No âmbito da 41ª edição da Ovibeja, decorreu o Colóquio “+ Água, +Futuro”, promovido pela Federação Nacional de Regantes de Portugal (FENAREG), com o patrocínio da Aquagri, Hidrosoph, Tecnovia e Magos Irrigation Systems, e apoio da VALKIRIAS Consultores e da Voz do Campo.
A sessão foi aberta por Roberto Grilo, vice-presidente da CCDR Alentejo, e contou com um painel de prestigiados oradores e moderadores que abordaram a água como recurso essencial e cada vez mais estratégico num mundo em profunda e acelerada mudança. A mesa de debate foi moderada por José Núncio, presidente da FENAREG, e por Gonçalo Morais Tristão, diretor da FENAREG, tendo contado com intervenções do Coronel Carlos Mendes Dias (especialista em Geoestratégia), de José Pimenta Machado (presidente da Agência Portuguesa do Ambiente – APA), e de Álvaro Mendonça e Moura (presidente da Confederação de Agricultores de Portugal – CAP).
A geopolítica e a resiliência hídrica: um novo equilíbrio de prioridades.
Gonçalo Tristão lançou a questão inicial sobre como os atuais conflitos e tensões globais – desde guerra na Ucrânia à instabilidade no Médio Oriente, passando pelas políticas comerciais dos EUA, obrigam a repensar a gestão da água e a resiliência hídrica.
Para o Coronel Carlos Mendes Dias, a resposta a esta pergunta é: “Sim. Mas não era preciso este cenário para percebermos isso. A interdependência global, embora benéfica, exige também alguma autonomia, especialmente em setores essenciais como o da água. Quando falha a água, falha tudo. A sobrevivência não pode ser refém da interdependência”. O Coronel alertou para a fragilidade dos sistemas que dependem de cadeias complexas: “Quando falha a carroçaria, não há carro. Mas quando falha a água, não há vida”.
Energia, água e barragens reversíveis: soluções técnicas e diplomáticas.
José Pimenta Machado, presidente da APA, abordou o tema da energia para sublinhar a urgência de novas soluções para a água: “Se aprendemos com o apagão energético, também temos de aprender com a escassez hídrica. As barragens reversíveis são fundamentais: permitem armazenar energia renovável sem gastar mais água. Precisamos de apostar nisto”. Sobre as relações com Espanha, José Pimenta Machado destacou a importância da diplomacia hídrica: “Temos de aprofundar o diálogo com Espanha, mas fazer o nosso trabalho de casa. Barragens como a do Alvito/Ocreza são fundamentais. Na APA não há tabus, mas há prioridades. Transvases? Só como última opção e com explicações técnicas e sociais muito claras”.
O presidente da APA reforçou igualmente a necessidade de repensar os desperdícios: “No Mira perde-se até 40% da água. Faz sentido levar mais água onde há perdas tão elevadas? Temos de priorizar a eficiência antes de tudo o resto”.
Soberania alimentar e ambição agrícola.
Segundo Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP, o país não pode continuar a adiar decisões estruturais sobre a água e a agricultura. A nova ordem internacional pode ter acelerado o debate, mas a necessidade é anterior. “Ao contrário do que possam pensar, a minha resposta é não. Não é por causa da nova ordem. Nós já o devíamos fazer independentemente das mudanças de política internacional (…). Onde é que eu posso desenvolver a agricultura? Em que regiões é que eu posso desenvolvê-la? E a partir daí pensar: se agronomicamente isso é possível, consigo lá levar água? E consigo lá levar água em quantidade suficiente, que é para poder planear o investimento?”
O transvase de água, para Álvaro Mendonça e Moura, não deve ser um tabu. Deve ser considerado como uma opção técnica, equilibrada e responsável, num contexto de aproveitamento da água que hoje é desperdiçada — como acontece no Douro.
“Uma pequeníssima parte da água que é desperdiçada no Douro podia ser transferida. É disso que estamos a falar”. A bacia do Mira é para o presidente da CAP um exemplo gritante do potencial que temos por explorar, considerando que a falta de água tem um custo direto para todos, também através da perda de receita fiscal.
Consciente de que há muito a fazer, Álvaro Mendonça e Moura rejeita o imobilismo e insiste na importância de começar com prioridades claras, mas sem excluir soluções eficazes como os transvases.
“Temos outras coisas para fazer, comecemos. Mas assumamos que o transvase é uma possibilidade e é potencialmente interessante”.
O apelo final foi direto: “É tempo de agir, com visão estratégica e coragem política (…). O que eu quero é ver o projeto ‘Água que Une’ em marcha, a ser construído”.
“A água é estratégica desde o início”
Num momento provocatório, José Núncio questionou o Coronel Mendes Dias sobre se a água será o novo recurso estratégico, como hoje são os metais raros. A resposta foi clara: “A água é estratégica desde o início. Só que nos habituámos a considerá-la como um bem garantido, como fizemos com a eletricidade. Mas tudo falha sem água – inclusive a própria transição energética, que depende dela. É um bem que suporta a base da pirâmide de Maslow: a sobrevivência”.
Tarifas e incerteza: o impacto direto na agricultura
Na reta final do debate, o presidente da FENAREG questionou Álvaro Mendonça e Moura sobre os efeitos da incerteza tarifária na agricultura.
O presidente da CAP recordou a imprevisibilidade das decisões dos EUA, como as tarifas decididas por ordem executiva: “Atualmente, uma tarifa muda com um tweet. Isso afeta a agricultura europeia, que passou a estar no centro das discussões estratégicas. Os setores de defesa, energia e alimentação vão dominar o debate europeu nos próximos tempos”, defende.
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A Revista Voz do Campo foi Media Partner da sessão.
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