Autoria

A. Saragoça¹*; R. Lourenço¹; M. Pérez²; A. Espejo²; L. Royano³; A.I. Parralejo³; J. González³; A. Gama¹; O. Póvoa1,4; N. Farinha1,4; F. Mondragão-Rodrigues1,4,5; A. Brito1; A. Cordeiro1,5

A recuperação da biodiversidade nos agroecossistemas da união europeia

A comissão europeia lançou no ano de 2020 a “Estratégia de biodiversidade para a UE para 2030” com o lema “Trazer a natureza de volta às nossas vidas”. Nesta estratégia, reconhece-se que as práticas agrícolas do passado e as opções culturais das últimas décadas tem contribuído para a redução da biodiversidade nos campos agrícolas da União Europeia. Também se enumeram os benefícios de uma maior biodiversidade na UE, como as vantagens económicas e de segurança alimentar na produção agrícola, alavancada por uma maior diversidade, salientando que os ecossistemas mais biodiversos também são mais resilientes frente ás alterações climáticas. Por isso, esta estratégia define um conjunto de medidas, a implementar até 2030, como o objetivo de restaurar a natureza, aumentando as áreas protegidas e os corredores ecológicos, implementando práticas agrícolas mais sustentáveis, promotoras de biodiversidade, que permitam reverter o declínio dos polinizadores, diversifiquem as culturas agrícolas e incrementam os serviços dos ecossistemas, incluindo os dos agroecossistemas.

Monitorizar para regenerar: biodiversidade em parcelas de cânhamo

A monitorização da biodiversidade é um dos pilares do projeto BGREENER (0066_BGREENER_4_E), financiado pelo programa Interreg VI-A España-Portugal (POCTEP) 2021- 2027 e desenvolvido na região transfronteiriça EUROACE (Centro de Portugal, Extremadura e Alentejo). Entre os seus objetivos está a criação de espaços agrícolas mais resilientes. Neste âmbito, o projeto tem vindo a estudar o impacto na biodiversidade do cultivo de cânhamo industrial (Cannabis sativa L.), uma cultura ancestral com forte potencial ecológico e agronómico. Conhecida pelo seu crescimento rápido, baixa exigência hídrica e resistência a pragas (García-Tejero et al., 2019; Gill et al., 2023), o cânhamo apresenta ainda uma elevada capacidade de fixação de carbono e potencial para substituir matérias-primas convencionais em setores como a construção, a alimentação e a cosmética. Embora o cânhamo não dependa de polinizadores para se reproduzir, por ter polinização anemófila, produz quantidades elevadas de pólen, o que o torna um recurso alimentar relevante para insetos benéficos, sobretudo em períodos de escassez floral (O’Brien & Arathi, 2019; Saunders, 2018). Estudos recentes indicam que esta planta pode atrair e sustentar comunidades de polinizadores, contribuindo para a diversidade funcional dos ecossistemas agrícolas (González-Varo et al., 2013; Potts et al., 2010).

Entre agosto e dezembro de 2024, foram monitorizadas parcelas de cânhamo instaladas em Elvas, no âmbito do projeto BGREENER, com o apoio de câmaras automáticas. No total, registaram-se 126 dias de observação, incluindo o período de cultura ativa (48 dias) e de pousio (78 dias). Foram geradas cerca de 50 mil imagens, permitindo detetar 19 espécies de fauna selvagem, entre aves e mamíferos.

Espécies detetadas: sinais de um ecossistema em funcionamento

Entre as aves registadas destacam-se o picanço-real (Lanius meridionalis) (Figura 1), o mocho-galego (Athene noctua), o peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinnunculus) (Figura 2) e a garça-boieira (Ardea ibis) — todas espécies com funções ecológicas relevantes, como o controlo de pragas e a dispersão de sementes. Também foram observadas várias espécies de aves canoras, como a laverca (Alauda arvensis) e o cartaxo-comum (Saxicola rubicola), indicadoras de habitat saudável. No grupo dos mamíferos, registaram-se ocorrências de texugo (Meles meles), raposa (Vulpes vulpes) (Figura 3), lebre-ibérica (Lepus granatensis) (Figura 4) e saca-rabos (Herpestes ichneumon). Estes dados revelam que, mesmo em contextos agrícolas, ainda existe uma atividade significativa da fauna silvestre, o que sublinha a importância de práticas que minimizem a perturbação dos habitats.

Os primeiros resultados obtidos no âmbito do projeto BGREENER demonstram que é possível conciliar a produção agrícola com a promoção da biodiversidade, mesmo em culturas menos convencionais como o cânhamo industrial (…).

→ Leia este e outros artigos completos na Revista Voz do Campo – edição de julho 2025, disponível no formato impresso e digital.

Autoria, Referências Bibliográficas e Agradecimentos

Autoria

A. Saragoça¹*; R. Lourenço¹; M. Pérez²; A. Espejo²; L. Royano³; A.I. Parralejo³; J. González³; A. Gama¹; O. Póvoa1,4; N. Farinha1,4; F. Mondragão-Rodrigues1,4,5; A. Brito1; A. Cordeiro1,5

¹ Instituto Politécnico de Portalegre, 7300-100 Portalegre, Portugal
² CTAEX, Centro Tecnológico Nacional Agroalimentario Extremadura, 06195 Badajoz, España
³ CICYTEX, 06187, Guadajira, España
4 VALORIZA—Centro de Investigação para a Valorização de Recursos Endógenos, 7300-110 Portalegre, Portugal
5 MED, Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, 7006-554 Évora, Portugal
*Autor correspondente: 18954@ipportalegre.pt

Agradecimentos

O projeto 0066_BGREENER_4_E está cofinanciado pela União Europeia através do Programa Interreg VI-A España-Portugal (POCTEP) 2021-2027.

Referências

https://qr.me-qr.com/pt/text/RYDwle6h