O evento “Conversas com Arroz”, realizado recentemente em Santarém, reuniu toda a fileira do arroz em Portugal, incluindo produtores, indústria, distribuição e especialistas, para discutir os principais desafios do setor. A queda dos preços, a resistência das infestantes e a necessidade de inovação foram temas centrais da “conversa”, que destacou a importância da colaboração entre todos os agentes envolvidos para garantir o futuro da produção de arroz nacional.
Organizado pela Lusosem e AOP – Associação de Orizicultores de Portugal, com o apoio da Corteva, António Sevinate Pinto, administrador da Lusosem, no momento da abertura da “Conversas com Arroz” destacou o momento difícil vivido pelos produtores de arroz em Portugal devido à queda dos preços.
Segundo António Sevinate Pinto, este cenário tem provocado frustração entre os agricultores, criando um clima de desânimo que tem dificultado o investimento e a inovação no setor. “Temos assistido a uma quebra nos preços, o que tem levado a um ambiente de desânimo generalizado entre os produtores”, afirma. Apesar disso, Sevinate Pinto também apontou um lado positivo, referindo a valorização crescente da imagem do arroz nacional. “Fala-se de arroz, saem artigos na imprensa, somos procurados para falar de arroz”, destacou, sublinhando que o arroz português está a ganhar destaque não apenas a nível interno, mas também em mercados internacionais (…). Com este cenário, havia necessidade da realização destas Conversas olhos nos olhos”.
Para o administrador é crucial continuar a trabalhar nesta valorização e apostar na qualidade para criar uma diferenciação no mercado. Além disso, António Sevinate Pinto, reforça que o objetivo destas “Conversas com o Arroz” está na missão da Lusosem desde o princípio da sua atividade: “A valorização da produção agrícola nacional”, que se enquadra perfeitamente dentro do nosso propósito para esta reunião”.
Manuel Melgarejo, Country Leader Iberia Corteva, expressou aos presentes a honra de participar no evento que reflete o compromisso da Corteva com a promoção da ciência, tecnologia e inovação no setor agrícola. Segundo o mesmo, a empresa está ao serviço dos agricultores, cidadãos e de todos os envolvidos, com o objetivo de superar os desafios de uma agricultura eficiente, sustentável e rentável. Aos presentes, Manuel Melgarejo lembrou que a Corteva nasceu há cinco anos a partir da fusão de três empresas com mais de 150 anos de história: Dow, Dupont e Pioneer, e que a empresa é dedicada exclusivamente à agricultura.
“Para a Corteva, o arroz é um dos cultivos primordiais a nível mundial. Em muitas zonas do mundo se cultiva e, para nós, tanto em Espanha como em Portugal, é uma cultura muito importante”, considera.
Manuel Melgarejo destaca ainda o esforço da empresa para enfrentar os desafios relacionados ao cultivo de arroz, particularmente no maneio das plantas daninhas, um dos problemas mais complexos enfrentados pelos agricultores. O compromisso com a inovação é evidente, conforme afirma Manuel Melgarejo: “Investimos em desenvolvimento de produtos, entre quatro e cinco milhões de euros por dia, para criar soluções que estarão no mercado dentro de dez anos”, ressaltando que, “para a Corteva, investir em pesquisa e desenvolvimento é fundamental, especialmente em mercados com uma legislação rigorosa como a da Europa, onde é necessário cumprir critérios restritos em relação aos produtos fitossanitários”.
Além disso, a Corteva aposta na agricultura digital como uma ferramenta para otimizar a tomada de decisões no campo através de uma plataforma gratuita. “O que pretendemos fazer com a agricultura digital? Questiona. (…) Tomar decisões mais acertadas, minimizar o input, maximizar o rendimento dos agricultores”, argumenta.
