Opinião de Hugo Almeida – Secretário-Geral da FENAFLORESTA
Ao longo de milénios, as florestas têm sustentado o desenvolvimento humano e económico das sociedades e vão continuar a sê-lo.
Madeira para habitação e abrigo. Frutos, bagas e casca para alimentação e saúde. Madeira para aquecimento e cozinha, construção naval e artesanato. Florestas para ar, água, solo. Florestas para embalagens, papel, biocombustíveis. Florestas para fibras têxteis. E podíamos continuar!
As florestas são elemento central na resposta às alterações climáticas, estão na linha da frente como fornecedores de produtos substitutos aos derivados dos combustíveis fósseis e são a matéria-prima de excelência para um desenvolvimento assente na (bio)economia circular.
Olhar para o futuro do setor florestal implica reconhecer que, hoje, esta Floresta – que tem contribuído para o desenvolvimento global – se encontra muito mais vulnerável a fatores de stress, como os fogos rurais e as pragas, devido às alterações climáticas. Simultaneamente, esta Floresta vai continuar sujeita às consequências das transformações demográficas e do abandono rural, do aumento da procura de produtos à base de madeira e produtos não lenhosos, da disputa por solo para diversas utilizações, entre outros fatores de risco.
Fatores estruturais ligados à propriedade, como são, a fragmentação e a muito pequena dimensão das propriedades têm sido apontados, um pouco por toda a Europa, como fatores limitantes da rentabilidade das explorações florestais e dos seus proprietários. Aliás, na 1ª Conferência Europeia de Pequenas Explorações Florestais, advogou-se que a gestão coletiva é um caminho para minimizar os efeitos daqueles constrangimentos e que as organizações de produtores florestais (OPFs) são o elemento-chave e o veículo para o fazer. No entanto, existem questões que não passam somente pela gestão coletiva, como identificado nos relatórios do GT para a Propriedade Rústica que identificaram bem as soluções, faltando, portanto, a ação.
A criação de uma estrutura de missão para a propriedade rústica, na dependência do Primeiro-Ministro, com a missão bem definida para, numa década, reduzir ao mínimo possível os impactos negativos causados pelos fatores estruturais da propriedade rústica referidos, seria dar um passo importante.
As OPFs têm hoje uma ligação ao território muito mais profunda e enraizada, do que quando foram criadas e incentivadas há umas décadas. Hoje, apesar de todas as contrariedades, assumem uma presença importante de fixação de recursos humanos qualificados e não qualificados, são reconhecidas como entidades locais e muitas estarão em condições de assumirem no futuro algumas competências e funções do Estado. Havendo essa possibilidade, esta deve ser discutida e acordada previamente.
A nível nacional, os futuros modelos de gestão coletiva, que deverão ter por base uma evolução das atuais zonas de intervenção florestal (ZIFs 2.0), precisam de associar uma visão económica e de rendimento à sua atual política de redução de riscos e proteção, e incentivar a coexistência da gestão coletiva e efetiva de áreas contíguas ou separadas, mas assentes em modelos económicos capazes de conciliar e adaptar três condições centrais: (1) especificidades de cada zona/ região; (2) adaptação e mitigação das alterações climáticas; (3) tendências de mercado de produtos de base florestal ou serviços de base florestal (é importante perceber-se para quê e para quem estou a produzir, por ex: paisagem).
Apesar de o setor florestal ser um long-term sector, é crucial reconhecer a aceleração das transformações a que está sujeito. Impulsionadas pelas alterações climáticas e pela dinâmica da ordem política mundial, estas mudanças e as suas consequências exigem uma urgência clara na abordagem dos desafios atuais. Isso implica um investimento em inovação, investigação e desenvolvimento, não apenas a nível tecnológico, mas também social, político e financeiro. Visão que faltou no Plano de Intervenção para a Floresta para 2050 (PIF2050), apresentado pelo governo.
Como refere QU Dongyu, Diretor-geral da FAO, “a velocidade com que novos desafios ao desenvolvimento sustentável estão a surgir só é igualada pela taxa em que as inovações estão a surgir para lidar com eles”.
Paralelamente há que capacitar os atuais e os futuros quadros técnicos nessas inovações e ferramentas tecnológicas, bem como em tendências de mercado, para que possam otimizar e melhorar a gestão do território, potenciar a sua relação com os “donos” das terras – que irão ficar cada vez mais longe, física e emocionalmente, dos seus bens –, e com os “produtores” de bens que pretendem continuar a investir. Urge captar (e preservar) recursos humanos qualificados para o setor florestal e a inovação e a tecnologia do setor podem dar uma ajuda, sendo fundamental uma política de valorização e diferenciação da atividade profissional associada à floresta (…).
→ Leia o artigo completo publicado na edição agosto/setembro 2025 da Revista Voz do Campo.



