Durante dois dias, a Feira Nacional de Olivicultura voltou a reunir o setor em Campo Maior, acolhendo também a 8.ª edição do Congresso Nacional do Azeite. A organização esteve a cargo do CEPAAL – Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo e do Município de Campo Maior, contando com o apoio de várias empresas patrocinadoras.

“Para nós, CEPAAL, é um gosto regressarmos a Campo Maior com a Feira e, desta vez, também com o Congresso”, começou por afirmar Gonçalo Morais Tristão, presidente da direção do CEPAAL, na sessão de abertura da oitava edição do Congresso Nacional do Azeite. “Vamos ter vários painéis ao longo destes dois dias. A olivicultura tem sido um sucesso nos últimos anos, mas não deixa de enfrentar grandes desafios. Este Congresso é para ouvir, refletir e aprender”, afirma.

No arranque dos trabalhos, Gonçalo Morais Tristão fez questão de destacar os temas escolhidos para esta edição. Desde os desafios da produção à sustentabilidade e governança (ESG), passando pela valorização dos produtores e a importância de promover o azeite junto da restauração e do turismo.

Gonçalo Morais Tristão, presidente do CEPAAL, no início dos trabalhos

Segundo o presidente do CEPAAL, “começam a existir regras que temos de respeitar e é preciso perceber essa realidade”, mostrando-se particularmente interessado em ouvir os especialistas jurídicos sobre os impactos de recentes alterações, nomeadamente na administração norte-americana.

A identidade do setor foi outro ponto sublinhado. “Vamos ouvir os nossos produtores, a alma da olivicultura, falar da nossa origem e da promoção dessa identidade. Fazemos azeites de excelentíssima qualidade e é preciso percebermos por onde queremos ir”, defende.

A ligação ao turismo e à gastronomia surge também como um eixo estratégico para o CEPAAL. Gonçalo Morais Tristão sublinha que “é fundamental a ligação às escolas de turismo”, pois estas devem “ensinar o conhecimento do azeite” aos futuros profissionais, lembrando que o setor terá cada vez mais necessidade de dialogar com o turismo. “Temos dedicado muitas iniciativas ao olivoturismo e essa aposta vai continuar”, acrescenta.

Antes de terminar a sua intervenção, Gonçalo Morais Tristão, fez questão de destacar o reinício da atividade da AIFO – Associação Interprofissional da Fileira Olivícola, que considera “muito querida pelo setor”

AIFO retoma atividade com nova direção e papel central na promoção do setor

Antes de terminar, fez questão de destacar o reinício da atividade da AIFO – Associação Interprofissional da Fileira Olivícola, que considera “muito querida pelo setor”. Reconheceu que a associação enfrentou obstáculos nos últimos anos, mas acredita que “essas condições poderão finalmente estar reunidas” para uma nova fase. “Desejo, em nome de todo o setor, muito sucesso à nova direção: Henrique Herculano, Francisco Pavão e Fernando Rosário (…). Precisamos todos de promoção e a AIFO, reunindo o setor privado, terá aqui um papel central”, conclui.

“Que bom é dizer bem-vindos a Campo Maior, passados 16 anos”

O presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, Luís Rosinha, durante a sessão de abertura do Congresso Nacional do Azeite 2025

O presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, Luís Rosinha, começou por saudar o regresso da Feira ao concelho. “Que bom é dizer bem-vindos a Campo Maior, passados 16 anos”, afirma, referindo-se ao período de ausência do certame em Campo Maior. “Hoje marcamos aqui um momento de felicidade por voltar a receber-vos neste concelho, que tem muita história relacionada com a olivicultura”, acrescenta.

Na sua intervenção, destaca a ligação entre o setor e a identidade local. Considera que o azeite “não é apenas um produto agrícola”, mas sim “uma expressão viva da nossa cultura, da nossa economia, da nossa cozinha e da nossa forma de viver e de estar”.

Luís Rosinha sublinha ainda que “a oliveira, o azeite e a azeitona moldam a paisagem e a nossa identidade”. O azeite de Campo Maior, diz o edil, “é fruto de um trabalho árduo de produtores dedicados, técnicos qualificados e de uma comunidade que valoriza o que é claramente seu”.

Para Luís Rosinha, o Congresso é também uma oportunidade de união.

“Reunimos os principais agentes do setor para refletirmos em conjunto sobre os desafios e definirmos estratégias comuns”, refere, agradecendo às entidades envolvidas, parceiros institucionais, oradores e participantes. Deixou ainda um convite a todos para que aproveitem a estadia em Campo Maior, destacando “a hospitalidade, a gastronomia, o património e as nossas paisagens”.