Manuel Melgarejo finaliza a sua intervenção reafirmando o compromisso da Corteva com Portugal: “Portugal é um mercado muito importante para nós, e vamos continuar a apostar e a investir”, reforçando o compromisso da empresa com o cultura do arroz, evidenciando que a Corteva é líder mundial neste setor e que a parceria com a Lusosem é uma prova do empenho da empresa na inovação e no desenvolvimento do cultivo de arroz.
Álvaro Mendonça, presidente da CAP, começou por abordar a situação crítica do setor do arroz, reconhecendo as dificuldades enfrentadas pelos produtores, que têm trabalhado a produzir em perdas. “Nós tivemos aqui um caso claro dos produtores estarem a produzir em perda”, destaca. Para Álvaro Mendonça, este cenário é insustentável, pois a agricultura, como qualquer setor económico, tem de “ter as contas certas”, ou seja, ser lucrativa. “O arroz não é diferente dos outros”, lembra aos presentes. Álvaro Mendonça também aponta que a situação internacional é a mais difícil que a sua geração conheceu, e frisou a importância da soberania alimentar. “Sem soberania alimentar não há mais nenhuma das outras”, afirma, destacando a pressão imensa que o setor enfrenta. “Nós que trabalhamos a terra, nós que protegemos a biodiversidade, nós que garantimos ao estar na terra que há biodiversidade, nós éramos apresentados como os maus”, lamentou, referindo-se à difícil batalha ideológica que os agricultores enfrentaram nos últimos anos. No entanto, acredita que “isto está a mudar”, especialmente com os sinais da Comissão Europeia no sentido de alterar a direção e apoiar mais a agricultura.
Em relação à União Europeia, o presidente da CAP menciona a importância de colocar os produtores nacionais “em pé de igualdade com os produtores de outros países não europeus”.
No entanto, alerta para a prudência que deve ser adotada nas condições oferecidas a esses produtores. “Nós não vamos voltar a ter autorização para todas as substâncias ativas que foram retiradas do mercado (…) isso não vai acontecer”, argumenta, destacando a necessidade de ser mais exigente com os produtores fora da União Europeia.
Outro ponto importante que o presidente da CAP trouxe aos presentes foi a simplificação da burocracia. “A simplificação é um dos aspetos que é preciso dar aos agricultores europeus”, afirma, mencionando que finalmente, pela primeira vez, em Bruxelas, começam a surgir documentos que falam “seriamente em simplificar”. Álvaro Mendonça também apontou as autorizações que não fazem sentido, como a questão dos drones. “Não há nenhuma razão para os drones não serem utilizados genericamente na agricultura”, afirma, reforçando que, embora o processo comece devagar, agora começam a ser autorizados para certas aplicações específicas.
Já Carlos Amaral, presidente da AOP (Associação dos Orizicultores de Portugal), abordou os principais desafios e propostas para o setor do arroz em Portugal, destacando a união e o trabalho conjunto da AOP, formada por sete elementos na sua direção, para avançar com soluções que favoreçam o cultivo e a produção nacional. Carlos Amaral sublinha a importância de ter uma “visão completa do que é o arroz em Portugal”, com uma grande capacidade de comunicação diária entre as três regiões orizícolas do país, o que permite à AOP falar “à mesma voz” e tomar decisões mais assertivas.
Carlos Amaral lembra dois marcos importantes na atuação da AOP: O primeiro foi quando, em 2018, a nova direção foi convidada a participar na negociação da PAC, algo inédito para o setor do arroz. “Nunca o arroz tinha sido chamado à tal negociação”, afirma. A AOP, então, procurou compreender profundamente a realidade do setor, pedindo uma consultoria para realizar uma “radiografia do que se passava no país”, um documento que, segundo ele, se tornou “histórico” e foi crucial para o sucesso da negociação. O segundo marco importante foi a participação na elaboração da nova estratégia dos cereais, um documento que “faz uma retrospetiva do que aconteceu nos últimos anos” e aponta soluções para o futuro, especialmente em relação aos problemas técnicos enfrentados pelos orizicultores.
