A Conferência XXI, integrada na Mostra Silves Capital da Laranja, reuniu especialistas para discutir os desafios da escassez de água no Algarve, com ênfase na preservação da citricultura. Com o tema “Água que Une”, o evento sublinhou a necessidade de colaboração entre os diversos setores para construir um futuro mais sustentável para a região.

Na sessão de abertura da Conferência XXI, a presidente da Câmara Municipal de Silves, Rosa Palma destacou a importância de um trabalho conjunto para garantir a continuidade da produção citrícola e o equilíbrio entre os diferentes setores. “Esta Capital da Laranja só ganha sentido se, em conjunto, trabalharmos para que ela continue a ser uma produção, continue a ser uma evidência”, afirma Rosa Palma, ressaltando a necessidade de se encontrar soluções equilibradas que atendam tanto à agricultura como ao turismo, sem prejudicar o uso sustentável da água. A questão da escassez de água, conforme apontado pela autarca, não é uma novidade, mas uma realidade com a qual é preciso lidar de maneira estratégica e colaborativa.

André Gomes, presidente Região de Turismo do Algarve, na sua intervenção sublinhou que “a agricultura tem aqui um papel essencial”, lembrando que o Algarve, embora seja amplamente conhecido pelo turismo, conta com outros setores, como a agricultura, que são fundamentais para a dinamização do território. A citricultura, em especial, não só reflete a identidade da região, mas também tem uma forte contribuição para a economia local.
Um dos principais temas da Conferência foi a questão da água, um desafio constante para a região, nesse sentido André Gomes lembrou aos presentes que, apesar da recente chuva, a escassez de água continua a ser uma realidade preocupante. “Não temos nem nunca vamos ter o problema resolvido”, afirma, destacando a necessidade de um compromisso contínuo e empenhado de todos os setores para mitigar este problema. Em relação ao setor do turismo, André Gomes mencionou com orgulho os esforços feitos para reduzir o consumo de água.
“O setor turístico tem plena consciência daquilo que é a sua responsabilidade na gestão sustentável da água”, afirmou, detalhando os resultados alcançados em 2023, com uma redução de 16% no consumo global de água nos empreendimentos turísticos da região.
Outro ponto que André Gomes destacou foi a importância das medidas estruturantes adotadas, como o selo de eficiência hídrica “Save Water”, que visa incentivar as unidades turísticas a adotar práticas sustentáveis. O presidente da Região de Turismo do Algarve
também apontou a relevância das inovações tecnológicas, com o uso de sistemas inteligentes de rega, reutilização de águas residuais tratadas e a implementação de equipamentos hídricos mais eficientes. Essas inovações, que têm sido aplicadas tanto na agricultura como no turismo, ajudam a reduzir o consumo de água e a melhorar a gestão deste recurso vital. Por fim, André Gomes reafirmou a importância da colaboração entre os diversos setores para enfrentar os desafios hídricos: “A união entre todos os setores, é essencial para a construção de um Algarve mais resiliente, mais sustentável e mais preparado para os desafios do futuro”.

Por seu vez, Pedro Coelho, diretor regional da Agência Portuguesa do Ambiente – (APA) enfatizou a importância deste encontro como um espaço de diálogo e reflexão, onde a administração pública pode prestar contas e recolher contribuições para melhorar a gestão da água. “É assim que entendo sempre as minhas participações nesta Conferência e é assim que estou cá mais um ano”, afirmou o representante da APA, reforçando a importância da continuidade dessas discussões para construir uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos.
A questão da água, um tema recorrente, foi abordada por Pedro Coelho com a consciência de que o Algarve vive uma nova realidade hídrica. “Estamos numa nova realidade, e nessa nova realidade temos que nos unir exatamente na gestão deste recurso”, afirmou, destacando que a região, embora tenha registado alguma precipitação recentemente, ainda enfrenta desafios significativos devido à assimetria na distribuição da água. O Sotavento, por exemplo, tem sete vezes mais água que o Barlavento, o que exige uma gestão diferenciada e adaptada a essas particularidades regionais.
O representante da APA também salientou que os investimentos estruturantes são essenciais para garantir uma gestão hídrica sustentável na região e que os investimentos de contingência devem ser encarados como um acelerador de investimentos estruturais, com o objetivo de adaptar a região a uma nova normalidade hídrica.
Pedro Coelho sugeriu que a adaptação a esta nova realidade deve envolver práticas mais eficientes, incluindo a reutilização de águas residuais. “A mudança de comportamentos é fundamental”, enfatizou, destacando a necessidade de promover uma utilização mais racional e diferenciada da água, como o reaproveitamento da água da chuva para a rega de jardins, por exemplo. Para o representante da APA, a sensibilização ambiental é um pilar essencial na gestão da água, tanto a nível individual como empresarial, com o objetivo de reduzir o consumo e adotar práticas mais sustentáveis.
Para finalizar, Pedro Coelho reforçou que as ações de sensibilização com as comunidades locais, as escolas e os municípios continuam a ser fundamentais. “No boca a boca, nas nossas atividades diárias, nas nossas relações familiares, podemos mudar alguns comportamentos”, apela.

