Autoria: Gilberto Lopes, Field Technical Lead Atlantica & Norte na Syngenta
A realidade da viticultura duriense merece uma reflexão séria e urgente. Permitam-me.
No início da campanha, ainda em abril, as principais casas compradoras de vinho generoso começaram a informar os viticultores de que, em 2025, só iriam receber as uvas relativas ao benefício, devido à conjuntura de mercado e aos elevados stocks. Isto deixou milhares de produtores numa situação de incerteza (ainda na memória a vindima de 2024): o que fazer com as restantes uvas? Tratar toda a vinha? Só parte? Muitos optaram por reduzir tratamentos ao mínimo, tentando salvar o que podiam, numa primavera marcada por doenças e condições meteorológicas adversas.

Ainda antes das eleições, já se alertava para a gravidade da situação. O resultado eleitoral não trouxe mudanças, e as decisões tardaram. Muito se falou sobre soluções: destilação, queima de excedentes, compensações, mas as respostas concretas foram escassas e tardias. Em julho, foi anunciado um corte drástico no benefício: 75.000 pipas, menos 15.000 pipas que no ano anterior, menos 29.000 que em 2023. Um golpe duro no rendimento dos viticultores.
Chegados a final de agosto, surge finalmente a medida de apoio à destilação chegou tarde, com um valor de 0,50€/kg (375€ pipa – equivalante a 750 kg de uva). Será suficiente? Será que foi devidamente ponderada face à quebra de produção já evidente no terreno? Muitos produtores já antecipavam perdas de 30 a 40%, muito acima das previsões oficiais de finais de julho a rondar os 20%.
Durante a vindima, as regras mudaram constantemente criando ainda mais instabilidade junto dos pequenos viticultores (a maioria da região). Ouvimos respostas contraditórias das casas compradoras, ora recusando, ora aceitando excedentes, sem transparência nem previsibilidade. Primeiro não se aceitava excedente, depois aceitava-se 20% acima do benefício, depois aceitava-se toda a uva branca… e a tinta? Só benefício. E a uva para queima? Muitos operadores recusaram aderir à medida. Onde está a lista pública de quem aderiu? Vamos saber quem aderiu e os quantitativos dessa mesma adesão?
Esta semana, ao ajudar na vindima dos meus pais, pequenos viticultores com cerca de 4 ha, ouvi o que muitos ouviram neste fim de semana: “Entreguem a uva tinta que tiverem, nós aceitamos”. O mesmo operador que há 15 dias dizia o contrário. E agora até há preço definido.
O Douro deve ser das poucas regiões, onde o viticultor entrega as uvas aos compradores sem que lhe digam o preço a que vão receber. Parece que ainda estão a fazer um favor em receber as uvas.
Esta realidade é insustentável. O Douro precisa de respeito por quem trabalha a terra, ano após ano, sem saber se vai conseguir escoar a produção ou a que preço. Não é apenas a lei da oferta e da procura – há mais de 20 anos que os preços estão estagnados. Se queremos fixar pessoas na região, garantir qualidade e futuro para o Douro, é preciso estabilidade, previsibilidade e, acima de tudo, respeito pelo viticultor.
Os viticultores durienses não podem ser marionetas de quem compra as uvas. Precisam de estabilidade para cuidar da vinha e entregar uvas de qualidade. Se queremos um Douro vivo, NÃO PODEMOS BRINCAR COM QUEM TRABALHA!

