O setor do milho em Portugal assume uma importância significativa na agricultura nacional. Com cerca de 48.500 produtores envolvidos, a produção de milho está concentrada, sobretudo, nos distritos de Santarém, Braga, Porto e Aveiro, que se destacam como os principais polos de cultivo. Em 2024, a área total cultivada foi de aproximadamente 100 mil hectares, resultando numa produção global de cerca de 282 mil toneladas.
Este setor tem um impacto económico relevante, estimando-se que movimente, de forma direta e indireta, cerca de 40 milhões de euros por ano (Fonte: ANPROMIS). Entre as principais pragas que habitualmente afetam a cultura do milho estão a Sesamia (Sesamia nonagrioides), a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), a melolonta (Melolontha melolontha), o alfinete (Agriotes spp) e insetos sugadores (afídeos e tripes) e ácaros. Diversas doenças comprometem também o desenvolvimento da cultura, como a fusariose (Fusarium moniliforme), o míldio, a ferrugem (Puccinia sorghi), e outras, disseminadas por insetos vetores como é o caso do Vírus do nanismo rugoso (MRDV – “Maize Rough Dwarf Virus”).
O MRDV é um dos problemas fitossanitários que atualmente gera mais preocupação no setor do milho.
Este vírus da família Reoviridae e do género Fijivirus, é transmitido pela cigarrinha do milho, Laodelphax striatellus, um vetor com uma distribuição geográfica ampla, com presença em várias regiões euro-asiáticas. Em Portugal, o MRDV é um problema fitossanitário “re-emergente” cuja importância tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos. O seu controlo revela-se particularmente difícil, uma vez que não existem atualmente soluções de gestão verdadeiramente eficazes. Esta situação tem sido agravada pelos efeitos das alterações climáticas, já que os invernos mais suaves favorecem taxas mais elevadas de sobrevivência dos vetores, aumentando assim o risco e a incidência da doença. Os principais sintomas associados à presença do vírus incluem um crescimento geral atrofiado da planta, frequentemente acompanhado pelo enrolamento das folhas (Figura 1). Estas tendem também a apresentar escurecimento, adquirindo um aspeto rugoso e espessado. Ao nível do sistema radicular, observam-se fendas longitudinais, especialmente evidentes nas raízes adventícias, o que compromete ainda mais a vitalidade da planta e a sua capacidade de absorção de nutrientes.

De acordo com dados de 2024, a generalidade das amostras vegetais recentemente recolhidas apresentou resultados positivos para o vírus, embora se trate ainda de uma amostra reduzida. As perdas de produção associadas a esta infeção podem atingir até 32% da produção total, particularmente em solos arenosos (Fonte: ANPROMIS). As perdas podem atingir até 80% em Espanha e 70% na Grécia.
Em Portugal, não existe informação concreta sobre a prevalência do vírus nos insetos vetores.
No entanto, em Espanha, o vírus foi detetado em 20% a 95% dos vetores analisados, tornando-o atualmente a principal ameaça à cultura do milho nesse país. A gestão da doença causada pelo MRDV depende essencialmente do controlo da população do inseto vetor, uma vez que não existem tratamentos diretos eficazes contra o vírus. Entre as práticas recomendadas incluem-se a rotação de culturas e sementeiras precoces, que permitem que o milho se desenvolva antes da chegada em massa dos vetores adultos. O controlo de infestantes, tanto nas bordaduras como nas imediações dos campos, e remoção de resíduos de plantas infetadas são práticas importantes, uma vez que podem servir de reservatório para o vírus e favorecer a sua disseminação na campanha seguinte.
A aplicação de inseticidas continua a ser uma das soluções mais eficazes na redução do número de vetores e do vírus, embora envolva riscos de desenvolvimento de resistência por parte dos vetores, riscos ambientais e de saúde pública, o que exige uma utilização criteriosa e enquadrada em estratégias de proteção integrada. Outra medida relevante é a utilização de variedades de milho resistentes ou tolerantes ao vírus.
Embora a disponibilidade destas variedades possa ser limitada, sempre que possível, a sua adoção representa uma estratégia eficaz para mitigar os efeitos da doença, contribuindo para uma produção mais estável e reduzindo a dependência de tratamentos químicos. No contexto da gestão do MRDV, têm vindo a ser explorados métodos digitais para a deteção de plantas infetadas, com o objetivo de permitir uma intervenção mais localizada e eficiente. No entanto, a informação disponível sobre a eficácia destes métodos na deteção de plantas infetadas, nomeadamente a utilização de sensores multiespectrais e RGB, continua a ser escassa. Saliente-se ainda a preocupação crescente com pragas e doenças emergentes como o coleóptero Diabrotica virgifera ou outros vírus do nanismo, como o MDMV (“Maize Dwarf Mosaic Virus”), ambos de origem americana e com presença recente confirmada em França e Espanha, respetivamente. A sua situação atual em Portugal é ainda desconhecida.
Uma última nota para as infestantes emergentes, como a figueira-do-inferno (Datura stramonium), cuja distribuição alargada e toxicidade para animais e humanos representa uma crescente preocupação de saúde pública.
Vários casos de intoxicação associados ao consumo de milho contaminado com esta planta já foram registados em território nacional.

O panorama fitossanitário do milho em Portugal exige uma vigilância contínua, investimento em investigação e aplicação de estratégias integradas e sustentáveis, capazes de responder a uma realidade cada vez mais dinâmica e imprevisível.
Autoria: Nuno Faria – InnovPlantProtect
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