Hortofruticultura Sanidade vegetal

A “Arca de Noé” da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve: as suas Coleções e alguns considerandos

Coleção de Alfarrobeiras | Amendoeiras

Já é muito significativa a Coleção de Variedades Tradicionais de Fruteiras (e de castas de Videira) da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAP Algarve) e o trabalho que tem realizado ao longo dos anos para a sua preservação.

Esta “viagem” começou na década de oitenta do século passado, quando se iniciou a instalação de Coleções de variedades tradicionais de fruteiras, nomeadamente de Figueiras e Videira, no então Centro de Experimentação Agrária da Lameira e de Nespereiras, no Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT). Importa também recordar algumas palavras escritas pelo autor, defendendo a importância da preservação, estudo e utilização dos nossos Recursos Genéticos Vegetais, há cerca de 25 anos, que infelizmente se mantêm em grande parte atuais e que enquadram no tempo e ajudam a compreender esta problemática.

“Para um país, onde a “produção de conhecimento” não tem sido muitas vezes uma prioridade, é sempre mais fácil importar conhecimentos do que investigar e conhecer melhor os recursos próprios, como por exemplo o seu património genético vegetal. Foi isso que infelizmente aconteceu nas últimas dezenas de anos entre nós, salvo honrosas excepções, nem sempre reconhecidas. Assim é hoje admitido por quase todos que o estudo das nossas espécies e respectivas variedades, poucas vezes foi considerado uma prioridade.

Neste contexto, sempre foi (também) mais fácil importar variedades das espécies cultivadas, obtidas no estrangeiro, muitas vezes mais adaptadas às regiões de onde eram originárias (do que ao nosso país), o que, face a uma escassa experimentação nacional com vista ao estudo da sua adaptação às diferentes condições edafoclimáticas existentes, levaram muitas vezes a fracassos evidentes, com graves consequências para os agricultores e para agricultura nacional”. (António Marreiros, 1996, O Algarve e o Campo, nº 4).

Tentando dar o seu contributo para alterar esta realidade, neste momento a DRAP Algarve tem em campo, nos seus dois Centros de Experimentação, Coleções de Fruteiras de Variedades Tradicionais/ Regionais – muitas delas únicas, para as quais deveria providenciar-se a existência de um imprescindível duplicado – (ver caixa abaixo).

Centro de Experimentação Hortofrutícola do Patacão (CEHFP) /Faro:

Banco de Germoplasma de Citrinos (único no país), onde temos 214 entradas/acessos em campo, de diversas espécies de citrinos, destacando-se 91 entradas de laranjeiras, 41 de tangerineiras e seus híbridos, 60 limoeiros, limeiras, toranjeiras, pomeleiros, cunquatos e outros, com 4 plantas/entrada, em porta-enxerto (p. e.) de citranjeira Carrizo e um compasso de 5mX3m (distância entre linha e distância na linha).


Centro de Experimentação Agrária de Tavira (CEAT):

– Coleção de Alfarrobeira (única no país, com 44 entradas), com 3 plantas/entrada, em p. e. de alfarrobeira e um compasso de 8mX6m;

– Coleção de Amendoeira (a mais importantes do país, quanto ao número de variedades regionais, com 122 entradas), com 3 plantas/entrada, em p. e. GF 677 e um compasso de 6mX4m;

– Coleção de Figueiras (a mais importante do país, com 97 entradas), com 3 plantas/entrada e um compasso de 6mX4m;

– Coleção de Macieira/Pêro de Monchique (com 32 entradas), com 5 plantas/entrada, em p. e. M7 e um compasso de 4,5mx1,5m;

– Coleção de Nespereira (única no país, com 29 entradas), com 5 plantas/entrada, em p. e. de nespereira e um compasso de 6mX5m;

– Coleção de Romãzeira (com 82 entradas, a coleção mais importante do país), com 4 plantas/entrada e um compasso de 4,5mX3m.

Para além destas Coleções de Fruteiras, a DRAP Algarve tem instalado no CEAT uma Coleção Ampelográfica de Vinha, com castas de uvas de vinho (84 de uvas tintas e 98 de uvas brancas) e de castas de uvas de mesa (56 de uvas tintas e 42 de uvas brancas), esta última de grande significado nacional.

Importa referir que estas Coleções, para além das variedades tradicionais regionais das espécies referidas, têm algumas variedades comerciais de relevância nacional e/ou mundial, que funcionam como referência, recordando que a diversidade edafoclimática do nosso país permitiu cultivar, com mais ou menos sucesso, espécies e variedades de várias zonas do mundo, o que poderá explicar a existência de toda esta diversidade genética.

O material vegetal das variedades tradicionais destas espécies de fruteiras (nomeadamente das romãzeiras, nespereiras e macieiras) foi colhido principalmente em 2012, maioritariamente em árvores isoladas, situadas geralmente junto à casa da exploração agrícola, em explorações familiares, encontrando-se algumas em estado de abandono e muitas das quais já não existem. Todo este material foi cedido pelos proprietários agrícolas que aderiram a esta iniciativa, com notória satisfação.