À plateia, Carlos Amaral destaca dois grandes desafios que afetam a produção de arroz, particularmente na Europa: O uso de substâncias ativas e a resistência das infestantes.
“O arroz tem dois problemas grandes”, afirma, explicando que, devido à monocultura do arroz, as resistências das infestantes são muito altas. Carlos Amaral propôs uma solução inovadora ao Governo de Planeamento e Política Agrícola – GPP, chamada “recuperação agronómica dos canteiros de arroz”, que surgiu a partir de uma observação feita na região de Santiago Cacém, onde a interrupção temporária do ciclo do arroz permitiu reduzir a resistência das infestantes. “Percebemos que ao parar a cultura do arroz durante 2 ou 3 anos, as poucas matérias ativas que temos hoje em dia tinham muito mais capacidade de controlo das infestantes”, relata.
No que diz respeito aos custos de produção, Carlos Amaral aponta que houve um aumento significativo nos últimos anos. “Chegámos a ter um preço por tonelada de arroz acima dos 540 euros”, diz, referindo-se ao aumento dos custos de produção. Embora o arroz tenha conseguido um aumento de preço em 2022 devido ao trabalho da indústria em colocar o arroz português no mercado internacional, a produção em 2023 enfrentou uma queda no preço de venda. Em 2024, os resultados da produção de arroz em Portugal são “francamente negativos”, com uma perda significativa que totaliza cerca de 30 milhões de euros.
Em relação ao consumo, o presidente da AOP afirma que, em Portugal, o consumo per capita de arroz se mantém estável entre 15 e 16 kg, mas observou uma tendência crescente do arroz basmati em detrimento do arroz carolino. “O arroz basmati tem ganho quota de mercado, enquanto o arroz carolino tem visto um decréscimo”, vinca.
O presidente da AOP reconhece que esse fenómeno não é culpa da produção ou da indústria, mas sim uma falha do setor em não proteger e promover o arroz português.
Assim, Carlos Amaral sublinha que o setor precisa de uma maior “dedicação para proteger o arroz português”. Para o dirigente, a diversidade de variedades de arroz produzidas em Portugal, com 32 variedades diferentes, dificulta a diferenciação do produto no mercado. Carlos Amaral aponta ainda a importância de uma maior redução da regulamentação e o contínuo investimento em “investigação e desenvolvimento”, como o trabalho desenvolvido por organizações como o COTArroz e o INIAV.
Por fim, Carlos Amaral conclui que a produção de arroz em Portugal precisa de uma maior colaboração entre a produção, a indústria e a distribuição. “Estamos disponíveis para produzir o que a indústria e a distribuição necessitam”, afirma, destacando que o setor está pronto para enfrentar os desafios e com confiança no potencial de recuperação. Com campanhas de promoção, um observatório de preços e mais informações sobre a qualidade do arroz nacional, Carlos Amaral acredita que o setor pode reverter as tendências atuais e dar a volta por cima.
A mesa-redonda moderada por José Diogo Albuquerque, CEO do Agroportal, discutiu o contexto atual do arroz, os desafios enfrentados pelos produtores e as perspetivas para o futuro do setor. Com intervenções de José Pinto Costa, em representação da AOP Mondego, Vasco Borba, da AOP Tejo, Mário Coelho, CEO da Novarroz e João Potier, da Mundiarroz, e a conversa abordou questões cruciais como os custos elevados, a falta de rentabilidade e a evolução do mercado, tanto nacional como internacional.
Desafios no Mondego: “A realidade do minifúndio”
José Pinto Costa abriu a discussão focando os desafios específicos da região do Mondego, onde a produção de arroz enfrenta grandes dificuldades. A zona é marcada por uma realidade de minifúndio, com explorações familiares em parcelas reduzidas. “Temos uma população envelhecida, propriedades de pequena dimensão e a dificuldade de atrair jovens para o setor”, afirma. José Costa destacou a importância das obras de emparcelamento realizadas há cerca de 40 anos, mas também reconheceu que ainda cerca de 50% da área não está regularizada, dificultando o desenvolvimento e a sustentabilidade das explorações. Além disso, a falta de estruturação do território e o escasso planeamento têm impactado fortemente a rentabilidade do setor. “Estamos a trabalhar com um produto único, com grande valor para a paisagem e os ecossistemas, mas sem conseguir gerar rendimento”, lamenta José Pinto Costa.
