A poda da oliveira continua a ser discutida nos meios académicos com base em conceitos vagos e pouco operacionais, que pouco evoluíram desde os tempos de Columela, o célebre agrónomo do Império Romano. Termos como “poda ligeira” permanecem indefinidos e sem impacto prático, já que muitos agricultores consideram que fazem sempre poda ligeira, independentemente da quantidade de rama que removem.

Este texto apresenta uma visão inovadora e prática sobre a poda manual do olival tradicional, com propostas concretas, simples de aplicar, mas ainda pouco assimiladas pela comunidade académica e pela generalidade dos produtores.

Importância da poda manual do olival

A poda manual do olival é uma prática de primordial importância nos chamados olivais tradicionais. Contudo, continua a ser praticada em termos genéricos, como descrito por Lucius Junius Moderatus Columella (nascido em 4 d.C.), o famoso agrónomo e escritor do Império Romano (Foster e Heffner, 1941). A diferença relevante é a redução da altura da copa, que vem sendo praticada à medida que a mão de obra para varejar e podar árvores gigantes foi escasseando no meio rural. Ainda assim, a poda deve receber a devida atenção, uma vez que tem forte impacto na produtividade e representa o principal consumo de mão de obra nesta cultura.

Embora a poda não aumente a produtividade por si só em relação a um regime de não poda, uma poda “bem feita” pode significar aumentos de produtividade acumulada ao longo dos anos superiores a 30%, em comparação com regimes de poda malconduzidos (Rodrigues et al., 2018; Lopes, 2021).

O que significa “podar bem”?

Todos os praticantes acreditam que podam bem. Porque será, então, que das ações de poda praticadas por diferentes operadores surgem resultados tão díspares (Figura 1)?

Figura 1. Três árvores bem podadas (!), no entender de quem executou as podas, em olival tradicional

Nesta fase, é importante entender o seguinte:
i) a não poda garante sempre a produtividade mais elevada, em comparação com qualquer outro regime de poda (Figura 2), tal como acontece com árvores saudáveis de ecossistemas naturais como a floresta amazónica; e
ii) a poda é sempre uma intervenção contranatura, que deve ser usada apenas para moldar a árvore às exigências do sistema produtivo, facilitando a mecanização e outras práticas culturais (Rodrigues et al., 2021; Rodrigues, 2024).

Em culturas como a vinha e o quivi, a poda é usada para ajustar a volumetria da copa ao compasso que lhes foi destinado e permitir a passagem de equipamentos na entrelinha. Em pomoídeas e prunoídeas, a poda ajuda a controlar um número excessivo de frutos e a ajustar os calibres, para assegurar o seu valor comercial. No olival para azeite, onde calibre e excesso de vingamento não são problema, a poda deve ser usada apenas para controlar a volumetria da copa e permitir a exploração comercial. Assim, “podar bem” significa manter a produtividade o mais próxima possível da não poda, mas com árvores conformadas para exploração comercial (Figura 3).

O conceito de poda a três cortes

Estudos realizados em Portugal mostraram que podas com remoção anual de até 15% da copa mantêm a produtividade equivalente à não poda (Rodrigues et al., 2018; Lopes, 2021). A partir deste princípio, surge o conceito prático de “poda a três cortes”. No essencial, a poda a três cortes apresenta as seguintes particularidades:

i) consiste em remover anualmente apenas os três ramos que mais se desviam da volumetria pretendida, normalmente subindo em altura ou afastando-se para as laterais;
ii) não mais de 15% da rama (estimativa visual) pode ser removida em cada ato de poda;
iii) pode ser iniciada em qualquer momento, mesmo em árvores não podadas há décadas. Nestes casos, a conformação desejada é atingida em 3 a 4 anos, mantendo a produtividade ao longo desse tempo; (…).

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Autoria e Referências

Autoria: Manuel Ângelo Rodrigues¹, Carlos Lopes² e Carlos Correia³

¹Centro de Investigação de Montanha (CIMO) e Laboratório para a Sustentabilidade e Tecnologia em Regiões de Montanha (SusTEC), Instituto Politécnico de Bragança;
²Associação de Agricultures de Portugal (APPITAD), Mirandela;
³Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB), Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real.

Referências: https://qr.me.qr.com/text/hPKo8yEB