Opinião de Margarida Batista → Especialista em Marketing
Durante décadas, a agricultura em Portugal foi vista como um setor essencial à produção, e completamente alheio às dinâmicas do marketing — como se bastasse apenas cultivar bem para vender melhor.

A terra falava por si, e os produtos, dizia-se, “vendiam-se pela qualidade”. No entanto, o mundo mudou. Enquanto outras indústrias aprenderam a comunicar valor, a diferenciar-se e a criar marcas com identidade, muitos negócios agrícolas continuam a operar em silêncio, dependentes da sazonalidade e da proximidade geográfica. O resultado? Um campo fértil, mas ainda pouco semeado do ponto de vista estratégico.
Há valor, no entanto falta voz
É inegável que Portugal é rico em diversidade agrícola — dos vinhos aos azeites, das frutas às hortícolas, passando pelas flores e pelos produtos regionais. No entanto, grande parte desta riqueza continua invisível aos olhos do consumidor comum. Não por falta de qualidade, mas por ausência de narrativa. Os produtores falam de produção, não de posicionamento. Valorizam rendimento, porém esquecem a perceção de valor.
Faltam histórias. Falta autenticidade comunicada de forma estruturada. E falta uma noção clara de que o marketing não é um luxo urbano, é uma ferramenta essencial para a sustentabilidade de qualquer negócio.
O Agro está na moda — mas a imagem ainda não chega lá
Nos últimos anos, a agricultura ganhou um novo brilho. Surgiram influenciadores rurais, os conteúdos sobre vida no campo disparam em visualizações, e até marcas de moda e lifestyle começaram a flertar com o universo agro. O “agro” está a tornar-se sexy — ou pelo menos, começa a ser percebido como tal.
Mas, enquanto o mundo urbano romantiza a terra, muitas empresas ligadas ao setor agrícola ainda hesitam em assumir uma identidade de marca clara. Há um fosso entre o valor real do setor e a forma como este se apresenta. O produto é excelente, o saber é autêntico, a tradição é valiosa — porém a comunicação não está a acompanhar.
O momento é propício. Existe curiosidade, existe abertura e há espaço para criar narrativas que liguem o rural ao contemporâneo, sem perder a verdade, nem cair na caricatura. A oportunidade está em transformar presença digital em presença emocional — e isso exige um pouco mais do que publicar fotos de colheitas ou promoções de adubo. É preciso linguagem, estética e intenção. É preciso trazer a agricultura para o centro da conversa com autoridade, beleza e verdade.
A marca agrícola é uma ferramenta de valorização
Uma marca quando bem estruturada pode transformar um produto comum num símbolo. E, o setor agrícola tem tudo para beneficiar desta força estratégica. Criar uma marca não é apenas desenhar um logotipo ou manter uma página no Instagram — é construir coerência, despertar emoção, garantir consistência visual e, sobretudo, comunicar a verdade. Trata- -se de alinhar visões — do campo ao mercado, todos devem reconhecer o mesmo valor.
Em mercados locais ou de exportação, a marca pode ser a diferença entre vender por quilo ou por história. Quem não a cultiva, entrega o seu valor ao preço do dia. No digital, como no terreno, de pouco vale a quantidade quando falta qualidade. Não se trata de publicar todos os dias, mas de comunicar com intenção. Num mundo saturado de conteúdos, é a identidade que distingue — e a marca, quando bem trabalhada, leva identidade até ao consumidor com clareza e valor.
O futuro pede mais visão e menos improviso
O marketing na agricultura em Portugal ainda está a dar os primeiros passos – os sinais de mudança existem. Há empresas no setor a investir em identidade, a contar a sua história com autenticidade, a criar conteúdos de valor e a posicionar- -se. Acredito que são estas exceções que apontam o caminho. É tempo de abandonar a ideia de que comunicar é vaidade. Comunicar é sim, estratégia. Chegou o momento de trocar o improviso pelo planeamento, de sair da sombra da produção e ocupar o espaço da percepção. Afinal, aquilo que não se comunica, não existe. Na mesma medida, aquilo que não se valoriza, acaba por perder valor.
O campo está pronto. O consumidor está atento. E o mundo? Pede cada vez mais autenticidade, proximidade e propósito. O marketing na agricultura em Portugal não pode continuar a ser uma ideia adiada. É uma urgência. Uma oportunidade. É um caminho que, se bem trilhado, pode assegurar o futuro de todos os que dão vida ao setor agrícola — produtores, lojas, distribuidores e todas as empresas que, com conhecimento e dedicação, fazem crescer muito mais do que produtos, constroem valor.
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