A flora natural de Portugal destaca-se pela sua rica biodiversidade, especialmente nas plantas aromáticas e medicinais da família Lamiaceae, com destaque para os géneros Thymus spp. (tomilho) e Origanum spp. (orégão).
Estes géneros são representados por diversas espécies autóctones e endémicas em Portugal, sendo o tomilho (13 espécies) e os orégãos (2 espécies) bem conhecidos pelo seu valor gastronómico e medicinal.
O Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) conserva uma coleção significativa de tomilho e orégão, integrando a coleção de Plantas Aromáticas e Medicinais de 165 espécies. As espécies de tomilho, perenes com caule lenhoso e piloso, têm folhas pequenas e elípticas a lanceoladas, com flores brancas, creme, rosa ou roxas. Já os orégãos, de porte ereto e herbáceo, apresentam folhas maiores, pilosas e ovais a elípticas, com flores em cachos de tonalidades brancas, rosa ou roxas.
O clima mediterrâneo de Portugal, com verões quentes e secos e invernos amenos, aliado a solos drenados e ricos em nutrientes, favorece a acumulação de compostos bioativos, com destaque para compostos fenólicos como carvacrol e timol, intensificando o aroma e sabor destas plantas. A produção mantém-se enraizada em práticas agrícolas tradicionais e sustentáveis, como a colheita manual e a secagem natural, preservando a qualidade e os compostos voláteis que tornam estas plantas altamente valorizadas na gastronomia e na indústria.
Figura 1. Representação da biodiversidade dos tomilhos e orégãos conservados no BPGV
Além da sua relevância gastronómica e medicinal, os tomilhos e os orégãos portugueses apresentam uma grande adaptabilidade ecológica, prosperando desde zonas costeiras até regiões áridas do interior.
A influência combinada dos climas mediterrânico e atlântico determina a sua composição química, influenciando a concentração de compostos voláteis (óleos essenciais) e não voláteis, responsáveis pelos seus aromas distintos e propriedades bioativas. Assim, os orégãos portugueses são conhecidos pelo seu sabor mais pungente face a variedades italianas e gregas, por exemplo. Algumas das espécies mais notáveis encontram-se representadas nas figuras 1 e 2.
O QUE FAZ DESTAS PLANTAS ESPECIAIS?
Os orégãos e o tomilho destacam-se não apenas pelo seu aroma intenso e uso culinário, mas também pela sua riqueza em compostos bioativos (Figura 3) com propriedades benéficas para a saúde e a preservação de alimentos.
Os compostos bioativos são compostos químicos não nutritivos produzidos pelo metabolismo secundário das plantas, que contribuem para a qualidade nutricional e organolética das plantas. Estes compostos são essenciais para a defesa contra predadores, radiação e organismos patogénicos. Dividem-se principalmente em ácidos fenólicos e flavonoides, conhecidos por serem potentes antioxidantes e antimicrobianas, com capacidade para neutralizar radicais livres e combater uma ampla gama de microrganismos. A composição desses compostos é influenciada por fatores como a variedade genética, condições edafoclimáticas, estado de maturação e momento da colheita.
O timol e o carvacrol são bem documentados como os principais constituintes bioativos dos orégãos e do tomilho, mas o papel de outros compostos fenólicos tem recebido menos atenção.
O estudo realizado com extratos metanólicos de acessos portugueses destas plantas, conservados pelo BPGV, revelaram que o ácido rosmarínico é o principal composto fenólico presente em ambas. Este composto foi encontrado em maior concentração no tomilho (23,11 a 40,55 mg/g) em comparação com os orégãos (1,67 a 3,44 mg/g). O ácido rosmarínico, um éster do ácido cafeico, apresenta propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antivirais, antibacterianas e antitumorais.
Nos orégãos, destacam-se ainda as flavanonas, como a naringenina, o eriodictiol e a sakuranetina. No tomilho, além do ácido rosmarínico, a quercitrina, a isorhamnetina-3-O-glucósido e a luteolina foram identificadas em concentrações significativas.
A combinação destes compostos confere aos orégãos e ao tomilho um enorme potencial para aplicações na alimentação e na agricultura, tornando-os aliados importantes para a saúde das plantas e dos consumidores (…).
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Autoria: Ana Rita Mateus¹,², Carmo Serrano¹,³, Violeta Lopes4
¹ Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Av. da República, 2780-157 Oeiras, Portugal.
² Universidade de Coimbra, Faculdade de Farmácia, Polo III, Azinhaga de Stª Comba, 3000-548 Coimbra, Portugal.
³ LEAF–Linking Landscape: Environment, Agriculture and Food–Research Center, Instituto Superior de Agronomia, Associated Laboratory TERRA, Universidade de Lisboa, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa, Portugal.
4 Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV), Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV I.P.), Qta S. José, S. Pedro Merelim, 4700-859 Braga, Portugal.
Agradecimentos
Agradecemos ao Dr. Carlos Dias, da empresa FMSI – Flavour Matrices & Sensory Ingredients, Lda, pela disponibilização das fotos da Figura 3.
Referências
Consultar os autores.




