vinha e vinho

Sustentabilidade no setor vitivinícola: o que falta para fechar o ciclo da circularidade?

O setor vitivinícola assume-se como um dos principais setores exportadores da ‘marca’ Portugal, mas não escapa às pressões sentidas à escala mundial para se tornar mais sustentável.

〈 21 / 06 / 2022 〉

“Sustentabilidade no setor vitivinícola” foi o tema do mais recente evento promovido pela GS1 Portugal, que contou com os principais agentes do setor – associações sectoriais, produtores de marcas da indústria nacional do vinho e distribuidores – para perspetivar o setor vitivinícola no que se refere às dimensões ambiental, social e de governança diretamente envolvidas na respetiva sustentabilidade.

Os principais desafios à sustentabilidade no setor vitivinícola

Em jeito de enquadramento sobre o tema, o evento da GS1 contou com a presença de alguns principais representantes da indústria nacional. Rosa Amador, Diretora-Geral do Cluster da Vinha e do CoLAB Vines & Wines, entidade colaborativa que certifica os vinhos das diferentes regiões, adiantou que Portugal ocupa, atualmente, um lugar de relevo no panorama internacional dos vinhos: está em 9º lugar no ranking mundial em termos de vinha, é o 10º país que mais vinho produz e o 11º em termos de consumo per capita. A nível económico, posiciona-se no 8º lugar, tanto em exportações, como no valor exportado, que, em 2021, ascendeu aos 924 milhões de euros.

Quanto aos desafios para tornar o setor mais sustentável, Rosa Amador apontou “as alterações climáticas, a pressão do ambiente, o álcool e a saúde, a retirada ou a diminuição de fitofármacos, a falta de mão de obra e competitividade e sustentabilidade da revolução tecnológica e digital”. No entanto, a representante lembrou também que “quando falamos em sustentabilidade, devemos falar nas suas três componentes”, dado que “muitas vezes encaramos o tema apenas como questão ambiental, mas a sustentabilidade tem que abarcar os outros dois pontos: a parte económica, em que os custos não podem aumentar pela alegada sustentabilidade ambiental, e a sustentabilidade social”.

As necessidades para alcançar este objetivo foram elencadas de forma perentória: “Robotização dos processos vitivinícolas, fixação da população e o combate à escassez de mão de obra, tal como o aumento de rentabilidade das explorações e gestão eficiente dos recursos hídricos”.

A sessão de enquadramento foi complementada por José Carvalho, em representação da AMPV – Associação dos Municípios Produtores do Vinho, que alertou para os principais entraves à sustentabilidade do setor, nomeadamente a vulnerabilidade das economias rurais, o afastamento face às principais entidades de gestão e suporte do setor, a inexistência de centros de inovação, de apoio ou dinamização do desenvolvimento integrado da fileira e, por fim, a persistência e rutura do mundo rural com o modo de vida da sociedade que o pode valorizar.

Olhando para o panorama atual, José Carvalho considerou que “o problema que se coloca é que não existe um casamento entre o mundo rural e a capacidade de o valorizar porque há uma clara falta de serviços de apoio e de qualidade nestes mundos rurais”, dando como exemplo o setor das comunicações acrescentou que “isto exige medidas ajustadas à diversidade dos espaços vitivinícolas, adequadas à integração da economia rural em articulação dos setores e, por fim, integradoras das potencialidades endógenas e das novas tecnologias, dos atores e soluções institucionais existentes”, acrescentou.

Alguns bons exemplos no setor

Feita a radiografia à atual situação do setor vitivinícola e dos desafios que este enfrenta para se tornar mais verde, o evento da GS1 Portugal contou com a presença de João Barroso, coordenador do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), o plano que ajuda produtores vitivinícolas a adotar práticas mais sustentáveis, desde a produção da uva até à expedição do vinho já engarrafado.

Através da aplicação transversal de práticas como a aplicação de enrelvamento; a redução substancial da utilização de pesticidas; a realização de auditorias energéticas; colocação de medidores de caudal ou contratação de operadores licenciados para gestão dos resíduos de adega, João Barroso revelou alguns dos principais sucessos do PSVA: 62% dos seus membros já monitorizam consumos, 43% têm planos de gestão em curso; 33% convertem resíduos orgânicos em fertilizantes e 1 em cada 3 membros do PSVA criaram nas respetivas empresas grupos focados na implementação de mais práticas sustentáveis. Em média, os parceiros do PSVA reduziram ainda em 20% os consumos de água e cortaram o consumo de energia na ordem dos 30%.

Circularidade no setor: o que falta para fechar o ciclo?

Após as sessões de enquadramento, o tema da sustentabilidade vitivinícola foi aprofundado em duas sessões de debate. A primeira analisou o ciclo de vida de cada garrafa de vinho e dos seus componentes através das intervenções de João Rui Ferreira, Secretário-Geral da APCOR – Associação Portuguesa de Cortiça; Alberto Bulhosa, Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas e Transformadoras do Papel (APIGRAF) e João Letras, Diretor de Gestão de Resíduos da Sociedade Ponto Verde (SPV).