Responsabilidade coletiva e futuro do setor segundo a CCDR Alentejo

Também presente na sessão de abertura esteve Roberto Grilo, vice-presidente da CCDR Alentejo

Com um discurso firme, Roberto Grilo, vice-presidente da CCDR Alentejo, sublinha o papel estratégico da olivicultura e da Feira. Para o responsável, “o azeite não é apenas um produto — é cultura, é paisagem, é ciência e, acima de tudo, é futuro”. O vice-presidente da CCDR Alentejo reconhece que o setor vive hoje “um tempo de grande exigência”, num contexto em que “o consumidor quer mais informação, os mercados pedem mais diferenciação, a sociedade exige sustentabilidade e o território precisa de mais presença e mais valor acrescentado”.

Ao recordar que o Alentejo é hoje “o epicentro da olivicultura nacional”, Roberto Grilo explica que isso se deve “a décadas de investimento, de organização empresarial, de visão estratégica e de trabalho acumulado por milhares de produtores e técnicos que acreditaram, mesmo quando não era fácil acreditar”.

No entanto, alerta, “que os desafios são reais e exigem responsabilidade coletiva: fazer mais com menos, proteger o que é valioso, investir com critério (…). Os custos de produção aumentam, as alterações climáticas são uma ameaça concreta e a escassez da água exige planeamento e eficiência”, afirma. E deixou uma mensagem clara em nome quer do Governo, quer da Vice-Presidência da CCDR na área da agricultura: “O tempo das promessas eternamente adiadas chegou ao fim. Este é o tempo de fazer”. Enumerando prioridades para o setor, Roberto Grilo refere a valorização dos produtos com origem protegida, a integração dos oleaginosos nas estratégias da bioeconomia, o apoio à digitalização agrícola e a aposta na circularidade. “A recente reclassificação do caroço da azeitona como biomassa energética mostra que há um novo ciclo em curso”, realça.


O vice-presidente da CCDR termina com uma nota de compromisso: “Não estamos aqui apenas para marcar presença. Estamos aqui para trabalhar convosco — com os produtores, com os municípios, com as associações, com os centros de saber — para que esta fileira seja cada vez mais integrada, mais competitiva e mais ligada ao seu território”.

A Sessão de Encerramento da 8.ª edição do Congresso Nacional do Azeite, em Campo Maior, ficou marcada por discursos de gratidão, reconhecimento e afirmação do potencial do setor oleícola português.

Luís Rosinha, o edil de Campo Maior, expressou o orgulho do município em acolher novamente um grande evento da agricultura nacional

Luís Rosinha, presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, expressou o orgulho do município em acolher novamente um grande evento da agricultura nacional. O autarca sublinha que este regresso acontece “passados tantos e tantos anos” e simboliza a vontade de valorizar um território com forte identidade oleícola. O presidente da Câmara Municipal realça a importância do envolvimento dos municípios de Moura e Valpaços, bem como a abertura do CEPAAL em aceitar o desafio de realizar o Congresso em Campo Maior. Refere ainda que este tipo de encontros é essencial para pensar o futuro das localidades, unindo tradição e inovação.

“Aquilo que se valorizou mais neste dia e meio foi o azeite português”, afirma, destacando ao mesmo tempo o seu papel enquanto ativo económico, cultural e identitário. Acrescentou também que eventos como este reforçam a posição do Alentejo e do interior do país, ou, como prefere referir, “do centro da Península Ibérica”.

 

Antes de encerrar a sua intervenção, deixa uma mensagem clara: Deseja que as reflexões feitas durante o Congresso não se fiquem pelas palavras, mas que se transformem em ações concretas, investimento no território e promoção do azeite português, dentro e fora de portas. Em nome do município, reafirma o compromisso de “continuar a trabalhar para afirmar Campo Maior e a região como pólos de inovação e valorização da agricultura”.A segunda intervenção foi de Álvaro Mendonça e Moura, presidente da Confederação de Agricultores de Portugal (CAP), que reconhece o Congresso como um momento especial. Destacou o percurso impressionante da olivicultura portuguesa, considerando-o o maior caso de sucesso da agricultura nacional dos últimos 15 anos.

Álvaro Mendonça e Moura, presidente da Confederação de Agricultores de Portugal (CAP), a discursar

“Valeu a pena. O azeite cresceu mais de 500%”, afirma o presidente da CAP. Para Álvaro Mendonça e Moura este crescimento deve-se à modernização na produção e transformação, mas também à existência de água, sem a qual o setor não teria atingido os resultados atuais.

