A Agenda Mobilizadora InsectERA, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), está a transformar o setor agroindustrial em Portugal.
Este ambicioso projeto reúne mais de 40 entidades — entre empresas, centros de investigação, universidades e associações — com o objetivo de criar um novo setor bioindustrial baseado na utilização de insetos como ferramenta circular para valorização de subprodutos e produção de novas soluções sustentáveis.

“Criámos novas soluções — soluções circulares”, afirma Daniel Murta, um dos principais rostos da iniciativa.
“Encontrámos novas formas de valorizar subprodutos agrícolas e encontramos novas formas de criar proteínas de elevado valor nutricional, óleos e fertilizantes”, argumenta.
No centro desta transformação estão três espécies de insetos: grilos, tenébrios e moscas, utilizadas para desenvolver mais de 100 produtos, processos e serviços, entre eles alimentos para animais, ingredientes para consumo humano e fertilizantes orgânicos.
“A utilização industrial destas soluções naturais permite produzir em grande escala novas ferramentas, nutrientes, mas também produzir novas soluções químicas como o quitosano ou óleos refinados para a indústria”, explica Daniel Murta, ao mesmo tempo que fundamenta: “É a maneira de criar mais com os mesmos recursos naturais”.

A colaboração com parceiros nacionais tem sido essencial para o sucesso da Agenda.
Entre os exemplos práticos, destaca-se o produto happyOne Premium, desenvolvido pela petMaxi, uma ração inovadora e hipoalergénica para animais de estimação. “É uma ração nova e hipoalérgica com vantagens funcionais para os animais e que é altamente palatável”, detalha orgulhoso Daniel Murta.
No setor agropecuário, outras soluções incluem novas formas de alimentação para suínos, criadas pelas rações Zêzere, bem como alimentos inovadores para aquacultura, desenvolvidos pela Soragal.
“São novas maneiras de fazer mais com o mesmo, ser mais sustentável e arranjar soluções funcionais para que a nossa agropecuária seja mais resiliente”, vinca.
A inovação chega também aos fertilizantes. Produtos como os fertilizantes orgânicos da EntoGreen, da The Criccket Farming e da Thunder Foods já estão a ser aplicados em larga escala em culturas como olivais, amendoais e hortícolas.
“Os insetos chegaram a Portugal para dinamizar o setor agroindustrial e para conseguirmos ser mais sustentáveis”, considera.
Com o apoio de entidades oficiais como a Câmara Municipal de Santarém, a DGAV, e associações como a IACA, Agrotejo e a PBIO, a “Agenda Mobilizadora InsectERA é uma oportunidade única de Portugal se colocar na vanguarda do novo setor bioindustrial”. 
FOMOS OUVIR ALGUNS DOS PARCEIROS:
Jaime Piçarra – secretário-geral da IACA
“A nossa participação na Agenda InsectERA tem um objetivo: estudar alternativas viáveis às matérias-primas tradicionais utilizadas na alimentação animal. Queremos perceber até que ponto os insetos, sob a forma de farinhas ou óleos, podem competir com ingredientes como a soja, que é hoje a principal fonte proteica do setor (…).
Acreditamos que é essencial encontrar alternativas. Não só por razões de sustentabilidade, mas também porque somos altamente dependentes de mercados externos e há exigências crescentes do consumidor, nomeadamente em relação aos OGMs. Os insetos podem ser uma resposta concreta e, por isso, o nosso foco está no eixo INFEED, onde estamos a caraterizar tecnicamente estas novas matérias-primas (farinhas e óleos de insetos) e avaliamos o seu impacto na alimentação dos animais”.
Ana Sofia Santos – CEO do FeedInov
“Somos um dos quatro laboratórios colaborativos envolvidos nesta Agenda (…). No FeedInov, temos como missão validar a utilização de farinha de inseto em alimentação animal. Não estamos só a testar em laboratório — estamos já numa fase de ensaios piloto-industriais e a preparar o upscaling para aplicação em contexto real.
A nossa aposta é totalmente focada em resultados aplicáveis. Testamos a performance de aves e suínos alimentados com estas farinhas, acompanhamos o desenvolvimento dos animais e, fazer a transferência de conhecimento para que as empresas de alimentação animal, com base nos resultados obtido, possam avaliar usar esta matéria-prima inovadora em alimentação animal”.
José Manuel Costa – chefe de divisão de alimentação animal da DGAV
“Desde que a FAO alertou para a necessidade de aumentar a produção alimentar para dar resposta a uma população mundial que, em 2050, deverá atingir os 10 mil milhões, que temos vindo a acompanhar soluções alternativas de proteína. A proteína de inseto é uma dessas soluções — e uma das mais promissoras.
Trata-se de uma fonte sustentável, rica em proteína, que pode substituir nos alimentos compostos algumas proteínas de eleição como a soja ou o milho na alimentação animal”.
Ana Monteiro – gestora do FeedInov
“No eixo InFeed, que temos o privilégio de liderar, o nosso foco é demonstrar o valor real dos insetos na alimentação animal. Conduzimos ensaios com peixes em aquacultura, frangos de carne, galinhas poedeiras, suínos — e até testes de palatabilidade para alimentos de cães. Trabalhamos em parceria com a IACA e com outras entidades para desenvolver fichas técnicas detalhadas dos produtos derivados de insetos.
Já temos um exemplo concreto no mercado: um alimento para cães através da petMaxi formulado com farinha de insetos (…). Existem oito espécies de insetos autorizadas, mas esta agenda só está a trabalhar com três espécies A nossa aposta tem estado, sobretudo, na mosca soldado negra”.
Olga Moreira – investigadora do INIAV
“O InsectERA é um grande projeto que envolve muitos parceiros, e onde o INIAV participa em diferentes eixos (…). Coordenamos o eixo InBioremediation, centrado na biorremediação e biorrefinaria de produtos à base de insetos.
Temos desenvolvido processos de biorrefinaria à escala laboratorial, com forte componente química e física. Estes processos já estão prontos para avançar para escalas mais avançadas — o nosso objetivo é atingir o TRL 7-8”.
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