A importância das Organizações de Produtores
Vasco Borba, da AOP Tejo, abordou a relevância das Organizações de Produtores (OPs), destacando o trabalho essencial realizado em conjunto pelos agrupamentos. Segundo Vasco Borba, as OPs têm permitido reduzir custos através da compra conjunta de produtos. “Concentrando no fundo a procura, conseguimos ter aqui uns custos muito mais reduzidos (…).
A indústria hoje em dia já vê os agrupamentos como parceiros”, considera. Contudo, Vasco Borba também sublinhou a dificuldade em negociar preços justos, dada a falta de uma bolsa de arroz como existe em outros países. “O arroz em Portugal não tem uma bolsa de preços bem definida, o que nos coloca numa posição de grande vulnerabilidade”, afirma. O representante da AOP Tejo também falou do impacto das flutuações de preços, dizendo que, apesar de uma análise dos últimos anos mostrar um aumento nos preços de venda ao produtor, até este ano em que desceu muito o preço ao produtor, mantendo-se estável para o consumidor. “O arroz está a ser vendido a um preço muito baixo para o produtor, com uma margem negativa”, explica Vasco Borba, destacando que, este ano, o arroz só representou 25% do preço final para o consumidor, uma queda significativa em relação aos 35% de anos anteriores. Esta margem não se refletiu no preço pago à produção.
Perspetivas de exportação e desafios no mercado internacional
Mário Coelho, CEO da Novarroz, falou primeiro no mercado de exportação, que representa uma parte significativa da produção de arroz. A empresa exporta cerca de 50% da sua produção, com uma maior dependência do mercado externo, particularmente do Oriente Médio. No entanto, Mário Coelho afirma que os preços internacionais estão a ser fortemente impactados pela guerra no Oriente Médio e pela crise de oferta, o que tem pressionado as margens de lucro. “A oferta excessiva e a perda de poder de compra dos países consumidores têm levado à queda dos preços”, explica. Contudo, Mário Coelho expressa otimismo, acreditando que o mercado recuperará nos próximos dois anos, especialmente com a possível estabilização da guerra e a melhoria das condições de produção em países como a Austrália.
No mercado nacional, o CEO da Novarroz destaca as mudanças nos hábitos de consumo, com uma preferência crescente pelos arrozes agulha e basmati, e uma diminuição da popularidade do carolino. Mário Coelho alerta para a necessidade de inovar e produzir variedades de arroz que correspondam à procura do consumidor, e que sejam competitivas tanto no mercado interno como no externo. “O mercado português tem condições para produzir excelentes variedades de arroz, mas precisamos de garantir que as variedades que produzimos atendem às necessidades do mercado”, reflete.
O papel da indústria e a necessidade de transparência
João Potier, da Mundiarroz, começou a sua intervenção destacando a mudança nas relações entre a indústria e a distribuição nos últimos anos, que se tornaram mais leais e colaborativas. João Potier, falou sobre o impacto dos preços promocionais no mercado de arroz e a confusão que isso gera na perceção dos preços reais. “Hoje, o arroz é vendido com uma média de 60% de desconto, o que reduz o preço médio de venda em cerca de 22%”, explica. Isso, segundo o mesmo, contribui para uma desvalorização do arroz e prejudica a imagem do produto.
O representante da Mundiarroz também evidenciou as dificuldades associadas à legislação que rege o arroz comum em Portugal. A introdução da categoria de arroz comum, que exige que arrozes com mais de 20% de trinca sejam vendidos a preços mais baixos, tem afetado negativamente a qualidade e a perceção do arroz produzido no país. “A venda de arroz comum a preços baixos afeta a imagem do arroz português e favorece as importações de variedades de menor qualidade”, explica.