Apesar do otimismo, Álvaro Mendonça e Moura alerta para as incertezas que o setor enfrenta. “Estamos num movimento em que tudo parece etéreo”, diz, referindo-se às possíveis alterações nas tarifas alfandegárias para o azeite exportado, nomeadamente para os Estados Unidos. “A última notícia que ouvi esta manhã é a ameaça de que as tarifas passem de 10% para 50% já no início de junho”, avança.

O presidente da CAP também manifestou preocupação com o novo quadro financeiro plurianual da União Europeia (2028–2033), que será apresentado pela Comissão em julho.

 

“A União Europeia, se quer afirmar-se com autonomia estratégica, não pode abdicar da segurança e defesa, da energia e da soberania alimentar”, defende, advertindo que será fundamental manter as verbas da Política Agrícola Comum (PAC) “separadas das restantes”, para que não sejam absorvidas por outras prioridades orçamentais emergentes.

‘Água que Une’ é projeto-chave para a agricultura

No plano interno, destaca como absolutamente central o projeto ‘Água que Une’, iniciativa proposta pelo Governo. “Este projeto corresponde àquilo que há anos vimos pedindo: uma rede nacional da água. É isto que nos pode garantir sobrevivência, resiliência e crescimento da produção”, sublinha, apontando o Alqueva como exemplo de sucesso. “O Alqueva hoje dá lucro líquido ao Estado de 340 milhões de euros por ano. Agora é preciso levar este modelo mais longe”, argumenta.

Marca Portugal, rotulagem e literacia alimentar.

Álvaro Mendonça e Moura defende igualmente um reforço da valorização do azeite nacional através da aposta na marca Portugal. “Que as pessoas vejam a bandeira de Portugal e identifiquem de imediato o azeite”, afirma, salientando que, além das DOPs e IGs, é crucial comunicar os benefícios para a saúde.

“Temos de ir à procura de tudo o que valoriza o azeite”, justifica. Acrescentou que estão a ser feitas diligências junto da Comissão Europeia para permitir essa comunicação clara nos rótulos, e sublinha a importância da literacia alimentar nas escolas, área onde a CAP tem estado ativamente envolvida.

Num dos momentos mais enfáticos do seu discurso, lançou um apelo direto à coesão do setor em torno da interprofissional do azeite: “Vamos pôr a AIFO a funcionar. É o setor que tem de se entender (…), a CAP está disponível para pôr dinheiro na mesa para que a AIFO funcione como deve ser. Mas é preciso que todos os participantes acompanhem este esforço”.

Ao terminar a sua intervenção, Álvaro Mendonça e Moura deixa a nota de reconhecimento pelo percurso coletivo alcançado. “Temos estes problemas todos. Temos. Mas fizemos um caminho fantástico nos últimos 15 anos e estamos de parabéns”. E dirigiu um último agradecimento à organização: “O CEPAAL também está de parabéns por este Congresso”.

Na primeira pessoa:

Filipa Velez, diretora executiva do CEPAAL

“Conseguimos reunir oradores nacionais e internacionais, com uma audiência de mais de 100 pessoas, num momento em que voltamos a reforçar o Congresso Nacional do Azeite como o maior fórum oleícola português.
Oradores que proporcionaram toda uma transferência de conhecimento que é muito importante neste setor do azeite. E é este momento que nós também queremos proporcionar às pessoas — e também daí o facto de o Congresso ter passado a ser dois dias.
É um momento de absorvermos conhecimento, de transferirmos conhecimento (…) Os dois dias permitem-nos que a nossa plateia possa intervir, possa fazer questões. E é isso mesmo que se pretende: que este seja um momento de transferência de conhecimento”.

Quantos kg de azeitona são necessários para produzir 1L de azeite?

Em média são precisos 5 a 6 Kg de azeitonas para cada litro de azeite.

A quantidade varia consoante:

a Variedade da azeitona: algumas têm mais gordura do que outras.
 o Grau de maturação: azeitonas mais maduras rendem mais azeite.
 o Método de extração: tecnologias mais eficientes conseguem extrair mais azeite por quilo.
 as Condições climáticas: o clima influencia a produtividade e a concentração de gordura.

Ou seja, cada litro de azeite que chega à sua mesa é resultado de muitos fatores e de muitos quilos de azeitona!
In Casa do azeite

A Voz do Campo acompanhou de perto todos os trabalhos. Brevemente divulgaremos alguns artigos, onde damos voz a alguns dos protagonistas que marcaram presença no evento.

→ Leia a reportagem completa do Congresso Nacional do Azeite 2025 na Revista Voz do Campo – edição de julho 2025, disponível no formato impresso e digital.

Veja também alguns momentos na nossa vídeo-reportagem:


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