Em representação do presidente da Comissão de Coordenação da Região do Algarve (CCDR Algarve) esteve Celestino Soares, Chefe de Divisão de Apoio à Produção Agrícola, Inovação e Formação da CCDR Algarve. Celestino Almeida mencionou a colaboração estreita da CCDR nestas iniciativas relacionadas com a cultura dos citrinos. Nesse sentido, Celestino Soares sublinhou a importância das apresentações na sessão focadas nas pragas e doenças emergentes na cultura dos citrinos apresentada pela técnica Sandra Germano (da CCDR Algarve) e sobre a Plataforma de Avisos de Rega Citrinos pelo técnico José Carlos Tomás (da CCDR Algarve).

A seca que afeta a região do Algarve é uma realidade com a qual a agricultura tem que conviver, mas também tem sido um motor de inovação e adaptação. No painel “Água que Une”, moderado por Paulo Gomes, diretor da Voz do Campo, o debate concentrou-se como os agricultores, os responsáveis políticos e a academia estão a lidar com a escassez de água e quais as soluções que estão a ser implementadas para garantir o futuro da agricultura na região.

Logo no início do painel, o moderador, Paulo Gomes, perguntou a Martinho Santos, administrador das Frutas Martinho, sobre a forma como a sua empresa tem lidado com a crise de água no Algarve, considerando as dificuldades de gestão do recurso. Martinho Santos foi direto: “A água que temos não é suficiente para o que precisamos, e a realidade é que temos vindo a arranjar soluções para resolver este problema que é a falta de água”.

O administrador das Frutas Martinho explicou que a sua empresa tem feito uso de tecnologias avançadas para otimizar o consumo de água.
“Adotámos sistemas de rega inteligente, que ajustam a quantidade de água necessária com base nas condições climáticas e na humidade do solo. Não podemos esperar pelo São Pedro para resolver o problema”, diz. Assim, há dois anos, a Frutas Martinho iniciou um projeto para otimizar a rega nos seus pomares, com resultados significativos. “No ano passado, apresentámos aqui uma solução inovadora que conseguiu reduzir em 60% o consumo de água previsto inicialmente. Essa redução traduziu-se em cerca de 316 mil litros de água poupados por hora sempre que a rega era realizada. Isso foi possível através de uma série de medidas, como o uso de sondas sólidas e a implementação de software especializado para a gestão da rega”, disse aos presentes um parceiro que está a trabalhar com a Frutas Martinho e que se juntou ao painel.

Este ano, a empresa foi mais além, procurando parcerias tecnológicas para criar uma solução ainda mais eficiente.
Assim, a empresa tomou a iniciativa de contactar a W4M, uma empresa de tecnologia sediada em Faro, com o desafio de desenvolver uma solução inovadora para a gestão da rega inteligente. A W4M, com sua expertise em Internet das Coisas (IoT), trouxe para a Frutas Martinho a plataforma Smartive, que integra diversos sistemas para otimizar a gestão da rega.
Como explicou o parceiro das Frutas Martinho, “a solução de rega inteligente não só automatiza o processo, mas também permite ao engenheiro Martinho, por exemplo, controlar as regas de todas as suas explorações diretamente do seu escritório em São Bartolomeu de Messines.
A plataforma envia informações constantes sobre as condições das plantações, e o engenheiro pode intervir, se necessário, ou confiar na autonomia do sistema, que gerencia a rega de acordo com as necessidades específicas da plantação”.
O sistema de gestão de rega da W4M utiliza tecnologia de ponta, como a comunicação através de plataformas LoRaWAN e Wi-Fi, permitindo que a informação seja transmitida em tempo real. “O grande objetivo é reduzir ao máximo a utilização de água, sem afetar a produção. Queremos garantir que continuemos a produzir de maneira eficiente, uma utilização ambiental em tempo real, aumentar a sustentabilidade, a redução da pegada ambiental e uma gestão inteligente de todos os recursos que temos”, termina.

