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Madeira: As potenciais utilizações agrícolas da vinhaça ( parte I )

A espécie Saccharum officinarum L. é a cultura com maior relevância na produção de açúcar a nível mundial.

〈 02 / 02 / 2022 〉 

Além da produção de açúcar, da cana sacarina obtém-se outros subprodutos como o mel, melaço, aguardente e etanol. A vinhaça é um composto químico líquido que resulta do processo industrial que transforma a cana-de-açúcar em aguardente.

Ao longo dos tempos, na ilha da Madeira, a vinhaça foi lançada diretamente, sem prévio tratamento, em ribeiras e, consequentemente, no mar, contribuindo para a degradação ambiental dos ecossistemas.

Atualmente, com base nas tecnologias disponíveis para a reutilização da vinhaça, existem várias alternativas para o aproveitamento da vinhaça, tais como a fertirrigação, a incineração para reutilização das cinzas na agricultura, a evaporação para produção de ração animal, a produção de biodiesel e de fungos, a utilização em materiais de construção e a produção de eletricidade.

A reutilização de um resíduo que seria descartado promove a sustentabilidade e a economia circular e, nesse sentido, a Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA), através da Divisão da Inovação Agroalimentar (DIA) e da Divisão de Mercados Agrícolas (DMA), da Direção de Serviços de Mercados e Logística (DSML), em colaboração com a Direção Regional do Ambiente e Alterações Climáticas, elaboraram um protocolo para a realização de vários ensaios, de modo a avaliar os potenciais usos agrícolas da vinhaça.

Foram realizados os seguintes ensaios:
– avaliação da validade da vinhaça em diferentes condições de armazenamento;
– processo de obtenção de resíduo seco a partir da evaporação de vinhaça concentrada e;
– avaliação da eficácia do uso de vinhaça como biofertilizante, inseticida e anti-abrolhante.

1 – Determinação da validade da vinhaça

Foram colocados frascos de vidro (F), contendo vinhaça diluída (VD) e vinhaça concentrada (VC) em diferentes condições ambientais de armazenamento, nomeadamente:

– FVC1 (temperatura ambiente), FVC2 (câmara frigorífica) e FVC3 (câmara fitoclimática);
– FVD1 (temperatura ambiente), FVD2 (câmara frigorífica) e FVD3 (câmara fitoclimática);

A monitorização foi realizada semanalmente e registaram-se as eventuais alterações de aspeto geral e valores de pH.

O ensaio teve a duração de seis meses.

Não se verificaram alterações no valor de pH (3,0), mas sim no aspeto geral, como podemos verificar na figura 1 (vinhaça concentrada) e na figura 2 (vinhaça diluída).

Também foram realizadas análises químicas da vinhaça armazenada, à temperatura ambiente e conservada no frigorífico, cujos resultados encontram-se na tabela seguinte (tabela 1):

Não se verificou a existência de diferenças significativas entre os dois métodos de armazenamento, para os parâmetros estudados.

2 – Obtenção de resíduo seco a partir da vinhaça concentrada (VC)

Procedeu-se à decantação da vinhaça concentrada e o produto obtido foi distribuído em tabuleiros e/ou caixas de Petri previamente cobertos com papel vegetal. Estes foram colocados em estufa a 70ºC, até a obtenção do resíduo seco. Quando completa a desidratação, retirou-se o resíduo seco de cada tabuleiro, sendo armazenado após a respetiva pesagem e registado o valor de peso obtido (figura 3).

Fig. 3 – Processo de obtenção de resíduo seco a partir da vinhaça concentrada

Os resultados totais obtidos foram registados na tabela 2, nomeadamente o volume total inicial (VI), tempo de secagem (TS), tempo gasto na obtenção do resíduo seco (TRS), peso total do resíduo seco obtido (PRS) e rendimento (R). De referir que este último (R) foi calculado a partir da seguinte fórmula:

A obtenção do resíduo seco a partir da decantação e evaporação da vinhaça é um processo moroso, pouco eficiente e com elevados custos, do qual resulta um rendimento muito baixo, inferior a 3%.

De salientar que o resíduo seco foi alvo de análise química de forma a avaliar e verificar a sua eficácia como biofertilizante, com valores elevados de Potássio (11,5%) e Azoto (2,7%) total.

CONCLUSÕES GERAIS

Não existem diferenças significativas entre os dois métodos de armazenamento da vinhaça (temperatura ambiente e câmara frigorífica) no que se refere ao azoto total, fósforo total e potássio. Assim, a vinhaça poderá ser armazenada durante pelo menos seis meses sem alterações químicas evidentes.

A obtenção do resíduo seco a partir da decantação e evaporação da vinhaça, realizado com recursos existentes no InovLab, demonstrou ser um processo moroso, pouco eficiente e com elevados custos, pelo que se conclui não ser viável a sua obtenção através deste processo e com estes recursos. No entanto, tendo em conta a sua eventual eficácia como biofertilizante devido aos seus valores elevados de potássio (11,5%) e azoto (2,7%) total, julgamos que a utilização de um método de secagem mais rápido e eficiente permitiria considerar este resíduo como uma alternativa viável, quer a nível de armazenamento, quer a nível de aplicação.

Autoria: Natália Silva
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

Informação disponibilizada pelo DICAs.

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