Durante a visita à Ilha Terceira, João Menezes, técnico superior de turismo do município da Praia da Vitória e colaborador da Casa Vitorino Nemésio, foi um dos guias que acompanhou os visitantes.
Na passagem pela Casa Vitorino Nemésio, espaço dedicado a “uma das maiores figuras da literatura portuguesa no século XX”, João Menezes sublinha que o autor “nasceu aqui em 1901, a 19 de dezembro”. Embora inaugurado oficialmente recentemente, o espaço “já existe desde 2007” e tem como missão “perpetuar e recordar aquilo que é a vida e a obra do autor”. Para o município, esta homenagem é inquestionável: “Não é por acaso que se chama esta cidade a cidade de Vitorino Nemésio”.
Mas o legado da Terceira não se esgota na literatura. A agricultura — e, em particular, a viticultura — tem desempenhado um papel fundamental na construção da identidade e da paisagem da ilha. João Menezes explicou como “os primeiros povoadores, sendo eles católicos”, deram prioridade à plantação de cereais e vinha, essenciais para a alimentação e para os rituais religiosos, como a eucaristia.
Ainda assim, os desafios foram muitos. “As ilhas eram muito densas em termos de floresta endémica açoriana”, e os solos do interior eram “extremamente húmidos e muito difíceis de trabalhar”. Já junto à costa, onde “ocorreram diversas erupções vulcânicas”, surgiram zonas pedregosas — precisamente onde se estabeleceram as vinhas, com castas adaptadas ao clima insular: Verdelho, Arinto e Terrantez da Terceira.
Para proteger estas vinhas da maresia — a força do mar, particularmente intensa na zona norte da ilha — foram criadas as chamadas curraletas: “muros construídos em torno das vinhas”, que não só as protegem, como “mantêm uma temperatura mais ou menos estável”, criando um microclima favorável. “Há uma diferença de temperatura de cerca de 2 graus do exterior para o interior destas curraletas”, acrescenta o técnico.
Apesar do potencial vitivinícola, muitas destas vinhas encontram-se atualmente abandonadas. “É tudo feito à mão (…) tanto a poda, como os tratamentos, e a vindima”, o que “encarece de que maneira a produção do vinho”. O relevo e o espaço reduzido impossibilitam o uso de maquinaria pesada, o que torna todo o processo mais exigente e dispendioso. Ainda assim, há sinais de renovação. “O Governo Regional tem feito uma série de apoios significativos para ajudar na recuperação dessas vinhas”, nomeadamente na “aquisição de estacas de Verdelho, Arinto e Terrantez da Terceira”, com vista ao replantio em áreas tradicionalmente dedicadas à produção de vinho.
Segundo João Menezes, a tendência é positiva: “Nos Biscoitos temos observado um virar de página (…) há cada vez mais pessoas interessadas em recuperar vinhas”.
O aumento do turismo e o interesse crescente em provar o “vinho típico da ilha” têm impulsionado esta recuperação. Afinal, como sublinha, “esses vinhos só se produzem com aquelas castas, naqueles sítios”.
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