Esteve também presente Joaquim Manuel Lopes, membro da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), que diz “a seca na região do Algarve é estrutural, não há dúvida sobre isto, e portanto todas as medidas que se tomarem têm que ser estruturais também para poder responder e parece ser esse o caminho que se está a seguir”.
Joaquim Lopes explicou que, para a CNA, a prioridade deve ser garantir o abastecimento público de água, pois “as pessoas sem água não vivem”. No entanto, ele também enfatizou a necessidade de garantir água para a agricultura. “Sem comida, nós também não vamos lá”, afirmou, sublinhando que a produção agrícola é vital para a sobrevivência da população. Um exemplo claro disso é a produção de laranjas no Algarve. O dirigente advertiu que, sem o fornecimento de água adequado para a irrigação, a região perderá sua identidade agrícola. “Sem água, Silves deixa de ser a capital da laranja (…) aliás, o Algarve todo deixará de ser, se não houver água disponível para que os agricultores possam regar”.
Para Joaquim Lopes, é fundamental que se encontrem soluções que permitam aos agricultores utilizar a água, bem como a preservação das culturas tradicionais é essencial e deve ser protegida com “medidas objetivas”. O dirigente destacou ainda a preocupação com o envelhecimento do setor agrícola e a necessidade de renovar as gerações que estão na terra. “A tecnologia só tem pernas para andar se conseguirmos renovar as gerações ligadas à terra”, disse, argumentando ao mesmo tempo que é necessário criar condições que permitam que os jovens se fixem no campo e contribuam com inovações no setor.
Por fim, o dirigente da CNA deixou no ar uma questão fundamental: “Porque é que não olhamos para o que os nossos antepassados fizeram? Tinham açudes e charcas (…) não somos capazes de encontrar alternativas que fixem a pouca água que cai”.

O painel também contou com a participação de Luísa Conduto, vice-presidente da Câmara Municipal de Silves, que começou por refletir sobre a evolução do trabalho feito ao longo do último ano no concelho. Destacou a importância da água para o concelho, especialmente para a agricultura, um setor vital em Silves, reconhecida como a “Capital da Laranja”. A autarca sublinhou que, apesar das diferenças que possam surgir em diversas questões, a água é um fator que deve unir todos, especialmente num contexto de crise hídrica e seca. Luísa Conduto fez questão de lembrar que, enquanto Executivo Municipal, a Câmara de Silves tem sido diligente em realizar investimentos em infraestruturas de água.
A autarca reconheceu que, ao longo dos anos, o sistema de abastecimento urbano sofreu com grandes perdas de água, estimadas em cerca de 60% nas condutas. Contudo, enfatizou os avanços significativos feitos nos últimos tempos, com a redução dessas perdas para cerca de 30%, o que representa uma melhoria substancial em relação ao passado.
Este progresso foi possível graças ao esforço contínuo da Câmara Municipal no âmbito do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), que tem permitido financiar obras essenciais para o sistema de abastecimento.
Luísa Conduto também elogiou a colaboração com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), um parceiro essencial para o município e dos outros municípios do Algarve. A Câmara Municipal de Silves tem trabalhado em conjunto com a APA para garantir que os projetos de abastecimento e de gestão de água estejam alinhados com as necessidades do território.

Amílcar Duarte, professor da Universidade do Algarve, abordou o papel crucial da ciência e da inovação.
“O trabalho científico tem sido essencial na procura por soluções sustentáveis para a agricultura. Projetos como o “Agro Mais Eficiente”, que foca na utilização mais eficiente da água, são bons exemplos de como a ciência pode ajudar a mitigar os impactos da escassez de água”, explica. A Universidade do Algarve tem desenvolvido vários estudos focados em tecnologias de retenção de água no solo, como a utilização de vegetação nas entrelinhas dos pomares para reduzir a evaporação e melhorar a retenção hídrica.
Além disso, o professor Amílcar falou sobre os projetos de investigação que estão a ser realizados em parceria com os produtores locais para encontrar soluções práticas que ajudem a reduzir o desperdício de água e aumentar a produtividade das culturas com menor consumo de água. “Através da investigação e da inovação, podemos encontrar alternativas viáveis para que a agricultura continue a ser uma atividade sustentável no Algarve”, conclui.
Reveja aqui a transmissão em direto:
Conferência XXI sob o tema “A Água que Une” – Transmissão em Direto Voz do Campo





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