“Embora o setor enfrente dificuldades, a inovação, a colaboração e a procura por variedades de maior valor acrescentado são os caminhos para garantir um futuro mais sustentável para o arroz em Portugal”, conclui o moderador José Diogo Albuquerque, sublinhando a importância de trabalhar em conjunto para fortalecer a fileira e responder às necessidades do mercado.
A Questão da Valorização da Produção Nacional
Luis Mira, secretário-Geral da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal, abriu a discussão antes da mesa-redonda “O Arroz Amanhã” – Áreas estratégicas – Oportunidades – com uma pergunta crucial: “Qual o caminho?” Para o secretário-geral da CAP, a resposta está na sintonia e colaboração entre todos os atores envolvidos no processo produtivo. Luís Mira sublinha que, embora o mercado esteja a mudar e os consumidores a alterar os seus hábitos, a chave para o sucesso está na valorização da produção feita em Portugal, mencionando que, frente à forte concorrência de arroz importado, com preços muito abaixo dos nacionais, é essencial encontrar uma estratégia para valorizar o arroz produzido em Portugal. A palavra “valorizar” deve ser o ponto central dessa estratégia, que deve unir produtores, indústria, investigadores, nutricionistas e consumidores.

Gestão Eficiente da Água: O Caso da Estratégia “Água que Une”
Gonçalo Tristão, diretor do COTR, abordou o tema da gestão da água, um dos recursos mais críticos no cultivo de arroz. Gonçalo Tristão destacou a recente apresentação da “Estratégia Água que Une” pelo Governo, que visa promover uma gestão integrada e inteligente dos recursos hídricos. Segundo o diretor do COTR, a verdadeira questão não é a falta de água, mas a falta de uma gestão eficaz. A “Agua que Une” tem três grandes eixos: eficiência, resiliência e inteligência, com 294 medidas a serem implementadas. Gonçalo Tristão defendeu que a implementação dessa estratégia deve ser uma prioridade para o futuro, independentemente das mudanças no Governo. Essa gestão eficiente da água, aliada a uma visão de sustentabilidade ambiental, será essencial para o futuro do setor agrícola em Portugal.
O comportamento do consumidor e a necessidade de literacia
Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da APED – Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, iniciou a sua intervenção abordando a questão da literacia, da informação e do comportamento do consumidor, salientando que, nos últimos tempos, o comportamento do consumidor tem mudado de forma significativa. “Diria rapidamente, nem sempre para os melhores comportamentos”, afirma, destacando que existe um grande desconhecimento sobre a qualidade do arroz nacional e a produção nacional. Para Gonçalo Lobo Xavier, a responsabilidade de melhorar a comunicação com o consumidor é algo que a APED assume de forma ativa, mencionando o combate ao desperdício alimentar como um exemplo de ação diária.
Para além disso, Gonçalo Lobo Xavier também sublinha a necessidade de induzir comportamentos responsáveis, como a gestão de resíduos, e reforçou a importância de educar o consumidor, especialmente no que diz respeito a comer melhor.
“O consumidor precisa de ser educado”, diz. O diretor-geral da APED esclareceu ainda que estão dispostos a colaborar em campanhas que não se limitem apenas à rotulagem e informação nutricional, mas que envolvam também “campanhas positivas de valorização da produção nacional e da educação do consumidor”. Porém, Gonçalo Lobo Xavier reconhece que o contexto económico é desafiador. “Nós vivemos num país que não é rico, para não dizer que nós vivemos num país pobre”, afirma explicando que, num país com essas características, o comportamento do consumidor tem se tornado cada vez mais errático. Desde a pandemia, “o consumidor é cada vez menos fiel às insígnias” e tende a alterar o seu comportamento, procurando sempre o “melhor negócio”.
