De 9 a 11 de maio, a vila de Alcains, no concelho de Castelo Branco, voltou a ser o centro das atenções no setor agroalimentar com mais uma edição do Portugal Cheese Festival, onde o queijo é rei. O evento, que nasceu da reconversão da antiga Feira do Queijo, já vai na sua terceira edição.
A escolha da antiga Escola como novo espaço do Festival foi decisiva para o crescimento do evento, oferecendo melhores condições para expositores, debates, showcookings, concursos e conferências. Segundo o presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues, o Portugal Cheese Festival está a cumprir e a ultrapassar os objetivos iniciais.
“O balanço é positivo. Criámos um evento mais alargado, que reflete toda a cadeia do queijo, desde a produção até à mesa”, afirma, argumentando logo de seguida: “Este novo espaço oferece as condições necessárias para fazer crescer o evento e projetar o queijo de Alcains, de Castelo Branco e do país”. O certame contou com 30 expositores de queijo, incluindo representantes de Portugal, Espanha e Brasil, numa edição com forte presença internacional. O objetivo? Criar uma marca sólida, sem esquecer as raízes locais.
“O queijo continuará a ser rei neste evento, mas queremos uma marca que vá além das fronteiras da vila e da região”, assume ainda o edil.
O Festival quer mexer com toda a fileira do queijo: desde a produção do leite, passando pelas raças autóctones, até às oportunidades económicas para os produtores. A Câmara Municipal tem tido um papel ativo na criação de condições para que esse ecossistema funcione.
“O nosso objetivo é criar oportunidades. O mercado só funciona se os agricultores tiverem meios para produzir e vender”, considera Leopoldo Rodrigues.
Um exemplo disso é o Parque de Leilões de Gado, gerido pela Ovibeira, que tem sido um caso de sucesso. A autarquia apoiou esta estrutura com equipamentos e tecnologia para que os leilões online se tornem uma realidade.
Outro foco é a valorização da lã, em colaboração com a Ovibeira, com projetos inovadores como a criação de calçado com lã de Merino da Beira Baixa e aplicações em bordado tradicional com seda natural.
“A lã perdeu valor, mas queremos inverter isso com inovação e novos produtos”, esclarece.
No recinto do Portugal Cheese Festival, o stand da Ovibeira mostrava precisamente essa aposta: Sapatilhas feitas com lã local, bordados e outros produtos que refletem a identidade regional.
Além disso, a Associação de Produtores de Queijo da Beira Baixa, com sede em Castelo Branco, continua a receber apoio da autarquia, não só financeiro, mas também logístico. Contudo, há desafios que continuam a preocupar. “Uma das grandes preocupações é a produção de leite. O leite DOP tem de ser da região, e muitos produtores estão a virar-se para a carne em detrimento do leite. Sem bom leite, não há bom queijo”, partilha.
A região produz três queijos certificados: Castelo Branco, Amarelo da Beira Baixa e Picante da Beira Baixa. Todos são resultado de um trabalho técnico e de qualidade que passa também por instituições como o CATAA e a InovCluster, onde existe um painel de provadores que colabora ativamente na melhoria dos produtos.
“Certificar é reconhecer a qualidade e valorizar no mercado. É por aí que temos de continuar”, sublinha o edil.
Outro projeto em destaque é a Rota do Queijo, que ultrapassa os limites da Beira Baixa e reforça a cooperação entre regiões, com a InovCluster e a Região de Turismo do Centro a liderarem a iniciativa.
“O importante é afirmar a qualidade e autenticidade dos nossos queijos. Todos os queijos portugueses têm valor. Somos um país pequeno, mas diverso”, sustenta Leopoldo Rodrigues. Para o autarca, o futuro passa por mais cooperação regional, mais inovação e um trabalho contínuo na valorização do produto local, sem esquecer a identidade.
“Há muitas oportunidades e este certame é bem exemplificativo disso”, remata.