O Secretário-Geral da APCOR lançou o mote do debate sobre a circularidade do vinho e respetivos processos de produção, referindo que 7 em cada 10 consumidores preferem uma rolha de cortiça às suas alternativas, como o metal ou o plástico. É por isso que o tratamento da cortiça assume grande importância, já que a fileira vitivinícola é, na sua maioria, circular. “O grande desafio é a capacidade de recolha e de fazer chegar as rolhas aos locais onde podem ser recicladas, sem que fiquem perdidas no ambiente. Para podermos fechar este ciclo e manter esta lógica desde a árvore até ao cliente, onde há zero desperdício da fileira, em que, no limite, o desperdício é utilizado para a produção de energia”, explicou João Rui Ferreira.

Já Alberto Bulhosa sublinhou “a falta de matérias-primas, o aumento dos respetivos preços e uma eventual especulação no setor”. Perante estes fatores, o executivo da APIGRAF lembrou que estamos perante uma oportunidade “de estabilizar o setor”, dado que “as atuais práticas e preços estão a tornar-se insustentáveis, sobretudo tendo em conta o aumento de preços da energia aplicados sobre o setor gráfico”. Perante tantos desafios que o setor enfrenta nas diferentes dimensões, Alberto Bulhosa considera que “a cooperação, formação e a informação serão elementos-chave para a evolução da indústria”.

“É preciso garantir, cada vez mais, uma maior eficiência dos processos de reciclagem”, acrescentou João Letras. O Diretor de Gestão de Resíduos da Sociedade Ponto Verde reconheceu que a sociedade moderna está mais consciente quanto aos imperativos da sustentabilidade e sublinhou que a prática da reciclagem já deixou de ser uma exceção à regra. Contudo, o representante da SPV apontou a necessidade de “facilitar processos e encontrar novas soluções de reciclagem, como o up-cycling, de modo a garantir que as matérias recicláveis sejam reintegradas nos processos de produção, acrescentando valor aos novos produtos que ajudam a criar.

Como respondem as empresas à pressão ambiental?

O segundo painel de debate procurou detalhar o tema da sustentabilidade no setor vitivinícola ao nível particular, ouvindo para isso alguns dos principais representantes da indústria no mercado: Dália Moreira, Diretora de Supply Chain da Sogrape; Miriam Mascarenhas, Quality Manager da Herdade dos Grous e Sandra Mourão, Coordenadora de Qualidade Logística na Transbase S.A., do Grupo Os Mosqueteiros.

No caso da Sogrape, Dália Moreira adiantou que já há alguns anos que a empresa criou “um departamento específico para acompanhar os temas da sustentabilidade” e adotar ações de resposta internas, estando inclusivamente em curso o desenvolvimento de um “programa global para o grupo, envolvendo 11 unidades de negócio, produtoras e distribuidoras, para que estas possam competir internamente, dentro da organização, para que tenhamos mais escala e para que este tema ganhe mais relevância para toda a empresa”.

Atualmente com 80 anos, a Sogrape pretende que, até aos 100 anos, consiga completar o plano em curso, dividido em 3 fases, tendo a primeira ficado concluída já em 2017. “A base da nossa atividade é a terra, mas estamos a trabalhar ao longo de toda a cadeia”, garantiu a Diretora de Supply Chain da Sogrape.

O compromisso para com o ambiente replica-se na Herdade dos Grous, que em 2020 foi “o primeiro produtor a obter a certificação de produção sustentável pelo PSVA”, como referiu Miriam Mascarenhas. A Diretora de Supply Chain assegurou que “o caminho tem sido e continuará a ser este, em termos da aposta na gestão da biodiversidade, mitigação do impacto climático, gestão de água e energia e, por fim, no envolvimento dos nossos stakeholders nesta atividade envolvente”.

Por fim, o Grupo Os Mosqueteiros referiu que já faz a reciclagem e gestão de resíduos há vários anos, incluindo os resíduos gerados pelos fornecedores do grupo. “Nós reutilizamos parte do cartão, dos resíduos e das próprias paletes dos nossos fornecedores”, detalhou Sandra Mourão. A  Coordenadora de Qualidade Logística elencou, ainda, outras medidas adotadas pelo grupo, com vista a uma atividade de menor impacto ambiental: “ao nível do transporte, temos otimizado os nossos sistemas de gestão de rotas, para diminuir a quantidade de quilómetros que fazemos; temos também parcerias com fornecedores para fazer recolhas de produtos nas suas instalações, permitindo aproveitar as nossas rotas de entregas para, no regresso, fazermos também recolhas; e temos apostado numa maior eficiência energética, através de alterações na iluminação, de estudos de eficiência energética e painéis solares que colocamos nas nossas bases logísticas”.

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