Nos últimos anos em Portugal, tem-se verificado o desaparecimento de inúmeras explorações de agricultura familiar, por falta de herdeiros na atividade agrícola ou devido à baixa rentabilidade agrícola, entre outras razões. Apesar desta situação, as explorações agrícolas familiares continuam a desempenhar um papel relevante na conservação e valorização de cultivares tradicionais, de raças autóctones, de práticas agroecológicas e de paisagens agrícolas e alimentares que constituem um património valorizado pelas sociedades.
Assim, é necessário, por um lado, valorizar e preservar os sistemas tradicionais de agricultura e, por outro lado, modernizar e promover a transição para sistemas de produção agroecológicos, mais sustentáveis (como a agricultura biológica, agricultura biodinâmica, entre outros), com menores impactos do que os associados à agricultura intensiva.
Garantir sistemas sustentáveis de produção através da implementação de práticas agroecológicas, permitirá aumentar a produtividade, manter os ecossistemas, fortalecer a capacidade de adaptação às alterações climáticas e a condições meteorológicas extremas (secas, inundações e outros desastres) e melhorar progressivamente a qualidade do solo.
Neste contexto, aprofundar as razões sociais, económicas e ambientais que estão na base da continuidade da agricultura familiar, enquanto fatores de sustentabilidade, é essencial para assegurar a manutenção destes sistemas agrícolas e alimentares.
Facilidades e dificuldades da AF na transição para sistemas de produção mais sustentáveis
Um estudo realizado em 2023, na região do Alto Minho de Portugal (Coelho et al., 2024), evidenciou que a predominância do minifúndio e de explorações de agricultura familiar é uma caraterística regional que induz bastantes desafios, nomeadamente, a necessidade de aumentar a dimensão das explorações agrícolas de forma assegurar um rendimento que permita a sua manutenção e uma qualidade de vida conciliável com as exigências sociais atuais. A AF nesta região continua a ser composta por pequenos núcleos familiares onde, para além da família próxima, outros familiares, amigos e vizinhos se ajudam nos períodos de maior necessidade de mão de obra. Para além do trabalho, esta partilha acrescenta rendimento e cria dinâmicas de convivência intergeracional.
Alguns destes agricultores familiares têm consciência da existência de impactos negativos associados à agricultura convencional (aquela que é baseada na simplificação dos sistemas de produção e químico-mecânica, dependente de fatores de produção externos e mais poluentes).
Em muitos casos, mantêm diversas práticas agroecológicas, como a rotação e consociação de culturas ou a mobilização mínima do solo de forma consciente e apenas quando necessária. Na fertilização das culturas e proteção contra pragas, doenças e plantas espontâneas, quando possível, combinam práticas como a incorporação de matéria orgânica no solo, com estrume, compostado ou adubação verde e utilizam armadilhas, biopreprados, luta biológica e enrelvamento, entre outras (Coelho et al., 2024) (…).
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Bibliografia
Coelho S, Mourão I, Costa, C. 2024. A transição agroecológica da agricultura familiar na região Norte de Portugal. X Congresso Internacional de Agroecologia – Livro de Atas, Instituto Politécnico de Viseu CERNAS-IPV, Unidade de Gestão do Centro de Estudos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade, 99-105.
Autoria
Sandra Coelho ¹,4*, Isabel Mourão ²,³ & Cristina Costa4
¹IDEGA – Instituto de Estudios y Desarrollo de Galicia, Universidade de Santiago de Compostela, Campus Universitário, Lugo, Espanha;
²Escola Superior Agrária, Instituto Politécnico de Viana do Castelo, R. D. Mendo Afonso, 147, Refóios, 4990-706 Ponte de Lima, Portugal.
³Centro de Investigação de Montanha (CIMO), Instituto Politécnico de Bragança, Campus Santa Apolónia, 5300-253 Bragança, Portugal.
4CERNAS-IPV- Research Centre for Natural Resources, Environment and Society, Escola Superior Agrária de Viseu, Quinta da Alagoa, Estrada de Nelas, 3500-606 Viseu, Portugal.
*correspondência: sandra.coelho@rai.usc.gal




