Na primeira pessoa

❝ Independência Energética nas Águas ❞

José Pedro Salema, presidente da EDIA

〈  09 / 05 / 2022  〉

“A distribuição de água é um serviço essencial para o funcionamento das cidades e das indústrias assim como das áreas de agricultura regada que as alimentam. Se o ciclo da água se perpetua gloriosamente na natureza, para o Homem utilizar água nos locais e momentos que deseja tem que consumir muita energia.

Se no passado recorríamos aos elementos ou à força animal para acionar os engenhos que permitiam a elevação da água e depois à gravidade para a distribuir, hoje é a energia elétrica que garante o funcionamento dos sistemas, desde os grupos de bombagem aos cada mais sofisticados sistemas de monitorização.

No setor das águas hoje o tema forte ainda é a eficiência, onde seguramente ainda haverá muito que fazer. É óbvio que temos que reduzir ao máximo as perdas de água e que temos de utilizar a energia com a máxima parcimónia, recorrendo aos equipamentos e técnicas mais eficientes.

Por outro lado, a humanidade está confrontada com a necessidade de descarbonizar todas as suas atividades para garantir a sua sobrevivência neste planeta azul. Para tal, em poucas décadas, e quando mais rápido melhor, todas as famílias e todas as empresas terão de ter uma pegada carbónica nula.

A eletrificação é uma das migrações que terão necessariamente de ocorrer, substituindo todos os processos que dependem de combustíveis fósseis. Mas se parece evidente que temos que substituir todas as viaturas e máquinas a combustão por modelos elétricos temos que pensar também na origem da eletricidade que as vai alimentar. E um sistema de distribuição de água só será verdadeiramente sustentável quando conseguir produzir localmente a totalidade das suas necessidades energéticas com recursos a fontes renováveis.

Hoje já existem muitas situações em que a introdução de sistemas fotovoltaicos ou eólicos é mais económica que a tradicional ligação à rede elétrica. A alimentação elétrica de sistemas de comunicação ou monitorização recorre frequentemente à energia solar com enormes vantagens face à tradicional ligação à rede.

Os sistemas de armazenamento de energia que tornam possível a alimentação constante a partir de fontes intermitentes, como quase todas as renováveis, estão a evoluir muito depressa. Rapidamente surgirão soluções interessantes que urge estudar e potenciar a sua aplicação.

Em 2017 foi instalado no reservatório e estação de filtração da Cegonha (do sistema Alqueva) um sistema alimentação elétrica com recurso à produção fotovoltaica sobre estruturas flutuantes e com recurso a um banco de baterias que teve um custo de investimento igual ao da construção da ligação elétrica à rede, mas sem quaisquer custos mensais.

Em 2019 a EDIA concluiu a construção de duas centrais fotovoltaicas de 1MW cada para autoconsumo junto das estações elevatórias da Lage e de Cuba-Este, sendo já assim asseguradas a maioria das necessidades daquelas instalações.

Se ao imperativo civilizacional da descarbonização se soma a escalada e enorme volatilidade dos preços de mercado da eletricidade então a resposta só pode ser uma – a distribuição de água tem de progredir no sentido da independência energética, depois de evoluir o máximo possível na senda da eficiência, conhecendo necessidades e imaginando como os recursos energéticos locais as poderão satisfazer integralmente”.