Importa também dizer que o termo “variedade”, utilizado no âmbito das Coleções, corresponde a diferentes entradas/acessos nas mesmas, de materiais vegetais de proveniência diversa, que se presumem ser diferentes, com boa adaptação às condições edafoclimáticas locais.

Coleção de Laranjeiras | Coleção Nespereiras

Presentemente, para além de todo o trabalho de manutenção e divulgação das Coleções, a DRAP Algarve, coordena o Projeto “Caracterização e Melhoramento de Fruteiras Tradicionais/FRUIT MED.-PDR 2020-784-72678”, que está em curso (25/09/18 a 24/09/22), com duas componentes:

A – A Conservação Genética Vegetal, desenvolvida na DRAP Algarve, nos seus dois Centros de Experimentação (CEHFP e CEAT), com o seguinte material vegetal (entradas/acessos); 4 entradas de Figueira; 8 entradas de Romãzeira, 4 entradas de Macieira/Pero de Monchique; 10 entradas de Alfarrobeira; 8 entradas de Nespereira; 7 entradas de Amendoeira.

B – O Melhoramento Genético Vegetal, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), na Estação Nacional de Fruticultura Vieira Natividade (ENFVN), em Alcobaça, da Pera Rocha.

No material vegetal referido em A, efetua-se a sua caracterização nos seguintes aspetos:

– Na caracterização morfológica das variedades existentes nas Coleções de Laranjeira, Macieira/Pero de Monchique e de Romãzeira, utilizamos os Descritores/ Protocolos técnicos CPVO (Community Plant Variety Office/Instituto Comunitário de Variedades Vegetais).

Para a Nespereira, Amendoeira e Figueira, para as variedades destas Coleções, utilizamos os Descritores UPOV (International Union for the Protection of New Varieties of Plants/União para a Proteção das Obtenções Vegetais).

Para a Alfarrobeira, seguimos os descritores adotados pela agora Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e elaborados pela DRAP Algarve e Associação Interprofissional para o Desenvolvimento da Produção e Valorização da Alfarroba (AIDA).

– Na caracterização agronómica são efetuados registos referentes à produção, precocidade, adaptação edafoclimática, etc.

– Na caracterização química e bioquímica, nas espécies em que tal seja possível, são realizadas as determinações nos frutos, como pH, Brix, Acidez e Índice de Maturação bem como outras análises que se considerem importantes, nomeadamente, teor de gordura, proteína, fibra, etc.

– A caracterização biomolecular realiza-se com metodologia de marcadores SSR, o que permite obter um perfil genético individual para cada acesso e a criação de uma base de dados para registo e comparação. Estes marcadores permitem ainda estimar parâmetros de diversidade genética e, em casos particulares, determinar a probabilidade de níveis de parentesco entre amostras.

2 – Registo no Sistema Nacional de Informação para os Recursos Genéticos Vegetais para a Alimentação e Agricultura, baseado na plataforma GRIN GLOBAL, com o objetivo de documentar, processar, analisar e gerir os recursos genéticos de espécies de fruteiras. Os dados disponíveis serão incorporados no Sistema de Base de Dados gerido pelo Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) – GRIN GLOBAL.

As principais dificuldades deste trabalho têm a ver, no nosso caso, fundamentalmente com dois aspetos:

– falta de recursos humanos, quer técnicos quer de pessoal de apoio, nomeadamente assistentes operacionais (AO), para realização do imprescindível trabalho de campo, nas diferentes Coleções. A redução acentuada de pessoal, principalmente através da saída por reforma, fez com que já se esteja neste momento abaixo daquilo que deveria ser, pelo menos, os níveis médios de manutenção das Coleções, pois no caso das saídas de AO, a sua substituição foi nula e no caso dos técnicos ela tem sido residual. Salienta-se o facto de não assistirmos à entrada nos serviços de jovens quadros técnicos, a quem pudesse ser “passado o testemunho, fazendo-se assim escola”, aspeto fundamental em qualquer organização preocupada com o futuro;

– necessidade de financiamento a longo prazo (independente dos ciclos de candidaturas a projetos que podem ou não ser aprovados e que muitas vezes não têm continuidade), como muito bem é referido textualmente no Plano Nacional para os Recursos Genéticos Vegetais (INIAV, 2015), …”Estes financiamentos deverão ter uma duração idêntica ao objeto a que os mesmos se destinam, não devendo depender de candidaturas de periodicidade e aprovação aleatória, sob pena de se colocar em risco a manutenção das coleções existentes, havendo uma necessidade clara de dar “perenidade” a estes financiamentos”. Tal nunca passou à necessária e imprescindível prática.

