligado a moléculas de etanolamina e aminoácidos, que o tornam mais assimilável e com maior mobilidade na planta.

A aplicação via foliar deverá ser efectuada nos seguintes estados fenológicos:

A correcção desta carência, deve realizar-se com cuidado e com conhecimento da mesma, pois os níveis de carência e os de suficiência estão muito próximos, e os de toxicidades não estão muito longe destes, pelo que é fácil passar de uma deficiência à toxicidade (Figura 11).

Leia o artigo em completo na edição de abril 2021.
BIibliografia Consultada

DELAS, Jacques (2000) “Fertilisation de la Vigne”

GALET, Pirre (1993) – “Précis de Viticulture”

GUERRA, António Pedro Tavares – Algumas considerações sobre a Fertilização das culturas arbóreas, D.R.A.E.D.M., 1986

MAGALHÃES, Nuno(2008) “Tratado de Viticultura”

MELO, Ilda F.S. (1979) “Microelementos – Sua acção na Videira”

Autoria:

  • António Pedro Tavares Guerra
  • Engenheiro Técnico Agrário |Formador Consultor em Nutrição Vegetal
  • *Escrito ao Abrigo do Anterior Acordo Ortográfico

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