O apelo final de Gonçalo Lobo Xavier foi claro: “Há um espaço considerável para educar o consumidor, para aumentar a literacia e fornecer mais informações sobre a origem dos produtos”.
A visão holística como caminho para o sucesso
Pedro Pinho, em representação da Suporte Agrícola, por sua vez, destacou que o primeiro passo para o sucesso da cultura do arroz em Portugal é a comunicação eficaz entre todos os intervenientes do setor. “O produtor tem uma capacidade de resiliência e abertura para qualquer tecnologia que seja, mas precisamos de uma visão holística para o sucesso da cultura”, afirma. Pedro Pinho enfatizou a importância de todos trabalharem juntos para encontrar soluções, citando o exemplo da gota a gota, uma tecnologia que permite uma irrigação mais eficiente e sustentável.
No entanto, ele também reconhece que, embora as novas tecnologias possam trazer benefícios, elas não são uma solução mágica. O verdadeiro diferencial está na “sensibilidade agronómica” dos agricultores, ou seja, na capacidade de adaptar as técnicas e ferramentas às condições ambientais em constante mudança. “Temos que estar todos juntos para encontrar todos os dias o algoritmo ideal para que sejamos sustentáveis e economicamente viáveis”, remata.
Inovação e tecnologia
Jorge Martínez, da Digital and Innovation da Corteva, afirmou que a Corteva não se limita a fornecer apenas produtos de alta qualidade, como a proteção de culturas e sementes, mas também oferece uma gama de serviços que vão além dos produtos, com foco na inovação tecnológica. Jorge Martínez abordou o desafio da “tecnificação”, especialmente para o agricultor mais jovem, e a forma como a Corteva pode ajudar. “É muito importante entender bem a parte edafológica do cultivo, a parte agronómica, e posicioná-lo corretamente”, esclarece, ressaltando que, para garantir a sustentabilidade, o setor precisa ser rentável: “O setor tem que ser rentável primeiro, e depois pensar em sustentabilidade”. Jorge Martínez frisa a importância de ferramentas que ajudam a monitorizar a inundação das parcelas e a aplicação de produtos de forma precisa: “Podemos fazer coisas como monitorizar a inundação das parcelas e entender que zonas estão inundadas, que zonas não, quando é o momento adequado para retirar a água”, exemplifica, argumentando que a Corteva oferece ferramentas digitais gratuitas em Portugal para otimizar a produção, com soluções como a prescrição variável para aplicar o produto no lugar certo. “A Corteva está aqui para ajudar. Todos estamos aqui para que realmente sejamos mais produtivos”, termina.
A parceria e sustentabilidade como chave para o sucesso
Ondina Afonso, presidente do Clube Produtores da Sonae, foca a importância da parceria e da sustentabilidade no setor de arroz. Para Ondina Afonso, a equação para o sucesso do setor passa pela criação de parcerias fortes entre todos os intervenientes: “Parceria mais sustentabilidade”. A presidente do Clube Produtores da Sonae, sublinha que o retalho tem um papel essencial em fortalecer a produção e destacou que o setor precisa de uma organização mais estruturada para alcançar melhores resultados. Para além disso, Ondina Afonso tocou no papel fundamental da comunicação, especialmente no que diz respeito à origem dos produtos e às novas tecnologias que podem apoiar essa transparência.
Um exemplo concreto de colaboração foi o lançamento do “Arroz Caravela”, uma variedade 100% nacional, fruto de uma parceria entre o Continente, Lusosem e Novarroz, que estará nas prateleiras em breve.
Ondina Afonso afirma que esta ação será um motor de sensibilização para o arroz carolino nacional, permitindo que os consumidores reconheçam melhor as qualidades do arroz produzido em Portugal. Também comentou sobre a crescente procura do consumidor por produtos sustentáveis e de origem local, e destacou o papel do arroz como um alimento sem glúten, o que atrai cada vez mais consumidores. Ondina Afonso conclui enfatizando que, “a sustentabilidade não é apenas ambiental, mas também nutricional”, e afirma que, ao apostar na sustentabilidade e na valorização nutricional, é possível tornar o arroz português mais atrativo no mercado.
