A sessão de encerramento do AVIS’25 – Congresso Internacional de Avicultura, organizado pela APEZ nos dias 8 e 9 de maio, em Coimbra, ficou marcada por uma mesa-redonda dedicada aos grandes temas que moldam o presente e o futuro da avicultura: Nutrição, Mercados e Consumo.
Moderada por Paulo Gomes, diretor da Voz do Campo, contou com a presença de Manuel Chaveiro Soares (Grupo Valouro), Mariana Santos (FEPASA) e Tiago Grosso (Elanco).
Lançando a primeira questão sobre o futuro da nutrição animal, o moderador inquiriu sobre o papel da nutrição de precisão, funcional ou ambiental. Mariana Santos defende que o futuro da nutrição passará por acompanhar a exigência crescente da eficiência produtiva: “A nutrição vai ter que ser muito baseada nas melhores técnicas disponíveis e nos aumentos de eficiência produtiva. Estamos num setor que continua a ter o maior crescimento anual em proteína cárnica — este ano estima-se um crescimento de 2,6%”. Mariana Santos refere ainda o papel das alternativas proteicas e das combinações vitamínicas e aminoácidos, num equilíbrio entre aumento de produção e redução de custos. “Vamos ter que dar resposta ao aumento da procura, mas com menores custos e melhores alternativas proteicas”, defende.
Por sua vez, Tiago Grosso reforça esta visão de progresso técnico, destacando o papel que a nutrição continuará a ter no prolongamento da vida produtiva das galinhas poedeiras: “As curvas de produção cada vez mais se aproximam das 100 semanas, e é necessária uma nutrição especializada para manter a qualidade da casca do ovo”.
Além disso, sublinha a pegada ecológica do ovo face a outras proteínas. “O ovo tem miligramas de CO2 por quilo de proteína ainda abaixo da carne de frango”, caracteriza.
Manuel Chaveiro Soares optou por um olhar histórico, ao recordar que os grandes avanços do século XX — a descoberta e síntese de vitaminas e aminoácidos — foram acompanhados por uma revolução genética: “O maior impulso à eficiência da produção avícola foi a seleção genética. Ainda em 1960, o consumo de carne de frango em Portugal era de 1,4 kg. Hoje está nos 34 kg”. O responsável aponta também que os desafios atuais incluem novas exigências ambientais, sublinhando a responsabilidade da Europa nas imposições regulatórias: “Se a Europa não comprar soja ao Brasil, a China leva. Bruxelas tem muita responsabilidade nas dificuldades impostas”.
Bem-estar animal: Entre perceção e realidade
O debate evoluiu para o bem-estar animal, tema cada vez mais presente na opinião pública e na regulação europeia. Mariana Santos foi clara: “Estamos a falar de standards bastante elevados comparados com outras economias. Mas há um problema de perceção: 98% da comunicação é feita pelas ONGs”. Criticou a desinformação e defendeu uma comunicação mais transparente por parte do setor: “Nunca vi abates com o nível de bem-estar que temos hoje em Portugal. O criador é o primeiro interessado no bem-estar animal”. Tiago Grosso concorda, lembrando que a própria produtividade depende do bem-estar das aves: “O stress impede a produção. As galinhas poedeiras em jaulas surgiram para garantir salubridade e facilitar o maneio. Passar para o solo implica custos, que o consumidor terá de pagar”.
Por consequente, Manuel Chaveiro Soares reforça a crítica à perceção distorcida e acrescenta: “As galinhas têm hoje condições ambientais que poucos portugueses têm em casa: temperatura regulada, teor de CO2 e amoníaco controlados”. Lembra ainda os desafios sanitários e os avanços notáveis nesta área. “Não entra ninguém num aviário sem tomar banho e mudar de roupa (….). E estamos já a mexer no genoma para criar aves resistentes à gripe aviária”, sublinha ainda Manuel Chaveiro Soares.
Mercados e matérias-primas
Quanto à volatilidade dos mercados e da cadeia de fornecimento, Mariana Santos foi direta: “A única forma de resolver a nossa dependência de cereais seria aumentar a produção interna, mas não é suficiente para as nossas necessidades. Por isso, sabendo esta realidade e sabendo que não estamos sozinhos, vamos ter sempre que trabalhar no sentido de ter os melhores acordos comerciais”. A dirigente da FEPASA critica a fraca competitividade europeia face a países como o Brasil, e alerta para os riscos geopolíticos e comerciais: “Se os EUA fizerem pressão para colocar frango lavado em cloro e dissermos que não (…) a soja vai ser chamada, e ficamos novamente numa posição debilitada”.
Tiago Grosso reforça o peso da alimentação no custo de produção. “E aí, como somos deficitários, não vejo como alterar”, considera.
Manuel Chaveiro Soares acrescenta que, mais do que a soja, é o milho que mais pesa na alimentação das aves: “Temos boas condições para produzir milho, mas falta-nos regadio (…). O projeto ‘Água que Une’ pode alterar isto e melhorar a nossa soberania alimentar”.
Consumo e a falta de comunicação
Por fim, falou-se de tendências de consumo. Mariana Santos mostra-se confiante no futuro da carne de aves: “As carnes brancas continuam a ser as preferidas das gerações mais jovens, dos desportistas, dos médicos (…). É uma carne com praticidade, versátil e sem restrições religiosas”, e lembrou, no entanto, a importância da informação clara: “O consumidor quer saber de onde vem a carne. Isso é bom, e temos de o comunicar melhor”.
Tiago Grosso destaca a reabilitação do ovo como alimento saudável: “Durante anos foi conotado com colesterol. Hoje é valorizado, e até a FDA o colocou na tabela dos alimentos saudáveis”. E concluiu com uma reflexão crítica: “Muitas decisões do consumidor não são baseadas na ciência, mas em crenças. O setor primário tem dificuldade em comunicar o que bem faz”.
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(Re)veja alguns momentos na vídeo-reportagem:
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