Autoria: Astride Sousa Monteiro – ANPOC

A Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas (ANPOC) tem como missão representar e defender os interesses dos produtores de cereais, oleaginosas e proteaginosas; e promover a investigação e a divulgação para a melhoria das condições de produção, transformação e comercialização destas culturas. Ao longo dos seus quase 45 anos, a ANPOC tem procurado, por um lado, facilitar a concentração, a diversificação e a adaptação da oferta às exigências do mercado; e, por outro, num contexto mais científico, promover a investigação, a experimentação, a demonstração e a disseminação das melhores práticas agrícolas e empresariais.

Transversalmente a estes objetivos, a ANPOC tem colaborado ativamente na definição de políticas públicas para o setor, incorporando, continuamente, a preocupação com a sustentabilidade e com os três pilares que a compõem: ambiental, económico e social.

O projeto PRR +VALORCER, enquadrado numa lógica de inovação e conhecimento, surgiu, precisamente, para responder de forma integrada aos desafios atuais do setor agrícola através da promoção da sustentabilidade, capacitação técnica e tecnológica, e implementação de sistemas avançados de gestão e rastreabilidade.

Pretendia-se um catalisador de transformação no setor dos cereais, integrando várias dimensões de inovação e profissionalização, num esforço de fazer evoluir as Organizações de Produtores do setor dos cereais. Este catalisador foi a criação de uma Blockchain, envolvendo não só os cereais praganosos (ANPOC), mas também o milho (ANPROMIS) e o arroz (AOP). Esta tecnologia proporciona rastreabilidade avançada, garantindo transparência em toda a cadeia de valor.

O projeto PRR +VALORCER quis representar, assim, um marco na estratégia de reforço da fileira dos cereais em Portugal. Um projeto que não só incentiva a produção e a valorização dos cereais nacionais como um todo, mas também contribui para reforçar a coesão, a competitividade e o reconhecimento do setor junto da sociedade e dos mercados.

O projeto foi desenhado como um processo integrado, em que cada fase alimenta a seguinte. A definição de requisitos de produção permitiu mapear e analisar processos produtivos, identificando pontos fortes, debilidades e lacunas. Com base neste diagnóstico, foi construído um roteiro de ações de capacitação e definida a solução de Blockchain. Paralelamente, reuniu-se informação para delinear uma estratégia de marketing e comunicação para aumentar a visibilidade e valorização dos cereais nacionais.

A aposta da ANPOC na capacitação técnica e tecnológica é grande e estava focada, até então, na Formação Técnica de Cereais de Outono/Inverno (https://www.anpoc.pt/formacao). Um programa posto em prática com a colaboração do INIAV e do IPBeja, que vai agora para a sua 9ª edição, e que já formou mais de 200 participantes. Focada na adaptação dos itinerários técnicos das culturas ao seu potencial produtivo, a Formação Técnica de Cereais de Outono/Inverno pretende formar agricultores, técnicos de Organizações de Produtores, alunos de cursos da área agronómica e técnicos de empresas do setor agrícola em contexto real, dotando-os de ferramentas para aumentar a eficiência dos processos produtivos.

O +VALOCER veio diversificar esta oferta e permitir endereçar o esforço de capacitação junto das estruturas gestoras das Organizações de Produtores suas associadas, através da definição de módulos formativos especializados e construídos especificamente para colmatar lacunas pré-identificadas. Estes módulos formativos incluíram a participação de três Faculdades da Universidade NOVA de Lisboa: a NOVA SBE, responsável pelo módulo que abordou as áreas de Liderança, Estratégia e Marketing; a NOVA IMS, responsável pelo módulo que abordou as temáticas de Gestão de Risco e Mercados Financeiros e ainda de Business Intelligence; e a NOVA FCSH, responsável pelo módulo de Sustentabilidade, onde foram abordados temas como o ciclo do carbono na interface atmosfera-planta-solo; a criação de valor a partir de serviços de ecossistema e critérios para uma certificação ambiental.

Estes módulos formativos tiveram um impacto bastante relevante nas Organizações, com consequências muito positivas na definição de estratégias e na implementação de novas formas de gerir, analisar e apresentar dados essenciais para uma tomada de decisão mais informada e eficiente.

O campo da sustentabilidade também não era novo para a ANPOC ou para as suas Organizações Associadas. A ANPOC liderou o projeto BPA.Eco, centrado nos serviços dos ecossistemas, e é parceiro no projeto ibérico LIFE SOS Pygargus, em curso até 2030, focado na conservação do Tartaranhão-caçador, uma ave que prospera nas searas de cereais para grão e que se encontra em extinção.

O projeto +VALORCER, neste âmbito, veio trazer toda uma nova abordagem, mais empresarial, que serviu para valorizar a produção através da integração de modos de produção sustentável no esquema de valorização dos cereais. Ou seja, a perspetiva deixou de estar exclusivamente associada ao modo de produção (implementação de boas práticas agrícolas por si só, reservadas à produção), para estar associada, também, à criação de valor acrescentado, partilhando alguma responsabilidade ambiental com os agentes subsequentes da cadeia de valor.

E, a este nível da sustentabilidade, o impacto do +VALORCER foi ainda maior do que o esperado. A implementação de uma Blockchain para o setor dos cereais, inicialmente pensada para estreitar a relação com o consumidor final, veio a revelar-se ainda mais importante para a criação de uma maior proximidade com a indústria e o retalho, através da integração de critérios que respondem aos padrões cada vez mais exigentes de responsabilidade ambiental, social e de governança e que podem vir a ser partilhados nos relatórios de ESG de todos os parceiros da cadeia de valor.

Finalmente, ao nível da comunicação, as expetativas também são grandes. O desenvolvimento de uma linha de investigação baseada na Teoria dos Modelos Mentais, com o objetivo de alinhar a comunicação entre os diferentes intervenientes da fileira, está em curso e promete obter dados para a construção de uma estratégia comunicacional mais eficaz e adaptada à realidade dos produtores, da fileira e do mercado.

O balanço à data é, assim, muito positivo. O projeto +VALORCER não só demonstrou que é possível integrar diferentes setores e parceiros, como evoluir em função dos resultados, sem nunca esquecer os objetivos traçados inicialmente. É possível dizer-se que hoje, não estando o projeto ainda concluído, temos estruturas organizacionais mais capacitadas e dotadas de ferramentas passíveis de as tornarem mais eficientes. Estruturas com maior conhecimento do mercado e capacidade de negociação e, muito em breve, munidas de uma capacidade acrescida de comunicação e valorização dos produtos.

O projeto +VALORCER foi e é uma aposta ganha.

Trouxe qualificação técnica das Organizações de Produtores do setor dos cereais, um fator determinante para a resiliência e modernização do setor.

Trouxe a possibilidade de trazer mais valor acrescentado aos cereais nacionais através da incorporação de tecnologias de registo digital, promovendo a rastreabilidade e a diferenciação no mercado.

Trouxe uma maior articulação de processos entre produtores, indústria e distribuidores, assegurando maior eficiência e resposta dinâmica à procura.

E trará um conhecimento mais profundo sobre a compreensão generalizada do setor dos cereais, o que permitirá ajustar a linguagem de comunicação, desde o produtor ao consumidor.

Em suma, o projeto +VALORCER tem-se revelado fundamental para a modernização, qualificação e valorização do setor dos cereais em Portugal, demonstrando-se uma iniciativa de elevado impacto e sucesso para todos os intervenientes envolvidos.