Agrociência Agropecuária Olival & Azeite

Valorização do bagaço de azeitona na alimentação animal

Autoria →

Kátia Paulos1, Cláudia Costa1, Liliana Cachucho2,3, João Costa1,
Ana Paula Portugal1, Ana Teresa Belo1, José Santos-Silva1,2,
Eliana Jerónimo3,4, Mª Teresa P. Dentinho1,2
1Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Pólo Investigação
da Fonte Boa (INIAV-Fonte Boa), 2005-048 Santarém, Portugal
2Centro Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal (CIISA), Avenida
Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal
3Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL)/
Instituto Politécnico de Beja,7801-908 Beja, Portugal
4MED –Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e
Desenvolvimento, CEBAL, 7801-908 Beja, Portugal

Introdução:

Portugal é o 7º país produtor de azeite a nível mundial. Nos últimos anos a área de olival cresceu consideravelmente sendo hoje a cultura que maior área ocupa em Portugal – 379 mil hectares.

Em 2020 produziram-se 1,07 milhões de hectolitros de azeite (INE, 2021). O Alentejo é a região que mais produz, contribuindo nas últimas cinco campanhas com cerca de 3/4 do total de azeite nacional (INE, 2021). A produção de azeite é sazonal estando compreendida entre Outubro e Janeiro e está associada a uma elevada quantidade de subprodutos que, se não forem bem geridos, são altamente poluentes estando por isso os lagares geralmente associados a impactos ambientais negativos. Dos subprodutos que são produzidos (bagaço, caroço, águas ruças e folhas) o bagaço de azeitona é o mais abundante sendo geradas anualmente cerca de 450 mil toneladas. O bagaço de azeitona é constituído pela polpa, película ou tegumento da azeitona, partes do caroço triturado e água. Se deixado ao ar é uma fonte de poluição importante sendo necessários longos períodos de tempo para a sua degradação. As indústrias têm procurado diferentes formas de valorizar este subproduto utilizando-o numa 2ª extração do azeite residual, como fonte de energia, como adubo, herbicida, na alimentação animal e como fonte de compostos bioativos. Na alimentação animal há muito que tem vindo a ser estudado como matéria-prima alternativa às matérias-primas tradicionais e como fonte de compostos bioativos.

Este trabalho visa disponibilizar informação sobre o bagaço de azeitona na alimentação animal, sua composição química e valor nutritivo, forma de conservação e utilização e impacto que poderá ter no desempenho produtivo dos animais e na qualidade dos produtos finais obtidos (carne e leite).

Obtenção do bagaço de azeitona – breve descrição

Para extração do azeite, a azeitona que chega ao lagar é separada das folhas, ramos e de todo o tipo de impurezas que a acompanha (Figura 2). É lavada em água corrente e moída em moinhos metálicos para rutura das células e libertação do azeite. Desta moenda obtém-se uma pasta que, numa termobatedeira, é batida lenta e continuamente a uma temperatura entre 25 e 30ºC. Esta operação, designada termobatedura, facilita a extração do azeite ou por prensagem (sistema tradicional ou clássico) ou por centrifugação (sistema contínuo) (Figura 1). No sistema tradicional a pasta é depositada em seiras ou capachos (Figura 3), formando pequenas e finas camadas sobre as quais é exercida uma forte pressão que provoca a separação do azeite da água e do bagaço (Figura 4). Os sistemas contínuos (Figura 5) podem ser de 2 ou 3 fases. No sistema de 3 fases obtém-se, no final do processo três frações distintas: duas líquidas – o azeite e as águas ruças e uma sólida – o bagaço. No sistema contínuo de 2 fases, no final, obtém-se apenas duas frações: uma líquida (o azeite) e outra sólida, o bagaço que sai juntamente com as águas ruças sendo por isso designado bagaço húmido. Assim, consoante o sistema de extração utilizado obtém-se diferentes quantidades de bagaços, com diferentes teores em humidade e composição química. Por cada tonelada de azeitona laborada produzem-se 400 kg de bagaço no sistema tradicional, 500-600 kg no sistema contínuo de 3 fases e 800-950 kg no sistema contínuo de 2 fases (Aires, 2007).

Em Portugal 25 % dos lagares utilizam o sistema tradicional e produzem 2,2% do azeite total produzido. O sistema contínuo de 3 fases é utilizado em 18% dos lagares e produzem 3,8% do azeite total. O sistema contínuo de 2 fases é utilizado em 57% dos lagares e produzem 94% do total de azeite sendo por isso o bagaço húmido o subproduto que se encontra em maior quantidade (Pordata, 2021).

Os bagaços de azeitona proveniente dos sistemas de extração tradicional e do sistema contínuo de 3 fases podem ainda ser sujeitos a uma segunda extração de óleo para obtenção de óleo de bagaço. Do bagaço húmido também se pode extrair o óleo, porém, devido ao elevado teor de água que contém, a extração exige uma pré-secagem, tornando o processo bastante mais caro. Após a extração do óleo obtém-se como subproduto o bagaço de azeitona extratado que difere fundamentalmente do bagaço virgem no conteúdo em gordura, que é menor e no teor de matéria seca (MS), que é mais elevado (…).

→ Leia o artigo completo na edição de março de 2022 da Revista Voz do Campo.

Agradecimentos / Bibliografia

Página Web: www.subpromais.pt
Agradecimentos: Projeto SubProMais (PDR2020-101-030988, PDR2020-101-030993 e
PDR2020-101-030991) financiado pelo Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural (FEADER),
no âmbito do PDR2020 e Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) através dos projetos UIDB/
00276/2020 e UDB/05183/2020 e da bolsa de doutoramento atribuída a LC (2020.05712.BD).

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