A Varroa destructor, vulgarmente conhecida como varroa, é um ácaro parasita invasor que ameaça as colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera) em Portugal, provocando a doença conhecida como varroose. Este parasita causa danos diretos às abelhas e atua como vetor de diversos vírus, contribuindo para o enfraquecimento progressivo das colónias e, em casos extremos, para o seu colapso.
Resultados do questionário efetuado no âmbito do projeto Mite.
Neste âmbito, o projeto MITE – Varroa e vírus transmitidos: MonItorização de muTações e dEsenvolvimento de ferramentas moleculares inovadoras (mite.ipb.pt) é um projeto financiado pelo Programa Apícola Nacional e decorre entre 2023 e 2027. Tal como descrito por Henriques et al. (2024) na revista Voz do Campo de fevereiro/2024, este projeto tem vindo a monitorizar, a nível nacional, as populações do ácaro V. destructor e a saúde das colónias de abelhas (A. mellifera).
O projeto coordenado por investigadores Instituto Politécnico de Bragança (IPB)/ Centro de Investigação de Montanha (CIMO), conta com a valiosa colaboração de apicultores de norte a sul do país e a cuja participação tem sido essencial para o sucesso do projeto.
Desde o início do projeto, já participaram 84 apicultores, que contribuíram com amostras provenientes de 154 apiários distribuídos por todo o território nacional (Figura 1). Desses participantes, 49 (58%) enviaram amostras de varroas diretamente para o IPB/CIMO, enquanto as amostras dos restantes 35 apicultores foram recolhidas presencialmente (visitas aos apiários) pela equipa de amostragem do MITE entre os meses de abril e maio de 2025.
Em cada apiário, foram selecionadas, no mínimo, três colmeias para amostragem, conforme as instruções disponíveis no site mite.ipb.pt.
– Identificar populações de varroa com mutações associadas à resistência aos piretróides e ao amitraz em Portugal.
– Detetar a presença do vírus das asas deformadas (DWV) nas abelhas.
Paralelamente às amostragens, foi realizado um questionário de âmbito nacional direcionado aos apicultores envolvidos. A grande maioria dos participantes enviou amostras e respondeu ao questionário (N = 80), enquanto alguns enviaram apenas as amostras, sem responder ao questionário (N = 4), e outros responderam ao questionário, mas não enviaram amostras (N = 6). Além disso, nove apicultores responderam mais de uma vez (N = 9), por possuírem mais de um apiário e adotarem estratégias de maneio distintas em cada um deles. Ao todo, foram obtidas 96 respostas ao questionário, provenientes de 86 apicultores (Figura 2).
O objetivo do questionário foi de obter dados nacionais dos apicultores relativamente a:
– Tipo de apicultura praticada (convencional ou biológica);
– Estratégias adotadas para o controlo da varroa;
– Número e tipo de tratamentos aplicados (ex: amitraz, timol, ácido oxálico, etc.);
– Prática de rotação de tratamentos;
– Marcas comerciais de acaricidas utilizados (p. ex., Apivar®, Apistan®, Apiguard®, etc.);
– Variações na dosagem de acaricidas ao longo do tempo.
Das 96 respostas obtidas, foi possível compreender as estratégias adotadas pelos apicultores para gerir os seus apiários face à presença da varroa. A análise apresentada na figura 3 revela que a esmagadora maioria dos inquiridos pratica apicultura convencional (N=91), enquanto apenas um pequeno grupo se dedica à apicultura biológica (N=5). Na figura 3B, estão representadas as principais estratégias de controlo da varroa utilizadas, destacando-se o uso de varrocidas (93,62%), pela substituição regular de quadros e ceras (82,98%) e pelo desdobramento das colmeias (68,09%). Estes dados demonstram que os apicultores recorrem frequentemente a uma combinação de técnicas, evidenciando uma preocupação ativa com a saúde e sustentabilidade das suas colónias.
Embora exista apoio financeiro para apenas dois tratamentos anuais contra a varroose em Portugal, a maioria dos apicultores indicou realizar três tratamentos por ano (44%). No entanto, também foi registado um número significativo de respostas que apontam para quatro ou mais tratamentos anuais (29%).