As “Conversas com Arroz” terminam da melhor forma, com um fantástico almoço degustação do novíssimo Arroz CARAVELA, a primeira varieadade de carolino 100% nacional, preparado pelo chef Miguel Silva e a sua equipa e com o apoio do Clube de Produtores do Continente – MC Sonae.
A iniciativa, segundo Filipa Setas, da Lusosem, “visou colocar o Arroz no centro de um debate aberto e de grande proximidade sobre os desafios atuais da fileira e promover um diálogo construtivo para uma visão/estratégia coletiva, demonstrando a necessidade de unir esforços para a diferenciação como caminho para a valorização da produção nacional”. A grande adesão ao evento foi notável, impactante e de grande importância para o desenvolvimento de um setor orizícola nacional inovador, resiliente e alinhado com os desafios do futuro.
A Lusosem e a AOP agradecem a todos os oradores, moderadores e participantes nas mesas redondas pelo seu envolvimento, bem como a todas as entidades que marcaram presença e, particularmente, às OP’s e produtores das 3 zonas orizícolas pela sua forte e dinâmica representação na jornada. “Expressamos ainda o nosso reconhecimento aos nossos parceiros, IAAS, Voz do Campo, Agroportal e Clube de Produtores do Continente – MC Sonae, pelo compromisso e contributo essenciais ao sucesso do evento”.
O Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, no seu discurso expressou os seus parabéns a todos os intervenientes pelas discussões profundas e produtivas, destacando o objetivo comum de diminuir o déficit agroalimentar de Portugal e garantir melhores rendimentos para os agricultores.
“Estarmos juntos com um objetivo claro e comum, que é fortalecer a nossa produção nacional e valorizar as nossas raízes, é essencial para o futuro da nossa agricultura”, afirma o Ministro de Agricultura.
O Ministro também sublinhou a necessidade de uma maior autonomia estratégica para a União Europeia, especialmente em um contexto de crescente instabilidade geopolítica. “Agricultura é segurança alimentar, mas também é defesa”, destaca, enfatizando a importância de garantir a autossuficiência, principalmente em áreas vitais como a produção de cereais, onde Portugal ainda depende muito da importação. O país só possui 19% do seu aprovisionamento de cereais, uma das taxas mais baixas do mundo, o que torna urgente uma estratégia de fortalecimento da produção interna. “A União Europeia é uma vantagem nesse processo, mas temos de fazer o nosso trabalho para melhorar a nossa posição”, sublinha José Manuel Fernandes.
A Nova Estratégia para os Cereais
O Ministro também elogiou a nova estratégia para os cereais, recentemente anunciada, que inclui medidas concretas para aumentar o rendimento e a resiliência dos produtores. A estratégia é focada na organização do setor e no fortalecimento das cadeias de valor, com um apoio específico para a produção de arroz.
A inovação e a investigação também foram pontos chave abordados pelo Ministro. José Manuel Fernandes reforça o compromisso do governo em garantir a disponibilidade de água para a agricultura, com um investimento de mais de 5 mil milhões de euros para o período de 2025 a 2030, como parte da estratégia “Água que Une”.
Por fim, o Ministro não deixou de parabenizar a parceria entre a Lusosem e o Clube de Produtores do Continente no lançamento da nova variedade de arroz “Caravela”, que representa um passo importante na valorização da produção nacional. “Este tipo de parcerias são essenciais para garantir que todos os elos da cadeia de valor sejam beneficiados e que o equilíbrio seja alcançado”, conclui o Ministro, José Manuel Fernandes.
→ Leia a reportagem completa das “Conversas com Arroz” e outros artigos na Revista Voz do Campo – edição de abril 2025, disponível no formato impresso e digital.
Assista a alguns momentos em vídeo:










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