Além das conferências, o Portugal Cheese Festival incluiu a realização de um concurso de queijo, com destaque para os produtores nacionais e para a diversidade e qualidade dos produtos apresentados. A cerimónia de entrega de prémios foi outro dos momentos altos desta edição.
Testemunho na primeira pessoa
“O Portugal Cheese Festival vem da nossa Feira do Queijo. Durante muitos anos foi assim. Mas há três anos, quando a Câmara Municipal nos lançou o desafio de fazer crescer o evento, de lhe dar uma nova dimensão e até de o internacionalizar, dissemos logo que sim. Quando fizemos a primeira edição do Festival, ainda foi no Solar, e já nessa altura tínhamos a ambição de crescer. Sempre achámos que podíamos ir mais além, porque Alcains sempre teve grandes queijeiros, e não apenas em quantidade, mas em qualidade. Já tivemos tempos áureos e queremos voltar a tê-los. E mais do que isso: percebemos que não se trata apenas de promover o que é nosso — temos de olhar para a região como um todo.
Com o Portugal Cheese Festival, estamos a promover Alcains, sim, mas também todo o concelho de Castelo Branco, e todo o interior do país. Hoje, o Festival já não é só sobre o queijo de Alcains. Este ano, por exemplo, trouxemos queijos de vários pontos de Portugal: Coimbra, Guarda, Portalegre, Castelo Branco. E de Espanha temos produtores das Astúrias, de Bilbao, de Santiago de Compostela (…) e tudo isto enriquece o evento. Acrescenta-lhe valor, conhecimento, troca de experiências. E o melhor de tudo é que quem nos visita não vem apenas provar o queijo. Vem conhecer a nossa cultura e região”.
O contributo da Associação do Cluster Agro-Industrial do Centro – InovCluster
A presença da InovCluster no Portugal Cheese Festival, em Alcains, já se tornou habitual. Pelo terceiro ano consecutivo, a associação marca presença no evento a convite do município, assumindo um papel fundamental na organização da componente científica, nomeadamente na programação das conferências temáticas.
“A InovCluster surge aqui também como organizador da parte das conferências, mais da componente científica. Tivemos aqui responsáveis por identificar as temáticas que consideramos prementes serem discutidas e apresentadas a todos os produtores que estão aqui, que também é um público-alvo das conferências”, afirma Christelle Domingos, diretora executiva da InovCluster.
A programação foi cuidadosamente construída para refletir os principais desafios e oportunidades do setor agroalimentar, com especial foco no queijo. Foram abordadas temáticas atuais como a sustentabilidade, os processos de valorização, a certificação dos produtos — em especial a Denominação de Origem Protegida (DOP) — e ainda a descarbonização da indústria, com vários oradores nacionais e até internacionais. A ligação da InovCluster ao evento faz todo o sentido, tendo em conta a sua missão: reforçar a competitividade das empresas agroindustriais, principalmente na região Centro, mas com atuação já alargada a todo o país.
“A InovCluster é uma associação do cluster do setor agroindustrial da região centro. Na nossa génese está de facto trabalhar toda a fileira na região centro, mas acabamos por ter aqui uma abrangência de norte a sul do país”, afirma.
“O que é que nós trabalhamos? Trabalhamos num conjunto de unidades de cooperação, que vão desde a internacionalização, trabalhar a inovação, a sustentabilidade, a digitalização e também a comunicação das empresas. Trabalhamos e damos suporte em todas estas unidades para alavancar os modelos de negócio e alavancar obviamente a competitividade das empresas da nossa região”, partilha Christelle Domingos.
Dentro da área da internacionalização, a associação oferece às empresas um serviço completo para participação em feiras internacionais. Um bom exemplo disso foi a presença recente no Salão Gourmet, em Madrid.
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A Revista Voz do Campo esteve em direto no local.
Recorde alguns momentos da nossa reportagem:
Portugal Cheese Festival 2025: Alcains celebrou a excelência do queijo e da cultura portuguesa











