A cultura da oliveira é uma das principais a nível nacional, ocupando o olival uma área total de 376 mil hectares e destacando-se a região do Alentejo com aproximadamente 179 mil hectares. Embora os novos olivais sejam maioritariamente plantados com variedades estrangeiras, a procura por algumas variedades portuguesas, devido à extraordinária qualidade do seu azeite, continua a ser uma realidade.
Algumas dessas variedades apresentam uma capacidade limitada de propagação vegetativa pelos métodos convencionais (estacaria semilenhosa), mesmo quando aplicadas substâncias indutoras do processo. As baixas taxas de enraizamento têm conduzido ao desinteresse dos viveiristas pela propagação dessas variedades, o que, consequentemente, tem conduzido à redução da disponibilidade de plantas para novos olivais. Ultrapassar o problema da dificuldade de enraizamento destas variedades é por isso crucial, não só para preservar a tipicidade do azeite português, enquanto azeite produzido com variedades representativas do germoplasma autóctone, mas também para assegurar a manutenção da biodiversidade dos olivais e assim conservar a variabilidade genética do género Olea.
Protocolos entre Universidade de Évora e spinoff Microplant Lda
A Universidade de Évora, em colaboração com a sua spinoff Microplant Lda., tem vindo a desenvolver uma linha de trabalho que visa o estabelecimento de protocolos baseados em sistemas in vitro que permitam uma propagação eficiente de variedades de oliveira portuguesas. Presentemente, o sistema de propagação in vitro por microestacas (segmentos de caule com apenas uma gema axilar) permite já a multiplicação com sucesso das variedades ‘Galega Vulgar’ e ‘Lentrisca’.

Este processo de propagação, bastante mais eficiente que a estacaria semilenhosa, possibilita a produção rápida de milhares de plantas a partir de uma única microestaca, garantindo uniformidade genética e elevada qualidade fitossanitária, características indispensáveis à multiplicação controlada de genótipos superiores.
Embriogénese somática – sistema de propagação vegetativa alternativo à cultura de microestacas
A embriogénese somática é um processo de propagação in vitro ainda mais eficiente que a propagação por microestacaria. Neste, células somáticas sofrem um processo de desdiferenciação e reprogramação celular, dando origem a estruturas semelhantes a embriões zigóticos, mas sem que tenha ocorrido fecundação. Todas as plantas resultantes do desenvolvimento desses embriões serão assim idênticas à planta de onde foram retirados os tecidos iniciais utilizados no processo.
Para além de uma ferramenta eficiente na clonagem de plantas, a embriogénese somática pode, quando associada a abordagens modernas de engenharia genética e edição do genoma, permitir a produção de plantas com características melhoradas, como sejam uma maior tolerância a estresses bióticos, como pragas e doenças, e abióticos, como seca ou calor.

Apesar do seu potencial teórico, a técnica ainda não é aplicada de forma rotineira na propagação e melhoramento da oliveira, devido, em particular, ao comportamento recalcitrante associado à utilização de tecidos adultos no estabelecimento das culturas. Apenas algumas variedades demonstraram até agora uma resposta embriogénica eficiente quando estes tecidos (folhas, pecíolos, inflorescências) foram utilizados como explantes iniciais. De entre as variedades onde foi obtida uma resposta embriogénica positiva a partir de tecidos adultos, destacam-se as italianas ‘Canino’ e ‘Moraiolo’ e a espanhola ‘Picual’ (…).
→ Leia este e outros artigos completos, na Revista Voz do Campo – edição de dezembro 2025, disponível no formato impresso e digital.
Autoria: Rita Pires¹*, Hélia Cardoso², Lénia Rodrigues¹, Augusto Ribeiro³, Rodrigo Eugénio³, Augusto Peixe4
¹MED (Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento) & CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, IIFA (Instituto de Investigação e Formação Avançada), Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7002-554 Évora, Portugal. *rnpires@uevora.pt
²MED (Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento) & CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, Departamento de Biologia, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7002-554 Évora, Portugal.
³Microplant Lda., Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7006-554 Évora, Portugal.
4MED (Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento) & CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, Departamento de Ciências das Culturas, Universidade de Évora, Pólo da Mitra, Ap. 94, 7002-554 Évora, Portugal.
Agradecimentos
Este trabalho foi financiado pela FCT–Fundação para a Ciência e Tecnologia, I.P. no âmbito do projeto com referência UI/BD/153509/2022 (https://doi.org/10.54499/UI/BD/153509/2022) e MED através do projeto ID 10_2021 (“Desvendando as vias de sinalização da embriogénese somática – o papel das moléculas extracelulares como moduladores de eficiência”). Os institutos de investigação MED e CHANGE são financiados pela FCT, com os projetos com as referências MED (https://doi.org/10.54499/UIDB/05183/2020; https://doi. org/10.54499/UIDP/05183/2020) e CHANGE (https://doi.org/10.54499/ LA/P/0121/2020).