Todas estas dificuldades têm feito com que a conservação e o estudo das nossas Coleções (que todos dizem ser “um trabalho muito importante”, que ajuda a manter a biodiversidade e a sustentabilidade no nosso planeta, aspetos a que qualquer discurso de hoje em dia dá destaque, por ser “politicamente correto”), estejam a ser conduzidas como é possível e não como nós, técnicos e dirigentes, responsáveis por esta atividade, gostaríamos que fosse. Em linguagem olímpica, diremos que estamos a “cumprir os mínimos”, quando, como técnicos, gostaríamos de dizer que estávamos a “bater recordes” ou a “conseguir medalhas” para o nosso país, um país onde infelizmente sempre foi mais fácil obter financiamento local ou nacional para obra/atividades de curto ou médio prazo, do que para longo prazo, como é o caso da conservação e caracterização das variedades tradicionais, onde tem de existir uma inequívoca visão estratégica de futuro.

As Coleções da DRAP Algarve têm um duplo objetivo:

– a conservação do material vegetal, garantido assim a preservação da biodiversidade e o estudo do mesmo na ótica da adaptação de algumas destas variedades às alterações climáticas e a menores consumos de água;

– a caracterização dos seus acessos é condição imprescindível para a sua utilização, para colocarmos assim alguns dos melhores materiais, em termos agronómicos e de qualidade, ao dispor dos viveiristas para multiplicação, de acordo com a legislação em vigor, e posterior fornecimento aos agricultores para produção (chegando depois aos consumidores), que sempre foi a melhor forma de preservar os recursos genéticos. É através da sua utilização, que se contribui inequivocamente para a manutenção das variedades tradicionais.

O exemplo do Pero de Monchique

A título de exemplo, poderemos referir o trabalho em curso com a Macieira/Pero de Monchique, entre a DRAP Algarve e a Câmara Municipal de Monchique (CMM), que visa a instalação em Monchique (região onde maioritariamente foi recolhido este material genético e onde está mais adaptado às suas exigências climáticas), numa parcela de terreno da Câmara Municipal, junto ao Convento de Nossa Senhora do Desterro, de um Campo de Demonstração e de uma Coleção de Pero de Monchique, que será uma réplica das 32 variedades da Coleção instalada na DRAP Algarve (CEAT). As responsabilidades serão assumidas pelas duas entidades, em função das suas competências específicas, com vista à preservação e valorização do Pero de Monchique, como produto tradicional desta região do Algarve.

Este projeto configura o “regresso” destes materiais, alguns únicos, ao seu solar, cujo material de origem poderá ter sido destruído, nos grandes incêndios do passado recente, ou porque simplesmente as propriedades onde se encontravam foram abandonadas e que foram, em boa hora, preservados pela DRAP Algarve. Chegou agora a hora de as recuperar comercialmente, como um produto tradicional e de qualidade da região de Monchique, potenciando as mais-valias deste património.

Notas Finais

Preservar recursos genéticos não pode ser uma actividade intermitente, “assente” em projetos. Deverá ser um trabalho permanente e sem interrupções. Em vez de fazermos candidaturas de projectos a programas (para a obtenção do imprescindível financiamento para a manutenção e estudo das diferentes Coleções), como normalmente tem sido feito, o modelo deveria estar ligado a um orçamento específico e aos meios humanos necessários. Entretanto, entre a aprovação (ou não) de dois projetos, normalmente sem continuidade no tempo, as árvores vão morrendo “de pé” e as sementes desaparecendo com a “partida” dos seus cuidadores. O património vegetal vai assim desaparecendo lentamente… em silêncio.

No futuro, muito provavelmente, iremos assistir ao desenvolvimento de projetos para “criar/recuperar genes”, responsáveis pelas características das variedades que “deixámos” desaparecer, por inércia, desconhecimento ou “falta de visão”.

Entretanto, “nos intervalos”, continuamos a falar em Sustentabilidade (com demasiada ligeireza), Biodiversidade, Preservação de Recursos Genéticos Vegetais, etc, etc, etc. Das palavras aos atos há um longo caminho.

Assim, conforme já dissemos anteriormente, há mais de 25 anos, (António Marreiros, 1996, O Algarve e o Campo, nº 4), “achamos importante chamar a atenção para o facto da preservação dos recursos genéticos ser uma tarefa de todos nós, onde cada um poderá ter um papel ativo, para além da manifestação verbal de preocupações e intenções, muitas vezes inconsequentes”.

Por fim, dizer aqui que na DRAP Algarve iremos continuar a fazer o nosso trabalho de Conservação dos Recursos Genéticos Vegetais, nomeadamente das variedades tradicionais das Fruteiras Mediterrânicas e a tentar tirar o melhor partido das mesmas, fazendo chegálas aos agricultores e aos consumidores, até podermos. E já podemos muito pouco, se a situação atual não se alterar.

Artigo publicado na Revista Voz do Campo

Edição de novembro’21

Autoria:
António Marreiros
Técnico Superior da DRAP Algarve, com 30 anos de trabalho nos Recursos Genéticos Vegetais, tentando preservar (com a colaboração de outros colegas), as variedades tradicionais das fruteiras da Dieta Mediterrânica, no Algarve.

 

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