Em 2025, o CATAA — Centro de Apoio Tecnológico Agroalimentar de Castelo Branco — celebra 15 anos de atividade. Desde 2018 na instituição, Christophe Espírito Santo assumiu há três anos e meio a direção técnica e científica, liderando uma fase de crescente internacionalização e consolidação como uma referência no apoio ao setor agroalimentar.

Mais recentemente, o CATAA tem vindo a expandir a sua ação para além do agroalimentar, afirmando-se também na área da nutrição. Quando se fala hoje em dia de ciência alimentar, é premente integrar temas como alimentação saudável, sustentabilidade e impacto na saúde pública — áreas onde o CATAA tem vindo a desenvolver novos projetos, competências técnicas e colaborações estratégicas. Nesta entrevista, conheça melhor as valências e o trabalho desenvolvido no Centro.

O CATAA afirma-se como um centro de inovação e desenvolvimento nacional transfronteiriço. Quais são, na prática, os pilares que sustentam essa afirmação?

Christophe Espírito Santo, diretor Técnico-Científico do CATAA

O CATAA é um projeto interessante no Interior do país e foi uma excelente aposta do município de Castelo Branco com a colaboração do Instituto Politécnico de Castelo Branco e do InovCluster. Existem outros exemplos semelhantes em Portugal, em que centros tecnológicos no interior atraem quadros especializados, geram emprego e oferecem suporte às empresas agroalimentares.

Nos últimos anos, o CATAA tem vindo a reforçar a sua atuação em projetos nacionais e, cada vez mais, internacionais. O transfronteirismo já não se limita a Espanha, estamos a trabalhar com vários parceiros europeus em áreas como o agroalimentar, a sustentabilidade e a ação climática. Hoje, somos um parceiro reconhecido a nível nacional e europeu.

Só em 2025 tivemos cerca de um milhão de euros em projetos aprovados – e ainda só vamos a meio do ano – muitos em colaboração com empresas e parceiros de I&D que reconhecem o nosso trabalho e procuram o nosso apoio técnico e científico. Atuamos com complementaridade com outros parceiros e desenvolvemos projetos em conjunto, incluindo em áreas inovadoras como inteligência artificial aplicada à análise sensorial e ação climática. Não fazemos o desenvolvimento de software, mas damos o suporte técnico e científico necessário para garantir confiança e fiabilidade nos produtos.

Atualmente que tipo de projetos têm em curso?

O CATAA já concluiu 32 projetos. Atualmente, temos 13 em curso apenas na vertente laboratorial, aos quais se juntam projetos da incubadora. Posso por exemplo, destacar 4 projetos europeus em curso: o Neuroclima – que é o desenvolvi- mento de uma plataforma de inteligência artificial para apoio aos cidadãos em temas climáticos; o HUB4FOOD – apoio à transformação de produtos com origem no mar Atlântico; o TID4AGRO – plataforma de análise sensorial neurosensorial com sensores não invasivos e IA e o PASPACK 4.0 – desenvolvimento de embalagens sustentáveis, ativas e inteligentes, com base em subprodutos alimentares da região mediterrânica, como é o caso de cascas de romã e caroços de tâmara. Nos projetos nacionais em curso, temos parcerias com várias empresas. Um exemplo é o ensaio de conservação de cereja com atmosferas ionizantes, uma tecnologia inovadora de uma empresa italiana (Fruit Control), para testar o seu efeito na conservação da cereja e pêssego, nomeadamente na prevenção de podridões causadas por fungos.

E os projetos concluídos? Quer mencionar alguns?

O projeto Fusilli, um projeto H2020 financiado pela Comissão Europeia, foi estruturante para Castelo Branco. O projeto FUSILLI foi um dos projetos europeus mais estruturantes para Castelo Branco. Financiado pelo programa Horizonte 2020, contou com a participação de 34 parceiros europeus, e teve um financiamento total superior a 12 milhões de euros, dos quais mais de 600 mil euros foram atribuídos a Castelo Branco. Desenvolvido em parceria com a Câmara Municipal de Castelo Branco e o InovCluster, o projeto visou transformar o sistema alimentar urbano, promovendo práticas mais sustentáveis, inclusivas e saudáveis em toda a cadeia alimentar — da produção ao consumo.

No âmbito do Living Lab de Castelo Branco, implementaram-se centenas de ações, entre as quais temos por exemplo:

A dinamização da iniciativa “Produto do Mês” no Mercado Municipal, promovendo o consumo local e sazonal com degustações, atividades escolares e material informativo;
A criação de hortas escolares e o envolvimento dos alunos em atividades práticas nas Hortas Sociais da Quinta do Chinco;
Oficinas alimentares educativas para crianças e jovens, como a produção de queijo, a extração de mel e azeite;
Desenvolvimento de novos produtos alimentares nas unidades de tecnologia alimentar do CATAA, com base em ingredientes locais e sazonais;
Estudo clínico para explorar o efeito da Kombucha na saúde;
Atividades de promoção da alimentação saudável em escolas do concelho e na Universidade Sénior, conduzidas pela nutricionista do CATAA e restante equipa.

