A guerra nunca suspende a agricultura, antes lhe impõe um novo protagonismo. Quando canhões troam e sanções se multiplicam, o acesso a alimentos transforma-se num ativo estratégico, capaz de redefinir fronteiras de poder e estabilidade. A escassez alimentar pode derrubar governos, inflamar êxodos e colapsar economias inteiras. Em tempos de conflito, cultivar e exportar tornam-se, simultaneamente, atos de resistência e sobrevivência.

A Guerra das Tarifas comerciais entre por exemplo os EUA e a China, desencadeada pelo governo Trump sob o lema “America First”, é prova disso. O protecionismo americano resultou em retaliações chinesas sobre produtos agrícolas como soja e carne, abalando o setor. As exportações americanas caíram abruptamente, com a soja redirecionada para países como o Brasil, que se tornou protagonista no abastecimento do mercado chinês. A volatilidade nos mercados e a queda global dos preços agrícolas penalizaram agricultores em todo o mundo, revelando como uma decisão política localizada pode ter consequências globais no campo.
Houve, é certo, vencedores pontuais. Brasil e Argentina ganharam espaço como fornecedores alternativos, e a China acelerou a sua autossuficiência agrícola e diversificou os seus parceiros comerciais. Mas o saldo geral foi de incerteza. A previsibilidade foi substituída por acordos bilaterais frágeis, subsídios emergenciais – como o Market Facilitation Program americano – e uma desconfiança crescente nas instituições multilaterais, como a OMC.
Nos últimos anos, guerras armadas agravaram ainda mais esse cenário. Países árabes, grandes compradores de cereais, viram o comércio desacelerar, afetando diretamente os produtores. A instabilidade cambial, a inflação global e os juros altos corroeram o crédito rural e inibiram investimentos em tecnologias e infraestruturas no campo.
Portugal, apesar da distância geográfica dos conflitos, não está imune. O impacto nas cadeias de fornecimento, nos preços dos fertilizantes e no comércio global afeta diretamente a agricultura nacional. A resposta exige visão estratégica: investir em autonomia na produção de fatores de produção / matérias primas, diversificar mercados de exportação, reforçar stocks e procurar alianças comerciais sólidas.
Mais do que nunca, é imperativo pensar globalmente e agir localmente. O agricultor português, resiliente por natureza, enfrenta agora o desafio da inteligência estratégica. A geopolítica chegou ao campo e o setor agro precisa de responder com maior prontidão.
Em tempos de guerra, alimentar é também um ato de paz. O mundo pode até estar em conflito, seja de que tipo for, mas a agricultura sempre se posicionará na linha da frente, como aliás constatámos na recente pandemia do Covid-19. Estamos certos que Portugal, com o seu solo, clima e agricultor inovador, não nos deixará ficar mal perante uma situação eventualmente mais difícil.
PAULO GOMES › DIRETOR VOZ DO CAMPO EDITORA
› EDITORIAL – EDIÇÃO DE JULHO 2025
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BOAS LEITURAS!