Quanto à prática de rotação de tratamentos, 56 apicultores afirmaram realizá-la, enquanto 40 disseram não a praticar. No entanto, ao analisar os tipos de rotação de substâncias ativas utilizadas, verificou-se que apenas 40 apicultores a realizavam de forma efetiva, enquanto 49 declararam não o fazer. Entre os que inicialmente afirmaram fazer rotação, nove utilizavam exclusivamente produtos à base de amitraz, o que não constitui uma verdadeira rotação de substâncias ativas. Esses casos foram reclassificados como não praticantes, passando a integrar o grupo de 49 apicultores que não realizam a rotação.
Dificuldades no controlo das populações de varroa pode estar associado à resistência ao amitraz
Estes dados mostram a dificuldade crescente no controlo das populações de varroa o que pode estar associado ao surgimento de populações resistentes aos amitraz, como já foi documentado noutros países (Hernández-Rodríguez et al., 2021, 2024; Rinkevich et al., 2023). Para mitigar esta problemática, é fundamental a rotação de substâncias ativas utilizadas nos tratamentos. Importa salientar que a simples alternância entre diferentes produtos comerciais que contenham a mesma substância ativa não é suficiente para reduzir eficazmente a pressão seletiva sobre as populações de varroa, podendo perpetuar ou acelerar o surgimento de populações resistentes aos acaricidas. Idealmente, a rotação deve contemplar alternância entre produtos de origem orgânica e sintética, prática que foi mencionada por 40 apicultores inquiridos (Figura 4).
Apivar®, Amicel® e Apitraz®, são os produtos mais utilizados pelos apicultores
Quanto às marcas de acaricidas mais utilizadas, divididas por tipo (amitraz, piretróides, entre outros), a grande maioria dos apicultores indicou a utilização dos três produtos homologados em Portugal à base de amitraz – Apivar®, Amicel® e Apitraz® – os quais representam, no conjunto, 75% das respostas. Esta forte preferência por produtos à base de amitraz reflete-se na composição geral dos tratamentos utilizados, sendo que 77% dos acaricidas aplicados são sintéticos e apenas 23% orgânicos (Figura 5). Além disso, 53 apicultores referiram ter aumentado gradualmente a dosagem dos tratamentos ao longo do tempo, o que poderá estar associado à diminuição da eficácia dos produtos. Contudo, o aumento da dosagem constitui uma prática desaconselhada, uma vez que pode resultar na contaminação dos produtos da colmeia, comprometer a saúde das abelhas e acarretar riscos ambientais. A repetição frequente desta abordagem pode ainda intensificar a pressão seletiva sobre as populações de varroa, favorecendo o desenvolvimento de populações resistentes aos acaricidas utilizados (…).
→ Leia este e outros artigos completos, na Revista Voz do Campo – edição de agosto/setembro 2025, disponível no formato impresso e digital.
Autores: Maíra Costa1, Cláudia Alves Rodrigues1, Alice Maria Pimenta Leal da Silva1, Carlos A. Yadró1, Ana R. Lopes1, Antonio Pérez-Pérez2, Raquel Martín-Hernández2, Mariano Higes2, Maria José Valério3, Nuno Capela4, M. Alice Pinto1, Dora Henriques1
Autores correspondentes: Maíra Costa (maira.costa@ipb.pt), Dora Henriques (dorasmh@ipb.pt).
1 CIMO, LA SusTEC, Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal.
2 Laboratorio de Patología Apicola, IRIAF— Instituto Regional de investigación y Desarrollo Agroalimentario y Forestal, Centro de investigación Apicola Y Agroambiental (CIAPA), Consejería de Agricultura de La Junta de Comunidades de Castilla-La Mancha, Camino de San Martin S/N, 19180 Marchamalo, Spain.
3 Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), Laboratório de Veterinária – Serviço de Patologia Apícola, Av. da República, Quinta do Marquês (edifício sede), Oeiras, Portugal.
4 Centre for Functional Ecology, Department of Life Sciences, Associated Laboratory TERRA, University of Coimbra, Portugal.
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