A CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal, em parceria com a FENAREG – Federação Nacional de Regantes de Portugal, com o apoio Media Partner da Revista Voz do Campo, promoveu no dia 11 de junho de 2025, às 10h, no decorrer da Feira Nacional de Agricultura (FNA’25), em Santarém, a conferência internacional A Agricultura nos Países do Sul da Europa.

Este encontro de alto nível reuniu líderes agrícolas do sul da Europa para debater o futuro da Política Agrícola Comum (PAC) e os principais desafios que se colocam ao setor.

A Conferência foi organizada em três partes:

I – A ‘caixa de ferramentas’ dos agricultores é suficiente para enfrentar as alterações climáticas?

II – O que podem os agricultores esperar da nova PAC?

III – A Agricultura e as Florestas nos países do Sul da Europa.

O presidente da CAP, Álvaro Mendonça e Moura, e o presidente da FENAREG, José Núncio, foram os anfitriões da Conferência que contou com a participação de convidados especiais: o eurodeputado Nascimento Cabral; a secretária-geral do COPA-COGECA, Elli Tsifourou; o diretor geral adjunto da DG Agri, Pierre Bascou; os representantes de confederações de agricultores de seis países do sul: Portugal, Espanha, Itália, Croácia, Grécia e França, para além do ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, reconduzido nesta pasta no atual XXV Governo.

A iniciativa contou com o apoio da Aquagri, Corteva, Hidrosoph, Magos, Syngenta, Tecnovia, Valkirias e Voz do Campo.

Foi um momento decisivo de reflexão sobre os desafios e prioridades da PAC pós-2027, com especial destaque para a necessidade de um orçamento robusto, a gestão eficiente dos fundos comunitários e a manutenção dos dois pilares da PAC, elementos considerados fundamentais para o futuro da agricultura europeia.

Para a FENAREG, metas ambiciosas exigem orçamentos ambiciosos

José Núncio, presidente da Federação Nacional de Regantes de Portugal (FENAREG) e dos IRRIGANTS d’Europe, reforçou que regar não é opção, mas sim uma necessidade imposta pelo clima mediterrânico, onde a precipitação ocorre fora da época produtiva, ao contrário do centro e norte da Europa. Em Portugal, 75% da água é usada na agricultura, em contraste com 2% na Alemanha e 15% no Reino Unido. A distribuição desigual da água exige soluções adaptadas à realidade do sul europeu, que será o mais afetado pelas alterações climáticas, com quebras de precipitação em todas as bacias hidrográficas portuguesas e redução das afluências dos grandes rios.

José Núncio, presidente da FENAREG

“O consumo de água caiu, mas o consumo energético aumentou”

Apesar disso, os agricultores evoluíram, segundo o dirigente: em 1999, 78% da rega era por gravidade; em 2023, 80% já usa sistemas eficientes (gotas-a-gota ou por pressão). O consumo de água caiu 42% em 20 anos, mas o consumo energético aumentou para 2.700 kWh/ha. A capacidade de armazenar água é baixa (20% do total), com perdas no sistema entre 10%-40%. Apesar de uma disponibilidade anual de 50 mil hm³, apenas uma fração é armazenada.

“Água que Une” prevê milhões de euros, com foco em eficiência, resiliência e inteligência

A FENAREG defende um investimento urgente na modernização dos regadios e no aumento da capacidade de armazenamento, pois a escassez exige escolhas. A estratégia nacional “A Água que Une” prevê 6,6 mil milhões de euros, com foco em eficiência, resiliência e inteligência, alinhada com a nova estratégia europeia que visa mais 10% de eficiência e 15 mil milhões de financiamento. José Núncio concluiu reforçando que metas ambiciosas exigem orçamentos à altura.


Países do Sul da Europa unidos pela agricultura em Bruxelas

O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Álvaro Mendonça e Moura, defendeu uma ação conjunta dos países do Sul da Europa para reforçar a sua influência nas políticas agrícolas da União Europeia. Durante o seu discurso no decorrer deste evento, integrado na Feira Nacional de Agricultura, destacou a importância de sensibilizar Bruxelas para as especificidades das agriculturas mediterrânicas, marcadas por desafios como a escassez de água.

