Autoria: Luís Eduardo Perfeito Santa Maria, IPBEJA

A análise da eficiência dos sistemas de produção de bovinos de carne em regime extensivo tem merecido a investigação de vários autores nos respectivos países. Entre os temas abordados estão os diversos sistemas existentes que surgem como consequência dos diferentes usos de uma mesma paisagem e consequentes diferenças no maneio dos animais, em procura de uma solução ótima por parte do criador (Capillon, 1985; Liénard et al. 1992, 1996).

Nesta perspectiva, os índices do plano de produção precisam de ser analisados periodicamente para avaliar o cumprimento dos objectivos da exploração, sendo a eficiência de cada sistema uma função dependente das características biológicas dos animais e da gestão dos parâmetros económicos (Wolfová, et al., 2005).

Pelos motivos acima expostos, a fase de desmame é uma das mais importantes no ciclo produtivo de uma exploração de bovinos de carne. Por um lado, porque é o momento em que se identifica a capacidade maternal das mães, por outro, porque pode refletir-se no maior ou menor peso, na futura velocidade de crescimento e, finalmente, porque pode ser esse o momento escolhido pelo criador para efectuar a venda dos seus produtos.

Rentabilidade diária do vitelo aquando do desmame.

Como o peso ao desmame se reflecte directamente sobre o valor do vitelo, a tendência será sempre a de vender os animais o mais pesado possível, o que pode atrasar demasiadamente o desmame e sobrecarregar a produção leiteira da mãe, ao mesmo tempo que atrasa também a reposição da sua condição corporal.

Por outro lado, há a considerar a rentabilidade diária que o vitelo proporciona aquando do desmame, que por sua vez está dependente do intervalo entre partos. Logicamente, quanto menor for esse intervalo, menor será a diluição do valor do vitelo ao longo do tempo o que permitirá maximizar a rentabilidade diária.

Ciente de que o mercado sofre variações profundas ao longo do ano causadas pela concentração da oferta e da procura (nem sempre coincidentes), a interferência de operadores de grandes grupos, a irregularidade climática e o seu reflexo sobre a produção de pastagens e forragens e as crises internacionais imprevisíveis no tempo e na dimensão (guerra de tarifas EUA x UE, guerras no Médio Oriente, tensões e retaliações económicas UE x Federação Russa), não queremos deixar de alertar para alguns aspectos que estão sob a alçada dos criadores e que podem, de alguma forma, atenuar os impactos exteriores à sua actividade.

Por esse motivo, recorremos aos elementos publicados pelo Serviço de Leilões da Associação de Agricultores do Sul – ACOS, em Beja, para analisar até que ponto a venda de vitelos com idades compreendidas entre os 6 e os 8 meses é suficiente para remunerar esta actividade, independentemente do prémio pago à vaca aleitante.

Sobre este último aspeto, vale recordar que o mesmo tem sido paulatinamente reduzido ao longo dos anos, o que torna obrigatório melhorar todos os aspetos que afetem a eficiência das explorações.

Resultados económicos obtidos com a venda dos vitelos

Através do Serviço de Leilões da Associação de Agricultores do Sul – ACOS, foram recolhidos os dados de todos os animais leiloados com idades compreendidas entre os 6 e os 8 meses de idade. Estas idades foram selecionadas em torno da época de desmame, ao longo dos 24 leilões realizados, durante os anos de 2023 e 2024, com o objectivo de perceber quais os resultados económicos obtidos com a venda dos vitelos (machos e fêmeas) com esta idade.

Da observação efectuada, constatou-se uma tendência de subida geral dos preços de venda em 2024, em todas as categorias de animais, independentemente do sexo. Como se pode observar no quadro 1, a categoria que cresceu menos foi a das fêmeas de 7 meses, que valorizaram 7,31% e, no extremo oposto, a mais valorizada foi a dos machos de 7 meses com um crescimento de 18,53%.

Quadro 1. Variação de preço de machos e fêmeas com idades de 6, 7 e 8 meses ao longo dos anos 2023 e 2024

No quadro 2, podemos ver as diferenças que se verificaram entre machos e fêmeas em cada ano, sendo o valor médio dos machos superior ao das fêmeas, mas verificando-se uma redução da diferença, à medida que a idade avançava.

Quadro 2. Diferença de preços entre machos e fêmeas com idades de 6, 7 e 8 meses ao longo dos anos 2023 e 2024

Mercê dos factores externos antes referidos, não há uma linearidade na evolução da diferença de preços: em 2023 essa diferença foi menor nos animais de 7 meses (84,64€ a favor dos machos) e voltou a subir para 96,77€ nos animais de 8 meses.

Em 2024, a diferença de preços entre machos e fêmeas reduziu-se continuamente à medida que aumentava a idade dos animais.

As questões que se colocam

Apesar de ser uma amostra de apenas 2 anos, não deixa de se verificar a aleatoriedade da flutuação de preços e o grau de incerteza com que os criadores se debatem, relativamente ao momento de efectuar o desmame dos animais que pretendem vender. A idade a que se realiza o desmame pode variar em função do sistema e objectivos de produção, da raça explorada, da distribuição dos partos ao longo do ano ou até mesmo da região (Bento, 2013). Aqui começam a colocar-se as questões que condicionam a tomada de decisão:

1. Desmamar mais cedo e recorrer à suplementação do vitelo?
a) Até quando?
b) A suplementação do vitelo permite evitar a suplementação da vaca?

2. Desmamar mais tarde para obter um vitelo mais pesado?
a) Com suplementação do vitelo?… Sem suplementação do vitelo?…
b) O esforço extra exigido à vaca obriga também à sua suplementação?

3. Desmamar a uma idade ou peso pré-definidos sem qualquer suplementação?

4. Suplementar vitelo e vaca para que aquele seja pesado ao desmame e a vaca esteja sempre na sua melhor condição corporal?

Sendo que suplementação numa exploração pecuária quer sempre dizer “custo”, estas questões não são de menor importância e o criador deve abordá-las tendo sempre em conta os seus objectivos, o momento do parto, o momento do desmame e até a raça ou cruzamento de raças com que trabalha. Como observou Bento (2013), factores como o ano em que a vaca foi coberta, o período de cobrição e a raça do touro, afectam significativamente a idade do vitelo ao desmame. Para além destes factores, há ainda a conjuntura de mercado, que pode adiantar ou atrasar o momento da venda. Por outras palavras: as perguntas anteriores são simples, mas de resposta difícil por não existir uma solução que se aplique a todos os casos. Assim, vamos abordar apenas um factor que pode contribuir para o ajustamento do maneio e melhorar a eficiência da exploração: o intervalo entre partos (…).

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Autoria, Referências Bibliográficas

Autoria: Luís Eduardo Perfeito Santa Maria, IPBEJA

Referências: https://qr.me-qr.com

Agradecimentos: ACOS – Associação de Agricultores do Sul
*Escrito no âmbito do antigo acordo ortográfico