O FUSILLI teve também impacto na revitalização do Mercado Municipal, na dinamização de showcookings com chefs locais, na promoção de feiras gastronómicas, e na realização de eventos técnico-científicos, como o Congresso Internacional “Farm to Fork”, com a participação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Este projeto posicionou Castelo Branco como cidade-piloto europeia na transição para sistemas alimentares mais resilientes e alinhados com as prioridades FOOD2030, tendo ainda contribuído para a assinatura do Pacto de Milão para Alimentação Urbana pela Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa. Estamos todos muito orgulhosos pelo facto de o FUSILLI ter sido reconhecido pela Comissão Europeia como exemplo inspirador – vejamos, por exemplo, o recente rela- tório estratégico da Comissão “Shaping the Future of Food Research and Innovation”.

Outro exemplo é o projeto Cultivar, em parceria com a Universidade de Coimbra, o IPCB e o Instituto Pedro Nunes. Caracterizámos zonas de paisagem e os seus produtos agrícolas. Estudámos, por exemplo, a castanha e o marmelo, identificando variedades mais adequadas e avaliando o seu valor nutricional e efeitos na saúde. Realizámos até um estudo clínico com consumo diário de castanha para análise bioquímica e impacto na microbiota intestinal.

De que forma o CATAA apoia a inovação no setor agroalimentar?

A missão do CATAA é fechar o ciclo alimentar. Criamos alimentos, desenvolvemos processos e fazemos a análise. E mais recentemente, tentamos perceber o impacto do consumo desses mesmos alimentos na saúde do consumidor. Temos laboratórios de físico-química (acreditado ISO 17025), microbiologia e biologia molecular, bem como de análise sensorial.

Usamos tecnologias avançadas como sequenciação de nova geração para microbiomas ou para ainda detetar patogénios com mais rapidez e fiabilidade. Estamos também a certificar o nosso painel sensorial de mel, esperando obter a acreditação ISO 17025 ainda este ano.

Segundo Christophe Espírito Santo, o CATAA é um elo fundamental entre inovação e mercado

Quais os principais desafios das empresas com que trabalham?

Os desafios são muitos. O desperdício alimentar é uma preocupação central. No projeto PASPACK 4.0, aproveitamos resíduos de romã e tâmara para criar embalagens sustentáveis.

Noutros projetos, trabalhamos com o soro das queijarias, altamente nutritivo, mas pouco aproveitado em Portugal. A ideia é integrá-lo em produtos inovadores que não alterem o sabor nem afastem os consumidores. Outro desafio é a inovação alimentar. Por exemplo, trabalhámos o feijão-frade da Lardosa (Castelo Branco), um produto emblemático em declínio. Criá- mos um snack expandido através de extrusão (processo com calor, água e pressão), ainda em fase de protótipo. É preciso pensar no menos óbvio para tentar obter produtos prontos a comer, de forma fácil e se aliarmos uma textura crocante, poderemos estar a contribuir para promover a alimentação vegetal e nutritiva nos jovens.

A análise sensorial é uma área pouco visível, mas cada vez mais valorizada. Qual a sua importância?

É absolutamente essencial. Nenhum produto sai do CATAA sem análise sensorial. Se não for bem aceite, reformulamos a receita ou até abandonamos o protótipo. A aceitação varia por região: um produto bem recebido no Algarve pode não ter sucesso no Norte. A análise sensorial ajuda as empresas a perceberem se o produto agrada ao mercado-alvo. É também essencial na definição da estratégia de posicionamento e segmentação.

Há setores que têm evoluído mais nos últimos anos?

Sim. O setor do azeite tem tido um grande salto qualitativo e na valorização. O azeite português é cada vez mais reconhecido e exportado. Apesar do aumento de preços, isso traduz-se em melhor remuneração para os produtores. O setor dos lácteos também tem tido visibilidade. A título de exemplo, tivemos no ano passado, um queijo premiado como o melhor do mundo, produzido na Soalheira (Cova da Beira). Contudo, a valorização ainda não acompanha a qualidade, e a produção de leite está em declínio, o que ameaça o setor. Ser pastor é uma profissão exigente e precisa de mais apoio e reconhecimento (…).

→ Leia a reportagem completa na Revista Voz do Campo – edição de julho 2025, disponível no formato impresso e digital.

Assista a vídeo-reportagem ao CATAA:


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One thought on “CATAA é um centro de inovação e desenvolvimento ao serviço do setor agroalimentar

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