Os sistemas tradicionais de criação de ovinos de carne em Portugal assentam no pastoreio de áreas florestais, pastagens espontâneas e semeadas e de resíduos de culturas, com recurso a suplementação com forragens conservadas (feno e silagem), grãos e alimentos concentrados à base de cereais, nas épocas de escassez de pastagem. No entanto, a imprevisibilidade climática decorrente do atual contexto de alterações climáticas, coloca grande pressão nos sistemas de produção animal, fortemente dependentes da produção agrícola de sequeiro. Esta situação é particularmente evidente no sul de Portugal, região onde se tem verificado uma grande oscilação na disponibilidade natural de recursos alimentares para os animais. Os coprodutos agroindustriais são uma alternativa viável aos recursos alimentares convencionais.

Silagens mistas com coprodutos da agroindústria

Pela sua composição química, valor nutricional e aceitabilidade, vários coprodutos da agroindústria são adequados para utilização na alimentação animal. No entanto, o seu uso coloca vários desafios devido à sazonalidade, variabilidade na composição química e elevada perecibilidade. A ensilagem de coprodutos com outras matérias-primas tem mostrado ser uma boa opção para conservar coprodutos com elevado teor de humidade e utilizá-los para além da sua época de produção. A mistura com forragens e palha é uma boa estratégia que permite reduzir a excessiva humidade na mistura, facilitando assim o processo de ensilagem [1]. Resultados publicados recentemente pela nossa equipa mostram que a ensilagem de misturas de batata-doce, dreche de cerveja e feno de luzerna (Silagem BDDC) ou de capota de amêndoa, dreche de cerveja e feno de luzerna (Silagem CADC) dão origem a silagens estáveis, de boa qualidade e bem aceites pelos animais (Tabela 1, Figura 1) [2].

Tabela 1. Ingredientes, composição química
e parâmetros fermentativos de silagens mistas
com coprodutos agroindustriais [2]
A – Silagem composta por batata-doce, dreche de cerveja e feno de luzerna (Silagem BDDC); B – Silagem composta por capota de amêndoa, dreche de cerveja e feno de luzerna (Silagem CADC)

Para a produção destas silagens, o feno de luzerna (cortado com um cumprimento de cerca de 10 cm) foi utilizado como absorvente para reduzir os níveis de humidade na mistura. Para facilitar a compactação, a batata-doce foi cortada em pedaços (≈ 1 cm de diâmetro). As misturas foram preparadas num misturador estacionário e ensiladas em sacos de plástico preto com cerca de 40 kg com o auxílio de uma máquina de ensilagem (Figura 2). Estas misturas resultaram em silagens com elevado teor em proteína bruta (≈ 19% na matéria seca (MS)), com cerca de 53% MS de fibra em detergente neutro (NDF) e com uma digestibilidade da matéria orgânica na ordem dos 52% (Tabela 1). A batata-doce é uma fonte de amido e tem um nível considerável de açúcar, pelo que a silagem com batata-doce apresentou níveis mais elevados de amido e açúcar. Ambas a silagem apresentaram um valor de pH baixo (entre 4,00 e 4,29), e os teores de NH3-N e N solúvel inferiores a 10% e 60% do N total, respetivamente, valores que mostram a boa qualidade das silagens [3].

Figura 2. Máquina de ensilagem

Silagens mistas com coprodutos da agroindústria na dieta de ovelhas lactantes

Ambas as silagens com coprodutos foram incluídas em dietas para ovelhas de carne em lactação, substituindo 66,6% da MS do alimento concentrado (Figura 3). Entre e parto o desmame dos borregos, foi avaliado o impacto da substituição parcial do alimento concentrado pelas silagens no peso e estado metabólico das ovelhas, composição e perfil de ácidos gordos do leite e crescimento dos borregos [2]. Ovelhas que recebiam apenas o alimento concentrado para ovelhas lactantes e feno foram usadas como controlo. As ovelhas aceitaram bem ambas as silagens. A substituição parcial do alimento concentrado pelas silagens com coprodutos não afetou o estado energético e proteico e o peso corporal das ovelhas ao longo da lactação, nem o crescimento dos borregos, sendo o ganho médio diário e o peso vivo ao desmame de 271 g/dia e 18,1 kg, respetivamente. A composição proximal do leite (sólidos totais, proteína, lactose e gordura) também não foi afetada pelas dietas, mas verificaram-se alterações na composição em ácidos gordos, destacando-se o aumento do ácido vacénico (18:1 trans-11) que é reconhecido pelos seus potenciais efeitos benéficos na saúde do consumidor, e a redução do 18:1 trans-10 ao qual têm sido associados efeitos negativos [4]. Considerando os preços das matérias-primas, a substituição parcial do alimento concentrado pelas silagens com coprodutos agroindustriais permitiu reduzir os custos com a alimentação das ovelhas entre 22% (com a silagem BDDC) e 37% (com a silagem CADC), comparativamente à dieta controlo, apenas composta pelo alimento concentrado e feno.

Figura 3. Ovelhas a consumir a dieta com silagem mista com coprodutos agroindustriais

A ensilagem é uma boa abordagem para preservar coprodutos agroindustriais, como a batata-doce, capota de amêndoa e dreche de cerveja, produzindo um alimento de boa qualidade que pode ser utilizado na alimentação de ovelhas lactantes reduzindo os custos com a alimentação e sem comprometer o desempenho animal.

Agradecimentos

Projeto “SubProMais – Utilização de subprodutos na alimentação animal” financiado pelo FEADER através do PDR2020, e Fundação para a Ciência e a Tecnologia pelo financiamento dos projetos MED (UIDB/05183/2020), CIISA (UIDB/00276/2020), CHANGE (LA/P/0121/2020) e AL4AnimalS (LA/P/0059/2020).

Bibliografia

Dentinho, et al., 2023. Anim. Feed Sci. Technol. 298, 115603. https://doi.org/10.1016/j.anifeedsci.2023.115603; 2. Jerónimo, et al., 2025. Anim. Feed Sci. Technol. 325, 116345. https://doi.org/10.1016/j.anifeedsci.2025.116345; 3. Demarquilly, C. e Andrieu, J., 1990. Forrages. Alimentacion de Bovinos, Ovinos y Caprinos. Mundi-Prensa Ed, Madrid; 4. Alves, et al., 2021. Lipids 539–562. https://doi.org/10.1002/lipd.12324

Eliana Jerónimoa,b e Mª. Teresa P. Dentinhoc,d,e

a Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (CEBAL) / Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), 7801-908 Beja, Portugal. b MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento & CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, CEBAL, 7801-908 Beja, Portugal. c Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Polo de Inovação de Santarém, Quinta da Fonte Boa, 2005-048 Vale de Santarém, Portugal. d CIISA – Centro de Investigação Interdisciplinar em Sanidade Animal, Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal. e Associate Laboratory for Animal and Veterinary Sciences (AL4AnimalS), Avenida da Universidade Técnica, 1300-477 Lisboa, Portugal

Leia este e outros artigos exclusivos na edição de julho 2025 da Revista Voz do Campo.