Álvaro Mendonça e Moura, Presidente da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal

“Coragem política para investir nas infraestruturas de regadio”

A visita do Comissário europeu Christophe Hansen à feira foi apresentada como sinal de mudança e maior abertura da Comissão Europeia. No entanto, o Presidente da CAP, Álvaro Mendonça e Moura alertou que essa mudança ainda enfrenta resistências, pedindo coragem política para investir nas infraestruturas de regadio e garantir ferramentas eficazes contra as alterações climáticas.

“Orçamento robusto, ajustado à inflação e exclusivo para a agricultura”

Defendeu ainda a necessidade de reforçar relações comerciais externas, nomeadamente com o Mercosul, desde que asseguradas condições de concorrência justas. O ponto central, porém, é o próximo orçamento da PAC. O presidente da CAP sublinhou que esta será a principal batalha, exigindo um orçamento robusto, ajustado à inflação e exclusivo para a agricultura. Concluindo que a Política Agrícola Comum é essencial à coesão europeia e que o seu enfraquecimento colocaria em risco o próprio projeto europeu. A união dos países do Sul será determinante nesta luta.


Discurso de Pierre Bascou destaca papel estratégico da agricultura do Sul da Europa

Na sua intervenção, Pierre Bascou, diretor-geral adjunto da Agricultura da Comissão Europeia, sublinhou a importância da agricultura nos países do Sul da Europa, tanto pela qualidade dos produtos como pelos desafios e oportunidades específicas de cada região. Alertou para o contexto atual turbulento — marcado por instabilidade geopolítica, eventos climáticos extremos e doenças, que reforça a necessidade de resiliência no setor alimentar.

Pierre Bascou, diretor-geral adjunto da Agricultura da Comissão Europeia

“Reduzir burocracia e facilitar o acesso a apoios”

Pierre Bascou defendeu uma abordagem estratégica e coerente para responder às transformações digitais e climáticas, salientando a relevância de uma cadeia de valor alimentar justa, competitiva e sustentável. Destacou a PAC atual e os esforços da Comissão para simplificar processos, reduzir burocracia e facilitar o acesso a apoios, especialmente para pequenas e médias explorações.

Promessa de uma PAC mais simples, justa e direcionada

O responsável anunciou medidas futuras para reforçar a segurança alimentar, apoiar a gestão de riscos, incentivar jovens agricultores e permitir maior flexibilidade aos Estados-membros. Defendeu uma evolução da PAC pós 2027, com foco na previsibilidade, eficácia e inovação, alinhando políticas agrícolas com os objetivos ambientais e económicos da UE. A nova proposta será apresentada até julho, prometendo uma PAC mais simples, justa e direcionada.


Agricultura e União Europeia: Ministro alerta para riscos nos PRRs e pede soluções comuns

O ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, alertou que os Planos de Recuperação e Resiliência (PRRs) representam dívida da União Europeia a pagar até 2058, com impacto potencial de 20% nos orçamentos das políticas e programas comunitários. Defendeu novos recursos próprios — como uma taxa digital ou sobre transações financeiras — para evitar cortes.

Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes

“Risco de renacionalização encoberta por ajudas de Estado desiguais”

O governante criticou a possível criação de um fundo único que ocultaria cortes orçamentais e reafirmou a importância da Política Agrícola Comum (PAC), alertando para o risco de renacionalização encoberta por ajudas de Estado desiguais, que favorecem países mais ricos e distorcem a concorrência.

“Apoiar o investimento agrícola e a renovação geracional”

Reforçou a necessidade de investigação comum, produção partilhada de vacinas e seguros agrícolas acessíveis, com garantias europeias associadas ao Banco Europeu de Investimento. Defendeu o uso coordenado de vários fundos, incluindo o Horizonte Europa e o InvestEU, para apoiar o investimento agrícola e a renovação geracional, com especial enfoque na juventude.

José Manuel Fernandes finalizou apelando à união europeia, realçando que só com solidariedade e ação conjunta será possível enfrentar os desafios climáticos, económicos e sociais, preservando valores fundamentais como a democracia, o Estado de Direito e a dignidade humana.


