A Doença Hemorrágica Epizoótica (DHE) é uma doença emergente em Portugal, tendo cá surgido pela primeira vez em julho de 2023, na sequência de outros focos na Europa. Até então, surgiram complexas medidas de controlo devido à ausência de uma vacina eficaz contra o serotipo circulante do vírus da DHE. Já em agosto de 2024, a DGAV concedeu uma autorização de utilização temporária (n.º 2 artigo 110.º – Regulamento (UE) 2019/6) para a única vacina existente contra o serotipo 8 do vírus da DHE em bovinos, surgindo aqui a ferramenta chave para o controlo desta doença.

Doença Hemorrágica Epizoótica

A DHE é uma doença viral infeciosa, não contagiosa e transmitida pelo vetor mosquito (Culicoides spp.) a ruminantes domésticos e selvagens. Os bovinos e os cervídeos são os mais suscetíveis à infeção e à doença, que pode ser clínica (com gravidade variável) ou subclínica. Os ovinos são suscetíveis à infeção mas têm baixa suscetibilidade à doença clínica. Já os caprinos têm uma suscetibilidade muito baixa à infeção e à doença. A DHE não é considerada uma zoonose e, por conseguinte, não representa um risco para a saúde pública.

Para que a infeção ocorra e se propague, é necessário que o agente patogénico (vírus da DHE), o vetor (Culicoides spp.) e o hospedeiro (ruminante) coexistam. Se além disso, houver uma elevada presença do vírus na zona com animais virémicos, mosquitos ativos e bovinos expostos sem imunidade específica contra a DHE, a sua propagação pode ocorrer de forma descontrolada.

DHE, a causa?

O vírus da DHE é um orbivírus, RNA da família Reoviridae. O seu período de incubação é de 2-10 dias e a duração média da viremia é de 30 dias, embora possa prolongar-se vários meses. Replica-se nas células endoteliais causando danos vasculares que se refletem em lesões e sintomas da doença, bem como nas células dendríticas, macrófagos e linfócitos, causando uma imunossupressão acentuada no animal.

Em Portugal, circula o serotipo 8 do vírus, embora existam 7 serotipos identificados (1, 2, 4, 5, 6, 7 e 8). Estes possuem uma patogenicidade variável, não existindo imunidade cruzada entre eles.

DHE, como se transmite?

O vírus multiplica-se mais rapidamente dentro do vetor com temperaturas elevadas entre os 25-30°C. Por outro lado, abaixo dos 12°C não se multiplica, mas sobrevive até que a temperatura suba novamente, e assim, recomeça a sua multiplicação. Isto, juntamente com a capacidade de sobrevivência dos mosquitos a baixas temperaturas e os longos períodos de viremia nos hospedeiros que podem alcançar vários meses, explica as reaparições da doença na Primavera seguinte. Por conseguinte, sabe-se que tanto os mosquitos como os ruminantes (domésticos e selvagens) podem atuar como reservatórios do vírus da DHE durante todo o ano.

O vetor

O género Culicoides compreende um grupo de pequenos mosquitos, com um peso de 0,5 μg e um comprimento que varia entre 1-5 mm. Existem mais de 1.300 espécies de Culicoides distribuídas por todo o planeta e a sua importância reside na capacidade de transmitirem doenças. A nível da Península Ibérica, os mais importantes na transmissão da doença são: Culicoides imicola (climas quentes) e Culicoides obsoletus (climas frios).

Apenas as fêmeas são hematófagas, alimentando-se a cada 3-5 dias em condições ótimas e preferencialmente ao ar livre, embora possam entrar nas explorações à procura de alimento. O seu raio de voo é curto, de até cinco quilómetros, no entanto podem ser transportadas pelo vento centenas de quilómetros. As fêmeas ovipositam em zonas húmidas com matéria orgânica, revelando atividade crepuscular e noturna. No inverno, em regiões mais frias, os adultos abrigam-se dentro das instalações para sobreviverem às baixas temperaturas.

DHE, sintomas e tratamento

A DHE pode apresentar um quadro que varia de subclínico a hiperagudo e fatal. Os sintomas são muito variáveis e causados principalmente por lesões vasculares (hemorragias e tromboses):

Febre, depressão e anorexia;
Cianose da cavidade nasofaríngea e ulceração das mucosas;
Prolapso lingual, hipersalivação e disfagia;
Laminite e claudicação;
Edema palpebral, da face e cabeça;
Corrimento ocular e nasal, dispneia;
Diarreia sanguinolenta ou melena;
Eritema do úbere e agalaxia.

Como se trata de uma infeção viral, a abordagem terapêutica deverá ser sintomática: anti-inflamatórios, fluidoterapia, complexos multivitamínicos e minerais, antibióticos contra infeções bacterianas secundárias.

DHE, o que aconteceu em Portugal?

A primeira deteção do vírus na Europa (Itália – Sardenha) foi comunicada a 10 de novembro de 2022. A origem desta introdução de DHE-8 pensa-se estar relacionada com a Tunísia, onde o mesmo serotipo está detetado, e teoricamente, terá entrado através da deslocação dos vetores transportados em massas de ar provenientes do Norte de África. Desde então, temos assistido a uma propagação em escala, especialmente nos meses mais propícios à atividade do mosquito, com uma progressão orientada de Sul para Norte do país, desde a primeira deteção nos concelhos de Moura e Barrancos em 2023 (…).

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Autoria:

Sérgio Rodriguez Pedrouzo – DVM, responsável técnico de ruminantes VETIA – ANIMAL HEALTH
Juliana Magalhães – DVM, Coordenadora Técnica UNIVETE


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