A palavra “entomofagia”, que significa comer insetos, deriva do grego “éntomon” (inseto) e “fagein” (comer). Nos últimos anos, a procura por fontes alternativas de proteína animal tem ganhado destaque, e a entomofagia surge como uma solução inovadora e sustentável. Estudos indicam que insetos como térmitas e formigas já faziam parte da dieta dos hominídeos (Lesnik, 2019).
O consumo de insetos não é universal. Fatores históricos e climáticos, como a Pequena Idade do Gelo, influenciaram a sua adoção. No Ocidente, crenças judaico-cristãs relacionadas com a noção de alimentos “puros” ou “impuros” reduziram a aceitação da entomofagia, tornando-a mais comum em regiões tropicais e equatoriais (Mann, 2002; Lesnik, 2019).
O Desperdício Alimentar: Um Vilão Global
O desperdício alimentar é um problema global grave. Segundo o Relatório do Índice de Desperdício Alimentar (PNUA, 2021), todos os países, independentemente do seu nível de rendimento, contribuem significativamente para este problema. O desperdício dos consumidores é quase o dobro do que se pensava anteriormente, exigindo uma ação urgente.
Insetos: Uma Solução Sustentável para a Proteína Animal
Para além do desperdício, pragas de insetos são uma das principais causas de perdas desde o campo até ao processamento dos alimentos. A necessidade de proteína animal e o crescimento populacional levaram a FAO a defender o consumo de insetos na alimentação humana e animal como uma fonte de proteína sustentável. Neste contexto, três espécies de insetos foram autorizadas para comercialização no mercado europeu, incluindo Tenebrio molitor.
Ao abrigo de medidas transitórias do Regulamento (UE) n.º 2283/2015, outras espécies, como Alphitobius diaperinus, também podem ser produzidas e utilizadas na alimentação humana em Portugal. Ambas pertencem à família Tenebrionidae, sendo consideradas fontes nutritivas viáveis.
Tribolium castaneum: Um Caso a Considerar

O escaravelho vermelho, Tribolium castaneum (Herbst), é uma praga-chave, conhecido por infestar farinhas e cereais. Da família Tenebrionidae também, mostrou ser uma fonte interessante de proteína e aminoácidos essenciais (Duarte et al., 2021).
Muito resistente a inseticidas, os adultos de T. castaneum produzem compostos químicos, como benzoquinonas, que os protegem de fungos e predadores. Estudos indicam que a presença desses compostos pode retardar o desenvolvimento de fungos, e até letal como se verificou com o género Penicillium (Duarte et al., 2022). IARC (1999) concluiu que não há evidências suficientes de que esses compostos sejam perigosos para os seres humanos. Sendo da mesma família, no entanto, apenas as larvas de T. molitor e A. diaperinus foram classificadas como “Novel Food” pela União Europeia para consumo regulado. Diante dessas informações, devemos reconsiderar a tolerância à presença de T. castaneum nos armazéns? A Diretiva 2009/128/EC da União Europeia incentiva práticas agrícolas mais sustentáveis, reduzindo o uso de pesticidas. Em vez de descartar grãos infestados, poderíamos aproveitá-los para alimentação animal ou fertilizantes?
Premalatha et al. (2011) destacam: “É uma ‘ironia suprema’ gastar bilhões para salvar colheitas com no máximo 14% de proteína vegetal, eliminando insetos que podem conter até 75% de proteína animal de alta qualidade”.
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Referências: Consultar artigo
Autoria: Maria Otília Carvalho¹, Miguel Mourato²
¹Investigadora auxiliar da Universidade de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia, Tapada da Ajuda, 1349-017, Lisboa, Portugal; e membro do centro LEAF-Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, Tapada da Ajuda, 1349-017, Lisboa, Portugal
²Professor Associado da Universidade de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia, Tapada da Ajuda, 1349-017, Lisboa, Portugal; e membro do centro LEAF-Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, Tapada da Ajuda, 1349-017, Lisboa, Portugal
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