Joaquim Mourinho, produtor de citrinos em Silves, não esconde o orgulho. Para ele, a feira dedicada à citricultura que aconteceu recentemente naquela cidade algarvia, não é apenas um evento local: é a montra perfeita para afirmar a qualidade das famosas laranjas de Silves e reforçar a ligação vital entre agricultura e turismo no Algarve.

“É importante mostrarmos que temos as laranjas de Silves a vigorar”, afirma Mourinho, destacando a curiosidade e entusiasmo dos visitantes, muitos deles turistas, que aproveitam a feira para provar o que considera “as melhores laranjas que podem saborear”. Não é raro que esses mesmos frutos viajem em cruzeiros que partem da região e seguem pelo resto da Europa, levando o sabor algarvio além-fronteiras.

Joaquim Mourinho, produtor de citrinos em Silves

Para o produtor, esta relação simbiótica entre turismo e citricultura é fundamental: “O turismo é uma fonte de receita para o Algarve, e os citrinos são seus componentes.” A fama das laranjas de Silves não se deve apenas ao nome, mas a condições únicas da região. “Temos o microclima ideal: uma serra que protege dos ventos nórdicos, estamos afastados do mar para evitar a salinidade, e isso dá-nos laranjas com calibre e doçura perfeitos”, explica.

Nem tudo são dias de sol

Mas, entre elogios ao clima e à qualidade do fruto, surge a preocupação que assombra a agricultura algarvia: a falta de água. “Esse é o grande problema que temos aqui no Algarve”, lamenta Joaquim Mourinho. Com o crescimento do consumo em setores como agricultura, indústria, comércio e turismo, a escassez de água tornou-se crítica, e a agricultura, setor primário e essencial, sente as maiores restrições.

A solução, para o produtor, passa por investimento em infraestruturas. “Precisamos de armazenar a água da serra, fazer barragens. Há mais de 30 anos que não se faz nenhuma.” Ainda assim, as esperanças continuam depositadas no céu e no São Pedro, num ciclo de incerteza. “Ontem e hoje vivemos numa incógnita.”

“Água Que Une”, mas só daqui a anos

O futuro poderá estar no projeto Água Que Une, pensado para reforçar o abastecimento hídrico ao Algarve com ligações desde o Alqueva. Mourinho acompanha o tema com expectativa, mas sem ilusões: “Tenho esperança, mas é daqui a seis ou sete anos. Até lá, como é que vivemos na agricultura e no turismo?”

A urgência é clara. Para o produtor, a relação entre o setor agrícola e o turismo é interdependente: “Se não tivermos laranjas, o turismo não vem cá. Se não tivermos turismo, não vale a pena produzir laranjas.” É nesse equilíbrio delicado que assenta grande parte da economia da região, e garantir água para manter esta harmonia tornou-se prioridade absoluta.

Por agora, Joaquim Mourinho continua a cuidar dos seus citrinos, confiante no valor do seu produto e na força da comunidade agrícola de Silves, mas consciente de que sem soluções concretas para a água, o futuro pode ser amargo para um fruto tão doce.

 


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