Agricultura do Sul da Europa exige reconhecimento e investimento justo, defende o presidente da Coldiretti

O presidente da Confederazione Nazionale Coltivatori Diretti (Coldiretti), Ettore Prandini, umas das maiores de Itália, destacou em Portugal a urgência de valorizar a agricultura do Sul da Europa, não como oposição ao Norte, mas com consciência das diferenças estruturais e climáticas. Defendeu uma Política Agrícola Comum (PAC) mais equitativa, com recursos adaptados às especificidades regionais e não centralizados, apelando à coragem dos agricultores do sul para se imporem junto das instituições europeias.
Presidente da Coldiretti, Ettore Prandini

Regras de reciprocidade nas importações

Prandini criticou a burocracia europeia que, segundo ele, sobrepõe-se à política e desconhece a realidade agrícola. Reivindicou regras de reciprocidade nas importações, maior controlo alfandegário e investimento em inovação — da inteligência artificial à agricultura de precisão —, fundamentais para enfrentar a crise climática e garantir segurança alimentar. Afirmou que a irrigação e o uso sustentável da água são aliados da natureza, não seus inimigos.

“O sul unido pode liderar um novo modelo agrícola europeu”

Por fim, apelou à transparência sobre a origem dos produtos agrícolas, defendendo a obrigatoriedade da rotulagem clara como instrumento de proteção do consumidor e valorização da produção local. Segundo Prandini, o sul unido pode liderar um novo modelo agrícola europeu, sustentável, competitivo e justo.


Sul da Europa clama por novo rumo na Política Agrícola Comum, diz Massimiliano Giansanti

Massimiliano Giansanti, presidente da Confagricoltura – Confederazione Generale dell’Agricoltura Italiana, uma das principais organizações representativas dos empresários agrícolas na Itália, alertou que o Sul da Europa está a ouvir o “tic-tac” do relógio agrícola europeu. Num discurso firme, defendeu que o modelo agrícola sul-europeu, orientado para a exportação e produtividade, é prejudicado por uma Política Agrícola Comum (PAC) que favorece os interesses do Norte, onde há mais consumo do que produção.

Massimiliano Giansanti, presidente da Confagricoltura

“Uma reforma profunda da PAC”

Giansanti criticou a PAC atual por desvalorizar a competitividade e a rentabilidade dos agricultores, centrando-se em subsídios e não em incentivos à produção. Questionou por que os jovens abandonam o campo e defendeu uma reforma profunda da PAC, voltada para a segurança alimentar, a produtividade e o justo rendimento agrícola.

“A Europa precisa de uma política que respeite quem realmente produz”

Alertou ainda para a concorrência desleal de países como Marrocos e Tunísia e para os efeitos das alterações climáticas, apelando a investimentos em inovação, máquinas eficientes e infraestruturas hídricas. Para o líder agrícola, a Europa precisa de uma política que respeite quem realmente produz e que esteja à altura dos desafios do mercado global e das exigências futuras.


Destacamos outros momentos:

Painel: A caixa de ferramentas dos agricultores é suficiente para enfrentar as alterações climáticas (da esquerda para a direita: Duarte Mira – CAP Bruxelas, Elli Tsifourou – Secretária Geral do Copa – Cogeca, Manuel Melgarejo, Country Leader Iberia Corteva e Felisbela Torres Campos (Syngenta Portugal)

 

Na foto, da esquerda para a direita: Luís Mira (secretário geral da CAP), (em atualização), Vasilis Pyrgiotis (GAIA EPICHEIREIN), Massimiliano Giansanti (presidente da Confagricoltura), Pedro Barato (Presidente da ASAJA), Alessandra Di Santis (CIA Agricultori Italiani), Ettore Prandini (presidente da Coldiretti)

A Revista Voz do Campo em breve publicará mais desenvolvimento na sua próxima edição (julho 2025).

(Re)veja aqui a sessão:

 

Foto-reportagem:

 


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2 thoughts on “Sul da Europa une-se em Santarém para redefinir o futuro da Política Agrícola Comum

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