O consumo crescente de abacate tem originado uma produção significativa de resíduos, nomeadamente a casca e o caroço, frequentemente descartados pela indústria agroalimentar.

Esta realidade tem impulsionado o desenvolvimento de abordagens inovadoras que valorizem estes subprodutos. Investigadoras do Grupo de Lipidómica da Universidade de Aveiro têm demonstrado que os subprodutos resultantes do processamento industrial do abacate constituem um reservatório inexplorado de compostos com elevado valor nutricional e potencial bioativo, em especial lípidos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

Recorrendo a uma abordagem lipidómica baseada em espectrometria de massa, esta investigação evidencia a possibilidade de explorar a casca e caroço do abacate como fonte de lípidos que podem ser utilizados como ingredientes funcionais com aplicação em vários setores industriais, promovendo a economia circular.

O abacate tem conquistado um lugar de destaque devido ao seu perfil nutricional e benefícios para a saúde. A sua crescente industrialização, nomeadamente na produção de óleo e guacamole, resultou num aumento significativo da produção de resíduos, incluindo a casca e o caroço, que representam entre 30 a 40% do peso do fruto. Estas partes, tradicionalmente descartadas gerando impactos ambientais consideráveis, estão agora a ser investigadas como fonte de lípidos com valor nutricional e funcional. Esta reconversão contribui para valorização económica da casca e caroço do abacate, promovendo uma gestão mais sustentável ao mitigar os efeitos negativos do seu desperdício.

Através de uma adaptação do método de Folch, foram obtidos os lípidos da casca e do caroço de abacates Hass, adquiridos num mercado local. A caracterização rigorosa, recorrendo a técnicas de cromatografia líquida de alta performance (HPLC) acoplada à espectrometria de massa tandem (MS/ MS) em fase reversa, permitiu identificar detalhadamente os lípidos presentes nos dois subprodutos. As propriedades bioativas destes lípidos foram também avaliadas, nomeadamente a atividade antioxidante — utilizando ensaios com os radicais DPPH e ABTS — e a atividade anti-inflamatória, determinada através da inibição da enzima cicloxigenase-2 (COX-2).

A análise por HPLC-MS/MS da casca e caroço revelou mais de 320 espécies lipídicas, distribuídas por 21 classes, incluindo fosfolipídios, glicolipídios, esfingolípidos, esteróis e triacilgliceróis. As espécies lipídicas identificadas contêm ácidos gordos monoinsaturados (MUFA) e polinsaturados (PUFA), com especial relevância para o ácido oleico (C18:1n-9), o ácido linoleico (C18:2n-6, LA) e o ácido alfa-linolénico (C18:3n-3, ALA), reconhecidos pelas suas propriedades benéficas para a saúde. Além disso, o ALA e o LA são ácidos gordos essenciais que devem ser obtidos através da alimentação.

Verificou-se uma diferenciação entre os perfis lipídicos dos subprodutos. A casca apresentou uma maior abundância de lípidos contendo ALA, enquanto o caroço destacou-se nos lípidos com LA.

Esta “impressão digital lipídica” reforça a singularidade de cada subproduto e a sua potencial aplicação diferenciada. Para além de representar a primeira caracterização detalhada do perfil lipídico da casca do abacate Hass, esta investigação atualiza e aprofunda significativamente o conhecimento sobre o perfil lipídico do caroço, contribuindo para a valorização destes subprodutos como fontes promissoras de lípidos com valor nutricional e bioativo que podem ser utilizados como ingredientes. Importa ainda sublinhar a descoberta de quatro novas classes de lípidos que ainda não tinham sido descritas no abacate, o que reforça o carácter inovador e pioneiro deste trabalho.

A avaliação do potencial funcional evidenciou que os lípidos da casca e o caroço do abacate Hass possuem atividades antioxidante e anti-inflamatória. A casca mostrou ter um maior potencial antioxidante, enquanto os ensaios de inibição da COX-2 revelaram uma forte capacidade anti-inflamatória de ambos os subprodutos, mesmo em concentrações reduzidas. Estes resultados destacam o valor funcional dos lípidos da casca e caroço do abacate, posicionando-os como fontes naturais de lípidos bioativos com potencial para formulações funcionais em diferentes indústrias.

Este estudo reforça a importância de repensar o aproveitamento de resíduos agroindustriais. A casca e o caroço do abacate, frequentemente vistos como lixo, revelam-se verdadeiros reservatórios de compostos com valor acrescentado. O aproveitamento destes subprodutos não só agrega valor à cadeia produtiva do abacate, como também promove uma abordagem mais sustentável e ambientalmente consciente, com benefícios para produtores, indústria e consumidores.

Na prática, os lípidos da casca e do caroço podem ser integrados como aditivos naturais no setor alimentar e da nutracêutica, substituindo conservantes e antioxidantes sintéticos, contribuindo para a melhoria do perfil nutricional dos produtos. Abrem ainda caminho para o desenvolvimento de formulações farmacêuticas com potencial ação anti-inflamatória. No setor cosmético, o seu aproveitamento, por exemplo em cremes, permite explorar as suas propriedades emulsificantes, hidratantes e antioxidantes, com efeitos benéficos na proteção e rejuvenescimento da pele.

Em suma, esta investigação portuguesa evidencia que é possível explorar os resíduos agrícolas como fontes de ingredientes de elevado valor funcional.

A valorização dos lípidos da casca e do caroço do abacate Hass surge como uma alternativa eficaz para mitigar o impacto ambiental associado ao crescente consumo deste fruto abrindo novas perspetivas para a inovação tecnológica, o desenvolvimento económico e a responsabilidade ambiental. Trata-se de um passo significativo rumo a uma abordagem mais integrada e sustentável na gestão dos recursos da indústria agroalimentar.

Autoria: M. Rosário Domingues, Bruna B. Neves e Tânia Melo

Centro de Espectrometria de Massa e CESAM Departamento de Química, Universidade de Aveiro Campus da Universidade de Santiago, 3810-193 Aveiro, Portugal

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo – edição de maio 2025, disponível no formato impresso e digital.

Veja o artigo científico recentemente publicado sobre este tópico de investigação, disponível no link: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S002364382500060X


SUBSCREVA E RECEBA TODOS OS MESES A REVISTA VOZ DO CAMPO

→ SEJA ASSINANTE (clique aqui)

 

EDIÇÕES MAIS RECENTES:


Caso pretenda adquirir ou aceder integralmente a alguma edição em especial, envie-nos o seu pedido por e-mail: assinaturas@vozdocampo.pt

Periodicidade: 11 edições anuais na versão em papel ou digital

→ ASSINE AQUI A REVISTA VOZ DO CAMPO